Review — Desengano, de Camilo Solano

Há algum tempo eu ouvi o nome desse quadrinista, “Camilo Solano”, e na época, confesso, nem dei muita bola, mas o nome ficou marcado para mim. À medida que ia conhecendo mais quadrinhos independentes, fui ouvindo cada vez mais sobre ele, e quando conheci seu trabalho me maravilhei, ele possui um traço muito pessoal, figuras enrugadas, meio tristes, e consegue usar as hachuras sempre a seu favor. 

De São Manuel, interior de São Paulo, formou-se em design gráfico na cidade de Bauru. Camilo tem 26 anos e 3 quadrinhos publicados, todos de forma independente. Seus dois primeiros trabalhos, “Inspiração” e “Captar” (que fez em parceria com Thobias Daneluz) são difíceis de serem encontrados, mas, uma boa notícia, no mês passado, ele lançou “Desengano”, que pode ser encontrado em lojas especializadas em quadrinhos, direto com ele no FIQ ou na CCXP, e é sobre essa obra que irei fazer uma pequena resenha.

A começar pela capa, Camilo já ganhou todo meu interesse, apesar de simples, ela passa muito sentimento. Os ladrilhos dão um ar de nostalgia, lembrando aquela casa antiga, que todo mundo já frequentou, seja de seu avô, ou de algum sítio, lembranças de antanho, que somado à personagem sentada, com cara de tédio, me instigou a querer saber do que se tratava a HQ.

Além disso, quando você bate o olho e vê que o prefácio é assinado por ninguém menos que Robert Crumb, já dá para entender que o quê eu estava prestes a ler tinha qualidade. E Crumb arrasa no prefácio, falando não só sobre Camilo, e sua “energia nova, criativa e empolgante”, mas também abordando toda a dificuldade que é fazer quadrinhos de cunho “pessoal”, jogando um balde de água fria em todos que sonham em seguir esse caminho.

Mas vamos falar sobre essa grande obra, “Desengano”. O protagonista, Juca, é a típica pessoa introspectiva, que na história,  foge do carnaval de São Paulo, e também de sua família, procurando alguns momentos de paz, para desfrutar de sua própria companhia. Com uma pegada cotidiana, a narrativa trata de pensamentos que o personagem vai tendo ao longo dos dias, fazendo você rir das situações mais mundanas e sem graça, como esperar na fila do supermercado. Um dos grandes méritos da HQ é a identificação, você consegue se ver no lugar da personagem, as situações que ele aborda, são situações que todo mundo já passou, os coadjuvantes, a família, são pessoas muito verossímeis, acredito que muitos vão relacionar com seus próprios familiares.

A narrativa gráfica funciona perfeitamente para a proposta, dá para perceber que o Camilo está familiarizado com a linguagem, conseguindo brincar bastante com o tempo das situações, como é o caso da fila do supermercado, que apesar de serem poucos minutos, parece uma eternidade. Na história toda há uma variação entre um traço mais sujo e carregado, e um mais limpo e claro, o que dá um efeito bem interessante, que eu nunca tinha visto ser usado em histórias em quadrinhos, mas comumente usado em animações. Também queria dar um destaque para as páginas que não possuem calhas, onde Camilo usa toda sua habilidade de design para fazer páginas belíssimas. A paleta de cores escolhida é bem interessante, e própria para a HQ, ela passa uma sensação de final de tarde no interior e de monotonia, mas ao mesmo tempo apresenta algumas cores mais saturadas, pois ainda é carnaval.

O acabamento é impecável. No lançamento, um amigo que me acompanhava,
ao pegar a obra em mãos, me perguntou qual editora que havia publicado, afinal ela é inteira colorida, possui papel de ótima qualidade, a diagramação é linda, ou seja, não deixa nada a desejar a qualquer outro gibi publicado hoje no Brasil.

Eu até poderia dizer que é uma história de amor, mas com uma pegada muito mais de realismo do que de romantismo, lembrando de certo modo  até Machado de Assis. Se você estiver esperando um romance parecido ao que passa na TV, o autor vai brincar com você, e te decepcionar propositalmente. Para os conhecedores de cultura pop e do universo dos quadrinhos brasileiros, esta obra é também  um prato cheio apresentando  muitos “easter eggs”. Portanto, (lá vem o trocadalho do carilho) não se engane com “Desengano”, é um baita álbum, engraçado, descompromissado, mas que imprime algum tipo de reflexão que merece ser lido. Seu autor é um quadrinhista excelente, jovem, com um futuro promissor  e que merece ter seu nome lembrado, e isso não sou eu que estou dizendo, é nosso aclamado, Robert Crumb.

Por João B Godoi
Amante da nona arte desde criança, tento ler de tudo desse universo da narrativa gráfica, e comecei a fazer minhas próprias histórias, que podem ser lidas no meu blog, diariodasdisputasdiarias.wordpress.com, ou no facebook.com/DiarioDasDisputasDiarias.

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