Review | The Promised Neverland #1, de Kaiu Shirai e Posuka Demizu

Para quem conhece o mercado de mangás no Japão, ganhar e manter a aprovação do público japonês em uma revista do tamanho do Weekly Shonen Jump é um trabalho digno de admiração. Há vários exemplos de títulos que tentaram e poucos conseguiram. Para tanto, é preciso seduzir um público em massa. Narrativas singulares, cenários, abordagens e propostas desenvolvidos para excitar, mas que podem ser enterrados no esquecimento ou na indiferença. E quando se deparamos com obras que desafiam os nichos do gênero e conseguem ter sucesso. Obras que se assemelham a jóias do infinito pelo poder inseridas nelas. The Promised Neverland é uma desses mangás.

The Promised Neverland é uma das mais recentes apostas do catálogo mangá da Editora Panini. O mangá, com oito volumes já publicado no Japão, esteve na lista dos mais vendidos no país em 2017 e segue até o presente. Não é a toa suas indicações ao Taishō Manga, seu reconhecimento no início deste ano de 2018 com o prêmio Shogakukan na categoria shōnen e a adaptação em um anime iminente e aguardado. Escrito por Kaiu Shirai e ilustrado por Posuka Demizu, e publicado desde 2016 na célebre Shūkan Shonen Jump.

É um thriller psicológico, com certo componente dramático e com elementos fantásticos. “Ela é amada como uma mãe, mas não é uma mãe de verdade. E as crianças que vivem juntas também não são irmãos de verdade. Aqui é a Casa Grace Field, um orfanato e sou uma órfã. Era o que eu achava.” Essas são as primeiras palavras que encontramos neste primeiro volume. A protagonista do mangá, Emma, age como narradora para descrever o dia a dia neste orfanato, aparentemente, idílico. O cotidiano é permeado por uma educação especializada e tempo livre para brincar e se divertir. Uma vida de calma, conforto e tranquilidade. Apesar da orfandade, as crianças vivem confortavelmente e calorosamente. Mas, uma vida que mudará completamente ao descobrir o terrível mistério que o local esconde. Um segredo macabro e cruel que mudará suas vidas para sempre.

The Promised Neverland é um título que podemos apreciar logo de imediato pelo clima de mistério. O mangá, longe de outro shōnen atualmente em publicação, dissocia o ritmo humorístico para uma ficção mais dark, cruel e desumano. É uma fantasia tingida de suspense, que abusa do recurso Cliffhanger. O próprio título, The Promised Neverland, sugere uma dualidade, que nos leva a entrar num universo em questão de segundos para, pouco depois, levantar a verdadeira cortina. Uma cortina que esconde as maléficas engrenagens que fazem seu universo funcionar.

E, se tratamos do mecanismo, é importante delinear os arquétipos do trio de protagonistas: Emma, Norman e Ray. Eles são os órfãos mais velhos do Grace Field, apesar de terem personalidades bastante diferentes, compartilham um intelecto superior. Em meio ao orfanato são vistos como figuras meio que paternas, por sua condição e carisma são realmente líderes dentro daquele grupo. Emma é um personagem inocente, vivaz e impulsiva, diferente do tenaz e imprevisível Ray e do tranquilo Norman. O mangá brinca com essa realidade, jogando com as aparências, expondo um punhado de crianças, muito precoces, num contexto quase onírico e inocente, para construir uma quimera de vários níveis e segredos que gradualmente descobriremos. Tem algo obscuro e sórdido por trás daquilo tudo, e o trio buscará respostas e escapar do que consideravam até então sua casa.

O primeiro volume de The Promised Neverland se torna o cenário perfeito para um grande jogo de xadrez. Shirai e Demizu apresentar-nos um jogo de inteligência e estratégias, similar à maneira que Tsugumi Ohba e Takeshi Obata fizeram em Death Note. As peculiaridades no enredo faz com que a história se desenvolva perante o mistério e a inocência. Nas primeiras páginas, o orfanato é colocado como um lar acolhedor, cheio de amor e bondade. No entanto, à medida que a narrativa se desenrola, a casa se torna uma gaiola, um local de cativeiro com um propósito tão enigmático quanto desolador. A mera miragem de um presente feliz e de um futuro promissor. O castelo de areia se desmorona, como as vidas deles. A dualidade molda o trabalho, como já relacionamos, mas há um elemento mais intrínseco, o ponto que os personagens perdem a humanidade. Não iremos passar spoilers, o que podemos relacionar é que há toques reminiscentes do ensaio satírico do escritor irlandês Jonathan SwiftA Modest Proposal, na concepção geral da série.

The Promised Neverland # 1 prende a atenção pela maneira que seus personagens são apresentados em meio ao mistério que os envolvem, enquanto isso os autores mantêm a intriga apenas com os diálogos e o senso de ação. Narrativa ágil, de um modus operandi que prepara seus leitores para o que acontecerá nos próximos números.

A arte oferecida segue um estilo refinado, Posuka Demizu usa um layout fino e único para dar forma a todos os elementos, bem como uma definição clara nos contornos de seus personagens. O design dos personagens tem um surpreendente nível de detalhe, onde as expressões, de grande importância neste trabalho, são excelentes. Também a composição das páginas quanto a quadrinização e os balões são idealizados com uma grande variedade e quantidade de elementos que tornam a leitura um trabalho mais dinâmico e animado. exemplo, os contrastes entre a predominância do branco nas primeiras páginas passam a inocência do momento e os tons escuros e sombrios, quando os antagonistas aparecem.

A proposta de The Promised Neverland é fazer da narrativa um mistério para seus personagens e para seus leitores, uma história que sabe como jogar suas cartas e surpreende o leitor. Kaiu Shirai e Posuka Demizu tecem uma narrativa que não perde o ritmo a qualquer momento e consegue nos prender em uma intriga atribuída ao fantástico.

 

Dependemos do apoio de leitores como você para ajudar a manter nossa redação sem fins lucrativos forte e independente.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Você não está conectado à internet