Review | O marido de meu irmão, de Gengoroh Tagame

O que aconteceria se o esposo de seu irmão chegasse de repente em sua casa? Esta é a premissa que Gengoroh Tagame traz no mangá O marido de meu irmão (弟 の 夫Otouto no otto), como também sobre a atitude do protagonista ao receber em sua casa, o marido do seu irmão caçula.  Entretanto,  a realidade por trás de toda a narrativa é nos levar a reconsiderar se nossa sociedade, tão moderna e avançada, é realmente capaz de aceitar o que difere da normatividade heterossexual, na qual somos educados desde pequenos e que muitos não são capazes nem admitir e muito menos aceitar com total normalidade o diferente. E o tema principal da narrativa deste mangá está na aceitação do outro sem qualquer tipo de preconceito, aceitar o alteridade e a diferença como faz a filha do protagonista, com sua inocência de criança e uma maneira de ver o mundo de uma forma mais simples que a de um adulto.

É um exercício para se pensar neste momento de isolamento social, o de refletir e este mangá traz um tema que afeta a todos. O tema da diversidade sexual sempre foi um tabu, proibido e silenciado. Os personagens não-heterossexuais e não-cisgêneros que tiveram que se esconder por muitos anos em armários sociais, que mais tarde foram muito difíceis de destruir. Hoje, nem o Japão conseguiu escapar do debate internacional sobre os direitos das minorias sexuais e esse mangá é um reflexo disso. Mas antes de começar a análise deste mangá, vamos conhecer a figura de seu autor e sua carreira artística.

A editora Panini publicou o mangá em formato 2 em 1, reduzindo seus 4 volumes originais para apenas dois tomos no Brasil. Otouto no Otto foi publicado entre 2014 e 2017 na revista Manga Action, da Futabasha, a mesma de Lobo Solitário, sendo completo em 4 volumes.

GENGOROH TAGAME , VIDA E TRAJETÓRIA ARTÍSTICA

Nascido em 1964, descendente de uma família de samurais, estudou design gráfico na Universidade de Belas Artes de Tama. Enquanto estudava, começou a publicar suas primeiras histórias de mangá. Com o tempo, se especializou no subgênero bara (薔薇), que por sua vez pertence ao gênero hentai (変 態). Logo mais, trataremos desse subgênero e o que ele representa à história em quadrinhos japonês. Se voltarmos à biografia do autor, talvez seja um dos poucos autores que é ativista e vive sua sexualidade livremente e sem preconceitos. Se consultarmos seu site, podemos ler que ele se considera um fetichista, sadomasoquista e gay, detalhes estes que podemos observar na maioria de seus trabalhos publicados.

Além disso, também podemos ver a base de seu estilo, apresentando uma masculinidade mais realista. Portanto, os personagens desenhados por Tagame rompem com a ideia de masculinidade andrógina que podemos ter do yaoi e os desenhos dos personagens mais estilizados de mangás como Boys Love – Ame Quem Você é!. Mas o autor não publica apenas mangás, mas também livros e fez inúmeras exposições nos Estados Unidos, Japão, Europa e Austrália.

Assim, com O marido de meu irmão, Tagame marca um ponto em sua obra, mas sem se afastar do tema gay, pois deixa de lado elementos sadomasoquistas ou relações tóxicas entre os amantes, como acontece em A casa dos hereges (外道 の 家), sem publicação no Brasil. Em vez disso, nos oferece uma história que nos faz a refletir sobre nossos próprios preconceitos e nossa capacidade de aceitar a realidade sexual da sociedade em que vivemos.

O GÊNERO BARA

O gênero bara é um tipo de mangá destinado ao leitor gay masculino. Um gênero que nasceu nos anos 1960, com um alto conteúdo erótico. Diferente do yaoi, que nos apresenta uma idealização erótica de um personagem masculino Bishōnen (美 少年, meninos bonitos), o gênero bara nos apresenta uma representação muito mais realista dos homens e as relações entre os homens. O termo apareceu na revista Barazoku (薔薇 族, lit. Tribo das rosas, 1971-2004), a partir das fotografias que Yukio Mishima apareceu semi-nu e de uma adaptação da tragédia grega Édipo, o rei de Sófocles. Mas, se olharmos para esse gênero com mais profundidade, podemos interpretar o gênero bara como muito mais combativo e representativo da luta social do coletivo LGTBI + para obter os direitos sociais que lhes foram negados por décadas, no os direitos jurídicos que conseguiram compor em 28 países.  Se considerarmos O marido do meu irmão, como um trabalho pertencente a esse gênero, é graças a essa visibilidade pela igualdade.

Sinopse: A obra se passa na casa de Yaichi, um pai solteiro que vive com sua filha Kana. Dentro da sociedade típica japonesa um pai que cozinha e cuida de uma filha sozinho já é uma exceção, quando mais tarde é informado que ele é na verdade divorciado, mas ficou com a guarda da criança, você se vê apresentado a um personagem “moderno”, que já não vive naquela típica família tradicional japonesa. Entretanto essa modernidade não o protege de seus preconceitos. Um dia Yaichi é visitado por Mike, o marido canadense de seu falecido irmão gêmeo, que até então ele fingia não existir. Com essa “invasão” na sua vida, Yaichi passa a questionar seus valores, posições e próprios preconceitos. Embora a história se foque em Yaichi, ele também explora a reação da criança ainda intocada pelo preconceito e curiosa, do gay assumido que tem que lidar com os julgamentos da sociedade e da própria comunidade que julga nas sombras.

Um dos pontos mais fortes e interessantes da história que esse mangá é o choque cultural entre Mike e Yaichi. Um desses primeiros confrontos que o autor pode ser visto na capa do primeiro capítulo, quando ele compara a chegada de Mike à chegada do comodoro Perry e sua frota de navios, fato que levou o Japão a entrar em um processo de modernização. Essa comparação é perfeita, já que o mundo em que Yaichi vive é quebrado pela chegada do estrangeiro canadense, que literalmente quebra seu mundo de crenças e convicções sociais sem questionamento e fará o seu caminho e mudará radicalmente a sua vida.

Por outro lado, Mike  mostrará ao leitor que fora de seu círculo mais íntimo e privado, existe um mundo totalmente diferente, um círculo externo com pessoas diversas, com visões e convicções totalmente diferentes das suas. Saber com precisão que existe um mundo diferente e totalmente válido fará com que Yaichi mude gradualmente a percepção que sente de Mike. Mas, uma viagem que terá a ajuda inesperada de sua filha, Kana, que aceita plenamente a existência de seu tio canadense, independentemente de ser do mesmo sexo que seu tio Ryoji. Embora a princípio ela não entenda tudo, sua visão inocente fará com que o olhar homofóbico de Yaichi se esvai aos poucos.

Dentro do chamado choque cultural, a presença de Mike faz o protagonista começar a questionar seus valores sociais e culturais e acaba aceitando que existem outras formas de viver a vida. Mike vive sua sexualidade livremente, além de mostrar que existe uma cultura queer nos Estados Unidos e na Europa e que no Japão é mais oculta, menos visível, quase inexistente, embora nos últimos anos tenha mudado bastante.

Temos um mangá que educa os leitores, para ver detalhes culturais que o público em geral não conhece. Um ponto de apoio como uma pequena referência positiva, tornando visível em nossa sociedade. Tanto que a leitira dos dois volumes foi

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