Review | O silêncio dos animais: Sobre o progresso e outros mitos modernos, de John Gray

O século XX experimentou, de maneira melancólica e brutal, os utopismos do imperialismo, do nazismo e do comunismo, o que afastou em muito a sociedade moderna da ideia de que o remédio para os males da humanidade estava naqueles movimentos ideológicos. Entretanto, temos uma inclinação em tomar parte do status quo, ou seja, não podemos deixar de fazer alguma coisa. O melionismo torna-se uma alternativa mais atraente, pois afasta a desordem convulsiva das revoluções e imagina meios mais brandos para um futuro melhor. Por meio da educação, de uma relação respeitosa com o meio ambiente, da erradicação de males, como a pobreza e a fome, e de um capitalismo regulado, essa linha de pensamento nos levaria a um momento futuro não muito distante.

Acreditamos que poucos se oporiam a uma visão tão benevolente. O filósofo inglês John Gray é um dos pensadores que se opõem a ter esse olhar. Gray, que já ensinou em Oxford, Harvard e Yale e na London School of Economics, é um crítico da filosofia neoliberal que propõe que os avanços no conhecimento científico humano serão necessariamente acompanhados por um progresso equivalente em ética e política. E em O silêncio dos animais: Sobre o progresso e outros mitos modernos, publicado recentemente pela editora Record, temos um ensaio atual sobre a maneira que baseamos nossa existência em inúmeras ficções, dando voltas para não admitir que também somos animais, separados dos outros apenas pela nossa vaidade. Com referências tão diversas quanto Ballard, Borges, Conrad e Freud, autores que abordaram o extremo da experiência humana, John Gray discorre sobre como lidamos com o mundo quando perdemos a fé no progresso e na evolução moral do ser humano.

O filósofo John Gray

Crítico do neoliberalismo, o autor dos best-sellers Cachorros de palha (2002), Missa Negra (2008) e A anatomia de Gray (2011) usa do argumento do teólogo suíço Max Picard para diferenciar o silêncio dos animais e dos humanos, respectivamente, um silêncio duro, coagulado perante um outro que confronta o mundo. Gray não concorda com essa visão, algo bem característico de sua obra, tratando do argumento que animais podem não ter o monólogo interior com o qual os humanos estão acostumados a construir sua auto-imagem, “não está claro por que isso deveria colocar os humanos em um plano superior”.

Com um livro organizado em três partes, Gray mescla lirismo e sabedoria, humor e seriedade, negacionismo e contundência para discorrer sobre como lidamos com o mundo quando perdemos a fé no progresso e na evolução moral do ser humano. O filósofo ataca o humanismo liberal em seu fundamento fútil e injustificável que condena a sociedade a uma crença equivocada de que as coisas vão melhorar.

Levantando questões profundas sobre a natureza da civilização e nossos compromissos políticos e éticos, o autor argumenta na primeira parte sobre os sistemas políticos, religiosos e econômicos, criados para impor significado ao caos da existência; na seção seguinte, explora as mitologias da psicanálise e as maneiras pelas quais tentamos buscar significado através da linguagem; e na última, considera os estratagemas empregados por escritores e filósofos que buscaram uma conexão com a essência de ser mais íntimo do que o oferecido pela mera linguagem.

Para leitores não envolvidos com ensaios filosóficos, o livro poderá ser tão incômodo quanto envolvente, e no caso especial da visão de mundo de Gray, cujas simpatias ideológicas mudaram ao longo das décadas da direita para a esquerda para sua posição atual de ceticismo amplamente pessimista pode ser mais antagônico. Aos 71 anos, seu tom atual é de um senhor que distante do cotidiano observa seus semelhantes com uma complicada amalgama de desgosto e compaixão, para defender que a humanidade não tem controle sobre o seu destino, como os demais animais e que o progresso humano é um mito, partindo de uma rica costura de memórias, poemas, ficção e filosofia para analisar a persistência do mito em nossa sociedade.

A postura quase-estóica de Gray pode afastar aqueles que trilham o senso comum ou que abrigam idealismos à melhoria da humanidade, os ditos esperançosos, que acreditam que a tecnologia possa livrar a sociedade das contingências do mundo natural é apenas uma versão secular da promessa da salvação pelo cristianismo. Embora, suas críticas sejam tão inquisitórias, O silêncio dos animais envolve com suas idéias arraigadas e desafiadoras, mesmo que não aceitemos, sua visão levanta questões sobre o progresso social e político, o mundo contemporâneo e a condição humana.

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