Review | Coração das Trevas de Conrad, Mairowitz e Anyango

A mais profunda crueldade do ser humano, todo o horror retratado em O Coração das Trevas fica ainda mais perturbador em pensar que essa exploração aconteceu, e ainda continua acontecendo, em níveis menores é claro, mas ainda acontece. O Conto de Joseph Conrad foi publicado pela primeira vez em 1902, se tornando com o passar das décadas, uma das mais importantes obras da literatura inglesa e também um importante registro da história dos colonizadores e exploradores do ocidente.

A história nos transporta para os acontecimentos vividos por Charles Marlow, um navegador que pensa que está apenas com a missão de trazer um carregamento de marfim pelo perigoso Rio Congo, porém ao se adentrar nas entranhas do rio seu objetivo muda, e passa a ser a de trazer de volta o renomado e praticamente tomado com semideus entre os selvagens, Sr. Kurtz, que segundo alguns relatos, está muito doente e apresentando sinais de loucura.

E adaptando fielmente a história de Conrad, temos essa bela edição da editora Veneta, em um acabamento em capa dura, com uma arte que nos coloca no meio da história, desde o início da narrativa nos sentimos parte da tripulação, uma narrativa fluída e muito bem integrada com as imagens, que literalmente nos prende na jornada pelo rio até os confins da loucura, nos fazendo pensar em todos esses reais acontecimentos.

Acompanhamos Charles Marlow em uma jornada sem volta ao extremo da exploração e do roubo imperial que era cometido nos congoleses devido ao marfim e a completa desumanização para com os habitantes, o que vemos aqui é a mais pura ambição, e a total falta de respeito com a vida, toda a matança cometida tanto nos animais quanto aos “trabalhadores” alcançou níveis de quase dizimar a população do país.

E no meio de todo esse caos, Marlow escuta com fascinação as histórias dos feitos do Sr.Kurtz e de toda a fama que permeia seu nome, até o esperado momento do seu encontro com esse quase divino comerciante, para então leva-lo de volta à civilização.

O destaque fica por conta do traço de Catherine Anyango, que nos transmite toda essa sufocante sensação caótica, aliada ao texto quase poético, a imersão é completa, o único defeito fica por conta da cor das letras e dos balões, transparentes demais e acabam atrapalhando um pouco em alguns momentos.

Uma curiosidade, Coração das Trevas foi adaptado na obra-prima de Francis Ford Coppola Apocalypse Now (1979), alterando do Congo para a Guerra do Vietnã, mas com o mesmo peso da denúncia aos exploradores e perseguidores dos nativos, com uma atuação fenomenal de Marlon Brando no papel do Sr.Kurtz.

A história que vemos em Coração das Trevas fica em nossas mentes tempos depois de acabarmos a leitura, todo o horror testemunhado por Kurtz e Marlow ainda está presente nos dias de hoje e das mais variadas formas. e ficamos com a pergunta, a verdadeira selvageria está nos atos dos “canibais” ou dos colonizadores que adentram no rio para impor sua vontade a todo custo?

REVER GERAL
nota
8
Músico, ator e viciado em tudo que rodeia a sétima arte, colecionador de livros e HQ's em excesso algumas vezes.

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