Review | Querem nos calar, organizado por Mel Duarte

Não/eu não falo/pelas mulheres/ quero ouvi-las

É com essas palavras de Bell Puã que quero começar essa resenha. Querem nos calar: poemas para serem lidos em voz alta é uma antologia de poesias organizada por Mel Duarte, lançado em 2019 pela Editora Planeta. Uma coisa é certa e condiz muito com esse livro: poemas para serem lidos em voz alta- quando lidos assim, as poesias parecem ganhar vida própria (digo porque fiz isso em uma delas, os outros estava lendo no coletivo e não deu para fazer o mesmo).

Recebi esse livro da Planeta de Livros em uma segunda a noite e logo comecei a ler. Acreditando que seria uma leitura fácil, afinal, 224 páginas seriam uma leitura bem rápida para mim, fiz um planejamento que acabaria de ler na quarta, mas acabei me enganado. Querem nos calar não é um livro de leitura rápida, e demorei mais tempo do que imaginava, mas isso não é nem um pouco ruim, muito pelo contrário. Esse livro deve ser lido, absorvido, apreciado e refletido. Não é apenas poesia de mulheres que lutam por seus espaços e querem ser ouvidas, é um grito da sociedade como um todo que deve ser espalhado. Diversas vezes me peguei com o livro aberto, mas sem ler, apenas refletindo as palavras que me atingiram profundamente.

Eu pego a caneta, tu pega a arma, eu conquisto na palavra e tu dispara, eu atinjo vários e tu, apenas um, a gente vai crescendo até não caber em lugar nenhum

Não tenho o costume de ler livros de poesias e menos ainda aqueles que não seguem o padrão da norma culta. Porém, ao começar a mergulhar nesse livro, me descobri encantada e impactada (foi essa a palavra que usei quando me perguntaram se estava gostando da leitura). Conhecia bem pouco sobre o mundo dos slams – batalhas de poesias que cresceram na periferia, onde os participantes têm até três minutos para apresentarem sua performance, sem adereços ou acompanhamento musical. A primeira vez que ouvi falar foi sobre slams foi em um Clube do Livro onde Pieta Poeta, poetiza de Belo Horizonte, foi uma das convidadas e falou sobre esse mundo que era completamente desconhecido para mim. Tão desconhecido que não sabia que existiam batalhas, e muito menos que Pieta era campeã nacional de slam.

Mel Duarte, a organizadora do livro, conseguiu chamar mulheres que já estão na cultura de slams de todos os cantos do país para compor as páginas desse livro, onde cada uma conta sobre suas histórias, suas vivencias, seus sentimentos e suas revoltas. Completando as palavras já tocantes das poetizas, Lela Brandão dá rosto as palavras com suas ilustrações, deixando os leitores mais próximos do que está escrito, porque ali não são apenas palavras misturadas, mas sim vozes com rostos ilustrados muito bem feita e condizente com toda a estrutura do livro. O trabalho que a editora teve com o livro foi sensacional, desde a finalização até a escolha de cores e imagens. As ilustrações foram um toque a mais que deixaram o livro bem mais interessante. No meu caso, como não conhecia as poetizas, consegui uma  maior imersão ao ver seus rostos desenhados no inicio de cada parte do livro.

Querem nos calar é escrito por poetizas negras que usam a poesia forma de protesto e manifestação cultural. A poesia nesse caso não é utilizada a norma da língua, e sim, a gramática do dia a dia, contando as mazelas do povo humilde, e, principalmente das mulheres, objetivo do livro. Há poesias sobre violência policial, abandono paternal, machismo, amor e racismo, solidão da mulher negra e outros temas que nos são comuns, mas não paramos para pensar.

As falas aqui escritas têm uma força social e política bem forte, denunciando erros que já naturalizamos, como homens abandonando os filhos, a exacerbada violência policial contra os menos favorecidos, a violência contra os LGBT, que é tão comum mas poucos param para se preocupar de verdade, e até mesmo a violência contra os índios, o machismo e a posição da mulher negra na sociedade, sendo sempre vista como um objeto, mas poucas vezes sendo vista como uma mulher que quer e merece carinho. São mulheres expondo seus medos e anseios, o que me fez perceber que muitos desses compartilho com elas.

A identificação que tive com o livro foi imensa. Saí da zona de conforto de apenas viver a vida e seguir o fluxo e passei a perceber mais o que está em minha volta, e quanta coisa errada que a gente acaba normatizando para evitar mais conflitos. Casos como apalpadas no metrô, que as mulheres ao invés de gritar para que isso não aconteça mais, preferem evitar determinados horários, evitar certos tipos de roupas só para tentar fazer com que isso não aconteça (o que deveria ser realmente feito é combater o problema, e não buscar alternativas para evita-lo, sem ao menos buscar acabar com ele).

Dessa antologia, quatro poetizas me marcaram com mais força: Cristal Rocha, Laura Conceição, Luz Ribeiro e Luiza Romão. A sensibilidade que elas expressaram em suas palavras conseguiram me tocar profundamente, ao ponto de Cristal Rocha me fazer chorar com ‘Para Gisa’.

Não vou dizer que todas me agradaram, algumas foram para um viés muito político que acabou me desagradando um pouco, mas nada que me fizesse interromper ou desgostar da leitura geral. Essas poesias, por mais que eu saiba a importância do que se fala, não me instigaram a pensar mais profundamente sobre o assunto. Apenas li e acabei passando adiante. Para aqueles mais engajados politicamente, essas partes podem ser mais interessantes.

No quesito geral, eu quero gritar pra que todos leiam esse livro, seja homem ou mulher, negro ou branco, gay ou hétero. Eu quero que as palavras de Querem nos calar atinjam a todos da mesma forma que me atingiram. Eu amei a experiência de ter lido esse livro, de enxergar o mundo pelos olhos das mulheres negras da periferia, que são completamente esquecidas não apenas pela sociedade, mas por muitos movimentos sociais, de entender que a minha luta e a delas não é diferente. Não apenas falando das lutas diárias, mas falando de amor, de dor, de tristeza e de sonhos. Mulheres também sonham, merecem sonhar, se conhecer e se realizar.

Então grite/isso não vai te fazer/ inabalável/ mas toda mulher que fala/ é invencível

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