Review | A caça ao Snark de Lewis Carroll

A editora Record, no seu selo Galera Junior, traz A caça ao Snark (The Hunting of the Snark, 1874), o clássico poema nonsense, de Lewis Carroll, escrito no século XIX.  O texto do autor de Alice no país das maravilhas ganha ilustrações de Chris Riddell, outro grande nome da literatura infanto-juvenil, além de tradução da poeta Bruna Beber.

O texto poético, pode parecer meio que inverosímel, pois trata de uma viagem impossível de uma tribulação improvável a procura de uma criatura inconcebível. Mas inspirou diversas adaptações, reproduções, segundas partes, musicais e uma grande variedade de interpretações. O autor conflui uma série de personagens tão díspares entre si, imprevisíveis para uma equipe que embarcam com um único objetivo caçar um ser que não sabemos se é um animal, um monstro ou outra coisa. Para dar uma ideia da tribulação, temos um sapateiro, um advogado, um açougueiro, um banqueiro e um castor como alguns dos dez tribulantes. Mas o que Lewis Carrol queria passar com esse seu poema?

Nada com nada ou tudo. O matemático Charles Lutwidge Dodgson, que ficaria conhecido por seu pseudônimo, Lewis Carrol, escreveu o poema da odisseia sem sentido quando lutava com suas crenças religiosas pelo que um familiar muito próximo padecia de uma enfermidade. Dentro de seis meses compôs os versos das 141 estrofes que foram organizadas em 8 seções/capítulos que chamou de fits. A pergunta que surge naturalmente é faz algum sentido mesmo? Carroll negou que tivesse um em particular, era sem sentido e pronto, mas não impede que seus leitores tratem de dar seu próprio significado.

Cada membro da tripulação tem uma ocupação que começa com a letra B (na versão original, em inglês): Bellman, Baker, Banker, Barrister, Billiard-Maker, Boots, Bonnet-Maker, Broker, Butcher e Beaver, o que poderia ter se perdido na versão em português, mas a tradução de Bruna consegue compor bem as rimas para nossa língua, com um cuidado ímpar na formação dos versos. Até certo ponto, encontramos as relações pessoais que surgem entre a tripulação, a interação de personagens tão diversos é bastante cômica e ousada.

O poema é possui um teor narrativo, pois busca contar uma história, mas nem como história e nem como poema é fácil de entender. Sem dúvida, é um jogo de palavras, que trata de temas como a morte e o perigo, com bastante humor e ideias fantásticas e caprichosas. A situação estranha conjuga o humor e a sensação de estarmos a frente de um texto mais profundo do que transparece, o que excita nossa curiosidade, levando a uma literatura que difere em muito o que conhecemos. Seria uma brincadeira de Carroll para o futuro?

Confiram ainda as ilustrações de Chris Ridell, que são fenomenais, o ilustrador de charges políticas do jornal inglês The Observer, consegue desenvolver ainda mais a comicidade dos versos.

Numa edição caprichada, A caça ao Snark, é um livro para o público infanto-juvenil, nonsense, como o ilustrador no prefácio anuncia, “incoerente, mas que pode ser usado na mesma medida em que expectativa, esperança, intimidação e sorrisos” surgem. Bem diagramada, que vale pelas ilustrações e pela tradução. Recomendo.

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