Review | Testemunha de Scott Turrow

A guerra da Bósnia e suas consequências é um excelente cenário para desenvolver uma narrativa pois, mais de 20 anos após o fim daquele confuso conflito, ainda não está claro quem foi responsável por aquilo tudo. A guerra continua sendo um dos mais sangrentos momentos de relações internacionais do século 21.

O colapso da Iugoslávia e a declaração de independência da República da Bósnia e Herzegovina em 1992 desencadearam uma carnificina étnica na qual sérvios, croatas e muçulmanos bósnios massacraram uns aos outros e foram mortos com uma complexidade desconcertou o mundo. Pelo menos cem mil pessoas foram mortas, muitas pela tal “limpeza étnica”. As consequências e a contabilidade legal dessa guerra continuam ainda hoje. Radovan Karadzic, o líder sérvio da Bósnia, foi capturado em Belgrado em 2008 e levado perante o Tribunal Penal Internacional em Haia, foi condenado a 40 anos de prisão por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Scott Turow usa em seu mais recente romance, Testemunha, esse contexto, trocando os tribunais americanos para o Tribunal Penal Internacional na Holanda. Publicado pela Record, temos um livro com bastante ação, bem pesquisado e, como o pano de fundo sugere, distintamente emaranhado. Uma narrativa no estilo policial que requer certa concentração e envolvimento com a política internacional, por isso alguns leitores podem não gostar. No meu caso, achei bastante interessante.

Depois de uma carreira de sucesso como advogada e defensora criminal dos EUA, Bill Ten Boom, que vive uma intensa crise de meia idade: deixou a carreira, a esposa e sua cidade. Mas, quando recebe a oportunidade de trabalhar num caso do Tribunal Penal Internacional, uma organização que lida com crimes contra a humanidade, ele se sente animado novamente.

O caso seria o desaparecimento de centenas de ciganos, na sequência do conflito. Sua tarefa é descobrir o que aconteceu com os moradores desaparecidos de um vilarejo cigano no caos posterior à Guerra da Bósnia. Mas os suspeitos são muitos, de organizações paramilitares sérvias ao governo dos Estados Unidos, e todos os envolvidos no caso parecem ter muito a esconder. As indagações são levantadas: Quem os matou? Paramilitares sérvios? Jihadis islamistas? A máfia bósnia? Ou esse foi o trabalho das forças dos Estados Unidos, realizando um ataque de vingança depois que os ciganos avisaram o líder sérvio foragido a um ataque iminente no qual vários soldados americanos foram mortos?

Enquanto Boom interroga militares, advogados e o único cigano sobrevivente ao suposto massacre, Turow oferece ao leitor seu maior diferencial: seus thrillers não são apenas carregados de ação e intrigas, mas também de personagens cheios de nuances e belissimamente construídos.

Turow recria com maestria a incerteza daquele conflito e suas consequências, o estopim do racismo, os crimes contra os civis, as ações militares, a maneira que as pessoas comuns frente ao confronto. Com uma pesquisa abrangente, o autor mergulha o leitor pelos corredores do Tribunal de Haia, mostrando seu funcionamento e seu trabalho; e revela ainda detalhes reais sobre a Guerra da Bósnia e a cultura do povo cigano da região dos Bálcãs.

Testemunha não tem a tensão de outros thrillers de Turrow, mas procura atrelar significado e resolução ao massacre e trazer justiça.

A guerra da Bósnia surgiu de uma complexa concatenação de ódios. Havia selvageria por todos os lados e partiu incompetência de parte da ONU e da OTAN. Os ciganos foram apanhados pela violência.  Os ciganos, como sempre, foram apanhados pela violência. O massacre em ambas as frentes não ofereceu conclusões morais fáceis e Turow não sugere nenhuma, como por exemplo a observação de um dos personagens: “Não tenho certeza se as regras seriam muito claras para mim se fossem para matar ou ser morto.”

Uma narrativa no melhor estilo thriller, com um senhor na crise de meia-idade, uma exposição de direito internacional, explorando um episódio intensamente sério e desagradável na história recente. Recomendo a leitura

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