Review — Morphine, de Mario Cau

 

Já faz um bom tempo que conheço e acompanho o trabalho de Mario Cau, um autor que me inspira muito, não só na qualidade dos trabalhos, mas também no estilo do traço, na pegada de suas histórias, na variedade de técnicas que ele domina, e na quantidade desenfreada de quadrinhos que ele produz.

Formado em Artes Visuais pela UNICAMP (onde imagino, aprendeu a trabalhar com diferentes técnicas), começou sua carreira com quadrinhos no coletivo Quarto Mundo, trabalhando com vários títulos. Sua fase “autoral” começa com Pieces, onde retrata pequenos momentos cotidianos e que trazem algum tipo de reflexão. É dentro desse selo que se encontra Morphine, obra lançada em 2014, de modo independente, contendo 112 páginas em preto e branco, e com ela ganhou o prêmio Angelo Agostini de melhor desenhista. Entre outras publicações do quadrinhista, vale destacar Terapia, uma “webcomic” feita em parceria com Rob Gordon e Marina Kurcis, que eu particularmente aprecio muito, e que já ganhou dois troféus HQMix e uma edição impressa do 1º volume.

Morphine trata, basicamente, de um dia no cotidiano de três amigos, três jovens. A partir de pequenos acontecimentos, estes jovens refletem sobre como estão conduzindo suas vidas, principalmente nos seus relacionamentos. Há um certo destaque na personagem principal, mas Mario trata os secundários com semelhante profundidade, aliás esse é um dos pontos altos da HQ, as personagens são muito reais, muito verossímeis, e, o que mais me identifico, muito próximas da minha realidade, urbana e universitária. Mas não ache que as
relações entre as personagens são “fúteis”, longe de ser uma novelinha tipo Malhação, há uma reflexão profunda sobre
a natureza dos famosos “amores de jovens”, e apesar deles estarem em
semelhantes momentos de suas vidas, cada um está em uma situação própria.

A narrativa gráfica é perfeita. O quadrinhista consegue
ousar, brincar com quadros e requadros, mas sem comprometer o texto. Em um
certo momento da história, ele se supera, cria uma série de simbologismos sobre
como o protagonista se sente, usando todo seu conhecimento sobre quadrinhos e
desenhos, criando uma sequência gráfica inusitada,  bem diferente do que eu vinha imaginando com
a leitura.

Vale a pena destacar uma “tracklist”no final da HQ
com sugestões de músicas para serem ouvidas durante a leitura,  uma faixa por capítulo. Devo confessar que
não fui um leitor obediente, não segui a recomendação do Mario, mais por não
gostar de ouvir música enquanto leio, agora, para quem gosta e quiser  fazer o teste, as músicas são muito boas, com
uma pequena variação de estilos, alguns mais leves, outros um pouco mais
pesados.
Gostaria de ressaltar um único ponto que me inquietou, mas
que não compromete a obra em nenhum momento, apenas um incômodo de cunho
pessoal, é a falta de representatividade de todas as personagens cujos  traços são de pessoas brancas. Não há como
saber se foram realmente pensadas assim, pois é uma obra em preto e branco, me
pareceu um recorte social que não representa muito a realidade brasileira!

Enfim, esta HQ é uma obra envolvente e instigante do começo
ao fim, que te desperta o tempo todo a curiosidade para saber o que irá
acontecer na próxima página. Morphine
conta uma história que parte de uma proposta simples, sem grandes premissas,
mas extremamente bem contada, onde um leitor cuidadoso deve conseguir tirar
muitas reflexões mas, que um outro, sem muita atenção, pode deixar passá-las.
Recomendo a todos, acredito que cada um conseguirá extrair algo diferente.

Quem se interessou pelo trabalho do grande Mario Cau, pode
acompanhá-lo no coletivo petisco.org e no seu site mariocau.com. Ele vai
lançar, ainda este ano, um álbum no FIQ
e na CCXP, roteirizado em parceria
com André Diniz (outro excelente escritor) cujo título é “Quando fecha os
olhos”. Bem, quando eu vi a capa, fiquei maravilhado, está realmente
incrível!

Por João B Godoi
Amante da nona arte desde criança, tento ler de tudo desse universo da narrativa gráfica, e comecei a fazer minhas próprias histórias, que podem ser lidas no meu blog, diariodasdisputasdiarias.wordpress.com, ou no facebook.com/DiarioDasDisputasDiarias.

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