Review | O Ódio Que Você Semeia, de Angie Thomas

Leitura obrigatória para melhorar o ser humano. Precisamos sair da bolha em que vivemos e conhecer o que o outro sente. Precisamos de respeito e empatia

Em tempos de ódio, ler este livro é como levar socos no estomago.  Mas é uma dor necessária.

Starr é uma adolescente de 16 anos que aceita ir a uma festa com uma amiga no bairro em que mora, habitado majoritariamente por negros. Nesta festa ela se encontra com um antigo amigo de infância e estão conversando, quando começa uma briga seguida por tiroteio, terminando com a festa. Khalil, seu amigo, lhe oferece uma carona. Porém no meio do caminho são parados pela policia. Aos 12 anos o pai de Starr lhe ensinou como se portar em um caso deste: Deixe a mão sempre aparente, só responda o que lhe perguntarem, não faça movimentos bruscos, seja obediente. Porém Khalil não segue estes ensinamentos e recebe três tiros do policial, morrendo na frente de Starr.

Em poucas paginas a autora já nos traga para dentro da estória e começa a discutir diversos assuntos, que vão nos atingindo como bombas. É incrível a quantidade de temas discutidos pela autora deste livro. Pelo texto, parece que ela é uma autora experiente e já consagrada, mas este é somente seu primeiro livro, e até assusta o quanto ela conseguiu acertar.

Starr sente-se dividida entre dois mundos. Existe a Starr que vive no bairro dos negros com sua família e sua cultura, mas aos 10 anos ela presenciou a morte de sua melhor amiga assassinada na rua sem motivos, e isso criou a segunda Starr, que passou a estudar em uma escola de jovens brancos e ricos há 45 minutos do seu bairro. Duas realidades completamente divergentes.

Entre os brancos ela não quer ser estereotipada como a negra barraqueira do gueto. Entre os negros ela não quer ser estereotipada como a negra traidora e que tem vergonha de suas raízes.

Ela está acostumada com este chaveamento, até que o crime presenciado a faz começar a repensar tudo isso, trazendo-lhe um dilema: Deixar tudo como está e seguir em frente com sua vida dupla, ou usar a sua voz para exigir justiça e fazer a diferença para os negros?

Assim a autora aproveita para discutir diversas formas de preconceito e o texto é tão bem escrito que passamos a sentir todas as dores de Starr, que não são poucas, e percebemos a cada pagina que, em nosso mundo de privilégios, não temos noção do que as pessoas passam.

“Engraçado. Os senhores de escravos também achavam que estavam fazendo a diferença na vida dos negros. Que os estavam salvando do “Jeito selvagem africano”. Mesma merda, século diferente. Eu queria que pessoas como eles parassem de pensar que gente como eu precisa ser salva”.

Existe o preconceito da policia e da mídia com os negros. A mídia divulga que Khalil era um traficante, mas ser um traficante é motivo para ser assassinado a sangue frio? Starr acredita que deva contar a verdade, mas será que a policia quer a verdade? E quando a verdade pode atingir também o maior traficante do bairro? Vale a pena enfrentar tudo isso, mesmo colocando em risco sua própria família?

“ Ei, espere um segundo – diz mamãe – Vocês vão botar Khalil e Starr em julgamento ou o policial que o matou? …Você ainda não perguntou a minha filha sobre aquele policial – diz mamãe – Só fica perguntando sobre Khalil, como se ele fosse  o motivo de estar morto.

Como ela disse, ele não puxou o gatilho contra ele mesmo”.

Existe o preconceito entre os amigos brancos e as minorias. Suas melhores amigas na escola são uma loira patricinha e uma chinesa. Será que só negros sofrem racismo?

Existe o preconceito reverso do negro com o branco. Starr namora um menino branco, mas nunca conseguiu mostrar para ele a real Starr, pois acha que ele não é capaz de compreender a sua cultura. E agora após o crime ela passa a repensar até o seu relacionamento.

Existe o preconceito entre os negros. O pai que não aceita o relacionamento da filha com o rapaz branco. Os negros que não aceitam que os negros tenham mais posses e decidam sair do bairro em busca de segurança. Os lideres de gangues que oprimem os próprios negros através do medo e oferecendo o trafico como única opção para melhoria de vida.

E existem os estereótipos dos negros bandidos, traficantes, lideres de gang, mulheres de traficantes.

“ Mas juro que quero xingar Khalil. Como ele pode vender o tipo de coisa que tirou a mãe dele? Ele não percebeu que estava tirando a mãe de alguém também?

Ele não percebeu que, se virar uma hashtag, algumas pessoas só vão ve-lo como traficante?

Ele era tão mais que isso.”

A autora não doura a pílula. Ela não enfeita a realidade. Ela a escancara por todas as vias, e muitas vezes isso dói. A cena da policia com o pai de Starr, a entrevista na televisão,  a conversa com Chris,  são cenas de encher os olhos de lágrimas e as vezes o coração de raiva. Impossível não se colocar no lugar dos personagens, pois eles são tão reais que passam a ser nossos vizinhos.

Mas este livro não é só sobre racismo. É um manual de boas atitudes. É sobre família, sobre oportunidades, sobre amizades, sobre empatia, sobre calçar o sapato do outro por mais apertado que ele fique em seu pé. Sobre usar a sua voz para defender o que é justo. Sobre não julgar alguém só conhecendo um pedaço de sua história.

Nenhuma linha deste livro é desperdiçada. Tudo está ali por um motivo, numa estória dolorosa, mas muito bem alinhavada, que vai te deixar pensando sobre ela muito depois que você tiver fechado o livro, pois Starr passará a fazer parte da sua vida.

E infelizmente a vida é como ela é, mas temos que seguir em frente, sempre na esperança de que amanhã será melhor que hoje.

Em tempos de ódio e pré-julgamentos como os que estamos vivendo ultimamente, este livro deveria ser usado como livro didático para adolescentes do ensino médio. Um bom lugar para começar a plantar sementes de paz.

Como a autora diz em seus agradecimentos, as vozes devem ser ouvidas, pois todas as vozes importam. Escutemos as vozes e deixemos que as rosas cresçam no concreto.

Compre, dê , doe, compartilhe, empreste. Mas leia este livro com urgência.

Em dezembro estreia o filme. Estejamos preparados. Evento obrigatório.

O mundo precisa disso.

“Pac disse que Thug Life, ‘vida bandida’, queria dizer The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody, ou ‘O ódio que você passa pras criancinhas fode com todo mundo’.”

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