Review | Pátria. A Lenda de Drizzt, de R. A. Salvatore

Status é o paradoxo do mundo do meu povo, a limitação do poder pela própria sede de poder. É obtido através de traição, e convida à traição contra aqueles que o obtiveram. Os poderosos em Menzoberranzan passam seus dias olhando para trás, para se defender das adagas apontadas para suas costas. Suas mortes geralmente vêm pela frente.”                                                                                                                            Drizzt Do’Urden

Fantasia épica das melhores é o que encontraremos em Pátria (Homeland), primeiro volume da Saga A lenda de Drizzt, que a editora Jambô traz ao público brasileiro. Escrito por Robert Anthony Salvatore, ou como ficou conhecido R.L. Stine, um autor que se interessou por literatura fantástica depois de ler JRR Tolkien e que escreveu várias séries de livros no universo de Forgotten Realms, um dos cenários de campanha do conhecido RPG Dungeons & Dragons.

Então, para todo aqueles que já estão acostumados a mergulhar nas histórias de RPG, peguem suas espadas, arcos e machados, que vocês irão gostar da leitura desta saga. Mas vamos além, a leitura não é somente para fãs de RPG, qualquer um pode ler sem temor. Naturalmente, vá em frente, embora seja um romance de uma franquia de jogos, Pátria se ajusta de maneira notável às narrativas de fantasia épica, se tornando uma alta fantasia adulta clássica.

Drizzt Do’Urden é um elfo negro, um drow, uma raça maligna, que habita o Reino subterrâneo de Menzoberranzan. Essa cidade está localizado em uma série de cavernas que nunca foram tocadas pela luz do sol, onde somos apresentados a uma sociedade ambiciosa e cruel, e Salvatore vai além, explicando por que eles se comportam assim, por que vivem no Subterrâneo, como se relacionam com o resto do mundo… Assim, nos faz conhece uma sociedade matriarcal, com complexas hierarquias sociais e uma divisão política entre grandes Casas, onde os homens cumprem basicamente funções militares e reprodutivas, sempre sob o domínio absoluto das mulheres, que também são responsáveis ​​pelo culto à deusa negra Lloth, a Rainha Aranha, maligna,cruel e sedenta por sacrifícios. Uma sociedade desprovida de ética ou princípios de qualquer tipo, mas que ao mesmo tempo é governada por regras estritas, regras que devem ser quebradas para prosperar. No final, tudo se resume a uma norma suprema, onde se cresce a partir da traição, aniquilação e ganância, onde só se é punido quem for pego. Cumprindo essa regra não haverá nada que seja proibido, nada que seja considerado muito cruel, imoral e indigno que não seja justificado pela esperança de uma melhoria na sua posição social. Em suma, uma sociedade que aparece ao mesmo tempo como intensamente viva e completamente estagnada.

É nessa sociedade que o protagonista é mostrado, um personagem diferente da maioria dos seus semelhantes, com princípios, moral, com capacidade de sentir empatia e compaixão, enfim, uma raridade que não tem como se encaixar em uma sociedade como a de Menzoberranzan. Drizzt sofre de uma estranha aflição: ele não é mau. Apesar de sua excelência em tudo, seus princípios inatos o fazem sofrer ao longo de sua vida, onde conhecemos os açoites de sua infância, o consolo do aprendizado da adolescência e entra na idade adulta, incrivelmente letal, armado com duas cimitarras e que encarará as mudanças que colocou em sua vida.

É notório que a narrativa é visivelmente maniqueísta, não há outro tom, tudo é branco ou preto. Especialmente quando descobrimos que os maus são assim por uma questão racial. Pode parecer estranho, dentro dos tons de moralidade que conhecemos, mas nos cenários de fantasia jogáveis há uma perspectiva um pouco diferente, temos o alinhamento, uma ferramenta necessária quando se está construindo um mundo para jogar com os amigos em uma campanha. Dentro desse universo, o autor construiu seu personagem literário,  um pária que se afasta daquela sociedade para confrontá-la, sem antes sofrer escondendo seus ideias a qualquer preço … sendo um deles, o mais alto a pagar, a dor emocional que sente em viver naquela sociedade.

Como todas as mulheres em seu lugar são terrivelmente más, Drizzt acaba desprezando a todas e ao mesmo tempo que justifica esse desprezo, acaba com um sentimento que não compreende por um outro elfo escuro do mesmo sexo, que também se sente diferente dos outros e que conseguiu esconder sua condição de “diferente” à custa de amante de uma matrona má. Os personagens que Salvatore desenvolve são explorados em seus sutis nuances de caráter, construindo uma diferenciação para os membros dessa raça sombria de maneira ampla.

Referências sociais e sexuais, cenas de ação em ritmo acelerado, que nos fazem mergulhar completamente na batalha, quer ser quem está pegando em armas e quem disputa o combate. Tudo bem detalhado, para que sejam claramente visíveis e vividas pelo leitor. Em suma, uma narrativa que entretêm, especialmente pela sociedade que se apresenta e como sua influência recai em todos os personagens.

Uma história para os fãs de fantasia, bem escrito, de leitura rápida e profunda, uma introdução muito boa ao protagonista, um Legolas em meio a uma sociedade maléfica, num cenário rico e incomum, onde não há luz, bem construído pelo autor e que merece ser descoberta pelos produtores de filmes e séries.

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