Review | Uzumaki, de Junji Ito

Em uma pequena cidade costeira do Japão, tudo parecia normal até que alguns de seus habitantes passam por momentos assombrosos que se colidem e eclodem em uma obsessiva espiral de terror. Como todos os fãs de Naruto conhecem, espiral em japonês, é Uzumaki, título deste mangá, uma dos mais assustadores ambientações já desenvolvidas em quadrinhos. Anteriormente, em 2006, a Conrad publicava em três edições, Uzumaki (Cicatriz, Farol Negro e Caos), que ano passado ganhou uma edição em volume único, pela Devir, no selo Tsuru.

Em 2000, a história foi adaptada para dois jogos de videogame (WonderSwan) e virou um filme de terror dirigido por Higunchinsky. Em 2003 foi indicada ao Prêmio Eisner de Melhor Publicação de Material Estrangeiro no Mercado Americano, e, em 2009, foi incluída na lista da Young Adult Library Services Association das 10 Melhores Graphic Novels para adolescentes.

Seu autor, Junji Ito, é o mangaká do terror, do macabro e do bizarro. E como tal, traz em Uzumaki além de tudo isso, numa incrível sensibilidade artística e crítica, um microcosmo intrincado, que abusa da metáfora do conflito e do pânico contida nas aparentes inofensivas espirais ao mesmo tempo que dialoga com problemas de nossa realidade.
Uzumaki é, não apenas o grande trabalho de Junji Ito, mas um dos melhores do gênero que já foi concebido.

Uzumaki nos leva a Kurouzu, um lugar calmo e tranquilo a meio caminho das montanhas e do mar, onde residem a protagonista, Kirie Goshima e sua família. Kurouzu é uma cidade cinzenta, até entediante, onde nada de anormal acontece. O cotidiano está entre o enclave rural, com o artesanato bem recorrente e o impulso da modernidade e urbanização que, às vezes, novas gerações exigem. No entanto, essa atmosfera monótona é quebrada quando um a um seus habitantes começam a ficar obcecado com a forma espiral, começando uma série de eventos inexplicáveis e sobrenaturais que, gradualmente, vão mergulhar Kurouzu em um mundo de pesadelo.

Não iremos passar mais detalhes sobre a narrativa para que seja desfrutada, mas podemos dizer que termos pela frente uma viagem à loucura e à degradação, da forma que Ito sabe apresentar com sua arte e sua capacidade de articular a história. Uma narrativa que também está estruturada como uma espiral, começando com histórias de aparência normal, que falam de obsessão e loucura para rastejar lentamente, desconcertando e perturbando para um final assustador. E não é apenas o susto, somos apanhados na espiral interminável de Uzumaki, capaz de fazer perder qualquer senso crítico e abraçar a loucura que assola os moradores de Kurouzu. Desta forma, Ito nos torna de espectadores a um personagem, que começa confuso e incrédulo com a obsessão dos personagens com as espirais para, passo a passo, transformados e transtornados com algo que não podemos fazer nada.

Uzumaki segue a estrutura clássica das histórias de Ito, sendo uma obra formada de pequenos contos bastante autoconclusivos mas que guardam uma relação com o contexto interno. A temática segue o terror de  H. P. Lovecraft, Uzumaki começa, como muitos contos lovecraftianos, com um narrador falando de uma história ocorrida há um tempo, aparentemente um relato normal em um primeiro momento, exceto quando o caminho da obsessão que leva a loucura. A deformação da psique humana, afetada pela ideia fixa, primeiramente de forma ilógica, sem explicação alguma, que leva a uma insanidade ímpar, mas que decorre do medo ao desconhecido e que não pode ser controlada é o mote de toda a narrativa do mangá. A espiral é apresentada como uma força da natureza, algo muito mais antiga que o homem e seu desejo por conhecer e controlar tudo. E não há mais terrível para o ser humano que aquilo que não entende, que ele não acredite que exista, que o faz sentir insignificante e indefenso. O terror ao desconhecido, uma constante na obra lovecraftiana implícita, mental e psicologicamente também na narrativa de Uzumaki que Ito deixa claro sua inspiração em obras como O chamado de Cthulhu, The Colour Out of Space e outros contos de terror cósmico.

Cada personagem passa por várias fases ao longo da obra: incredulidade, negação, confronto, tentativa de sobrevivência, resignação. Etapas que vão passando e que culminam na aceitação que não são mais que peões em mãos de um jogador. Aceitar isso tudo é o que faz a mente de todos finalmente se romper e faz a insanidade se apodere de toda Kurouzu e, por tanto, de Uzumaki.

Neste sentido ainda mais importante é o tremendo trabalho artístico de Ito, que torna Uzumaki uma de suas obras mais icônicas tanto em desenho, quanto em cenário e ambientação. Ito desenvolve um estilo impressionista, que cria efeitos no leitor e que ajuda a reforçar a narrativa do mangá. Assim o cenário e o design são muitos mais personagens que os próprios personagens representados e que no fim, são mais sensações e recordações gerais. No caso de Uzumaki o cenário é capital na hora de oferecer essa angustia, essa opressão e inevitabilidade que gera a maldição das espirais, enquanto que os desenhos tem a mesma função, gerar o terror e refletir a degradação de toda a cidade que foi produzida relato a relato.

Tratando da edição da Devir que nos traz de maneira integral, com 656 páginas, bem caprichada, com sobrecapa, uma jacket, como todas as edições do selo Tsuru, com papel de boa qualidade, com boa gramatura e impressão, com as imagens não passando para o outro lado. Temos ainda algumas matérias feitas para a edição: um texto sobre a obra de Ito, outro que explora as bases psicológicas do terror japonês e do mangaka e um perfil do autor.

Que o mérito que possui Junji Ito em criar obras de um gênero tão complicado como é o terror é indubitável. Assustar e gerar sensações de medo e angústia em leitores é complicado, imagina de um assunto que surpreenda, mesmo no leitor mais aficionado, acostumado com sustos, Ito consegue plasmar o espectador, que propõe uma viagem ao delírio e à loucura que sofrerá e gozará em partes iguais. As obras de Ito trazem o arquétipo lovecraftiano, o medo do desconhecido, que se mistura de forma brilhante com o folclore japonês, apresentando uma história inicialmente branda na aparência,que vai se degenerando, culminando numa distorção absoluta que aterroriza a psique humano. E Uzumaki é um mangá que arrebata todo esse medo, bem planejado, com uma narrativa potente e uma ambientação que nos envolve com um horror incomum, que se aprofunda num vórtice surrealista, e nos leva a um mundo de loucura, obsessão e irrealidade que não podemos esquecer. Um mangá de caráter obrigatório para todo amante não só do terror ou de mangá, mas pelo seu valor narrativo e artístico. Uma obra icônica e perturbadora, com muito gore e terror psicológico, vale a leitura, mas com aviso, não é um mangá que vai agradar a todos.

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