Review | Coração Azedo, de Jenny Zhang

“Eu ainda sou a garota mais sórdida que você conhece?”, pergunta a protagonista de duas narrativas que encontramos na estreia enérgica da poeta e ensaísta, naturalizada norte-americana Jenny Zhang. Coração Azedo (Sour Heart), seu primeiro título, publicado pela Companhia das Letras, onde encontraremos contos ambientados em uma comunidade de imigrantes que trocaram a vida ameaçada na China e em Taiwan pelos percalços da Nova York dos anos 1990.

As histórias que compõem Coração azedo examinam questões de família, sexualidade, identidade e gênero a partir do ponto de vista de narradoras marcadas por seu passado, que lutam para se definir e descobrir quem são. Jovens narradoras – azedas e doces, selvagens e voluntariosas – que testemunham as jornadas de suas famílias nos EUA.

Seja a jovem tentando entender o papel de sua avó na Revolução Cultural, a filha lutando para estabelecer o limite entre ela e sua família, ou a garota que se dá conta do poder de seu corpo, a autora constrói um retrato cru e poderoso de uma realidade brutal, onde ser imigrante – e mulher – tem um custo alto a ser pago. São sete histórias curtas, que retratam uma parte da infância, problemática e importante. O momento onde meninas começam a descobrirem sua sexualidade, o que significa ser uma mulher no mundo. Seus contos são ancorados na experiência de ser chinês-americano, em meio aos conflitos internos, tanto quanto de identidade, culturais ou familiares.

Os contos se ligam em certos momentos, e todos seguem um padrão, as protagonistas são filhas de chineses, como a autora, nascida em Xangai, que vieram para os Estados Unidos para estudo e trabalho e de certa maneira, garantir uma vida melhor a sua família. O passado na China ainda voa vagarosamente, letárgico, com um martírio, dando às protagonistas um aspecto peculiar, todas são amargas por tentarem se libertar, em meio às cobranças do tradicionalismo dos pais e à identidade que estão descobrindo.

A autora Jenny Zhang

Zhang, que nasceu na China e cresceu em Nova York, tece uma narrativa na tapeçaria da experiência vivida por ela e por outros imigrantes chineses na América, uma realidade sombria para quem deseja construir uma nova vida em um novo país com recursos limitados. É difícil não se envolver emocionalmente com a leitura, e talvez isso seja parte das histórias de Zhang: não podemos desviar o olhar, enxugar o óleo residual das lutas dessas meninas e não sentir alguns de nossos dor própria em nossos dedos oleosos. A autora consegue nos levar a imaginar sobre como seria se fossemos uma Cristina, uma Annie, uma Mande ou uma Jenny, nomes de algumas das personagens apresentadas nos contos. Zhang usa, para narrar seus contos, uma linguagem carregada de amargura e sem pudor, com palavrões e insultos, imprimindo a dor e o amor, a alegria e o ódio como expressões da liberdade descoberta pelas pré-adolescentes. As descobertas e o desejo extravasado não estão para chocar, mas para compor intrinsecamente o que desejam e o que aprendem na nova terra.

Coração azedo é uma expressão sombria, crua e íntima sobre o que significa pertencer a uma família, encontrar sua casa, deixá-la, rejeitá-la e enfim retornar a ela. Nestas fissuras e silêncios abertas, Zhang dá vida a um coro de vozes ricas, uma narrativa do que é ser, falar e escrever através do sentimento de meninas imigrantes descobrindo a si mesmas em situações mais diferentes, dos mais belos aos mais abjetos.

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