Review | O Último Tsar, de Robert Service

Como historiador, a necessidade de atenuar as disputas antagônicas é corriqueira. Se aquilo é certo ou errado na visão daqueles que lutam pelo poder, o trabalho histórico é que prevalece. Tratando disso, ter uma perspectiva crítica sobre fenômenos políticos é um suporte de compreensão a todos para que haja mais civilidade e tolerância em pontos e situações diversas. Recentemente li uma biografia acadêmica que dá uma luz sobre um momento marcante na história mundial, para não dizer horripilante: o assassinato da família Romanov em 1918. Escrito pelo historiador britânico Robert Service, um dos maiores especialistas mundiais sobre a Rússia no século XX, O Último Tsar (The last of the tsars, DIFEL), vai além do narrar o fim brutal do último monarca russo e examina as respectivas particularidades e justificativas daquele momento, como também a natureza mais intricada do caráter de Nicolau II.

O autor se baseia em fontes primárias e documentação que não estava disponível anteriormente para compor um retrato dos dezesseis meses anteriores a sua execução, em julho de 1918. Cem anos depois, a publicação chega num momento histórico onde o atual governante da Rússia, Vladimir Pútin, se associa aos valores tradicionais alavancados tanto pela santificação tanto de Nicolau II da Rússia, como sua esposa Alexandra, e de seus cinco filhos, quanto a permanência do poder, tanto que em 2016, Putin citou a execução da família do czar como um exemplo grotesco da repressão soviética.

Service também usa o que Nicolau escreveu em seus diários e disse a outras pessoas, dando destaque a muitas informações que foram ignoradas, sobretudo a longa lista de obras literárias e históricas que o imperador lia para se distrair após perder o trono. Considerados como um todo, seu diário, o registro dos diálogos e as leituras realizadas representam uma oportunidade de saber se ele tinha arrependimentos com relação às decisões que tomou enquanto esteve no poder. “Esses dados nos dizem com exatidão o tipo de governante que ele queria ser e permitem que verifiquemos se, tal como alguns têm afirmado, era mesmo um autocrata convicto e um antissemita radical que fazia concessões políticas apenas sob coerção”, escreve o autor na obra.

Seu trabalho de pesquisa foi frente aos acontecimentos em torno da vida de Nicolau II, um homem e um governante complexo e contraditório. Em entrevista a um jornal português o historiador disse que mesmo sendo uma pessoa aristocrárica, Nicolau era um homem simples, de trato modesto com os próximos, e que a perda do poder foram consequências de seu nacionalismo extremado, da sua falta de mudança. Com o momento revolucionário acontecendo não imprimiu reação. O povo ficou farto dele. Quem poderia mantê-lo no poder, os militares, queriam mesmo era livrar-se dele. Sua abdicação levou a quase vitória da Alemanha, pois mergulhou a Rússia em um redemoinho de violência, caos e agitação social. Mas como manteve as mesmas atitudes o resultado da falta deinteligência política e flexibilidade para governar o país e vivendo dentro de uma “bolha mental”, Nicolau não entendeu o que acontecia e acabou no fato trágico da madrugada do dia 16 para o dia 17 de julho de 1918.

Ao examinar os 16 meses que vão da abdicação de Nicolau II, após 20 anos de czar, ao refúgio em um palácio campestre, indo para o exílio siberiano e terminando no recanto bolchevique de Ecaterimburgo, o autor passa aos leitores a rotina de Nicolau com sua, que mesmo em meio ao período cheio de preocupações, “sempre achava que estava certo”.

Outro aspecto que o livro de Service traz é por de lado quaisquer dúvidas que a família do czar e seu séquito foram sumariamente executados. O historiador oferece ao leitor documentos e provas persuasivas que o líder dos bolcheviques, Lenin e os demais membros do Partido aprovaram os assassinatos, mesmo sem a evidência direta que Lenin tivesse ordenado. O autor examina ainda as ações dissimuladas depois do ocorrido, os bolcheviques relutaram em reconhecer aquele massacre, por duas causas, a execução de inocentes e da czarina, uma cidadã alemã, poderiam sugerir uma represália do mundo.

Embora existam algumas evidências concretas, a maioria dos comentários de Service a respeito de Nicolau são especulativos. Mais convincente é a maneira que faz uso dos diários, das memórias e  dos testemunhos dos quais conclui que o último czar era dogmático e mentalmente rígido. Não é uma leitura fácil, pois foi escrito em um estilo acadêmico, com riqueza de  detalhes de diversas personalidades que cercaram o czar, tantas amigas e qunato inimigas. Os capítulos curtos podem parecer aleatórios, mas seguem uma linha historiográfica bem delineada.

Robert Service escreveu um trabalho organizado, consiso e arrepiante, lidando com fatos esquecidos sobre um tirano autocrático que mesmo quando confrontado com um mundo em rápida mudança, desde o momento de sua abdicação até seu assassinato, preferiu olhar para o passado, em vez de enfrentar os novos tempos. 

PS. Nosso país passa por uma situação sui generis e buscar no passado momentos que tenham similaridade é uma das nossas opções para conjecturar respostas ou mesmo extrair comparações. Como numa observação que o autor faz e deixo para pensarmos sobre: “O nacionalismo é como um cão selvagem, assim que o libertar da jaula é muito difícil voltar a prendê-lo. Tem vantagens para aumentar a popularidade de líderes, mas é algo muito difícil de controlar”.

O AUTOR

Membro sênior da Hoover Institution Service, historiador, acadêmico, escritor e professor universitário. É autor de “Camaradas: Uma história do comunismo mundial”, “Lenin: A biografia definitiva” e “Trotski: uma biografia”, livro pelo qual recebeu o Duff Cooper Prize em 2009. Vive com a esposa e os quatro filhos em Londres.

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