Review | O Espelho, de Chaia Zisman

“A maioria dos crimes era a prática, em segredo, do judaísmo, por cristãos novos, eram assim acusados de judaizar, ou seja, acender velas às sextas-feiras, não comer pão no dia da Páscoa e não comer carne de porco”. Anita Novinsky


A busca da liberdade levou o povo judeu por todo o mundo, da época de Abraão até a época atual, os judeus procuram a tão almejada paz. Ao longo dos séculos foram dispersos várias vezes, mesmo no Brasil eles fizeram história e até foram perseguidos. Desde o descobrimento – e antes, mesmo, no domínio das artes náuticas – até depois do domínio holandês, passando pela independência e chegando aos nossos dias, através de seus descendentes, assimilados no meio do povo e da cultura brasileira ou consciente de suas origens judaicas.

A escritora Chaia Zisman traz em O Espelho (7 letras, 328 páginas) a saga de uma família judia, o ramo Oliveira, atravessando séculos de história, deste o patriarca Emanuel – judeu português que viveu no século XV – até os dias de hoje. O romance é uma aventura que acompanha a perseguição sofrida pelos descendentes de Emanuel durante a Inquisição, o desterro no Brasil e o estabelecimento de um ramo brasileiro da família durante o ciclo da cana-de-açúcar.

Uma ótima ficção histórica que mistura fatos e pessoas reais a personagens fictícios com elevada sensibilidade, mantendo o estilo literário da época, onde os personagens se movem em um drama histórico de grande repercussão.

É sensível a narrativa do livro, Zisman conta como foi difícil viver sendo judeu naquela época. Em Portugal fazia anos que os judeus ansiavam por um escape, pois estavam presos entre Espanha, de onde haviam sido expulsos, e o Atlântico; em país que tinham os violentados com o batismo forçado. Tinha muitos motivos para desejar migrar para uma nova terra e constituir uma nova vida, longe das perseguições religiosas que se promoviam na Península Ibérica.

Os cristãos novos foram assim para o Novo Mundo, a futura América para terem liberdade, escapando do Pogrom de 1506 e a Inquisição de 1516. Chegando aqui formaram famílias e se tornaram senhores de engenhos, administradores de fazendas, mercadores de açúcar etc.

O Espelho revela uma estrutura de eventos encadeados tão habilmente escritos que faz de Chaia Zisman uma escritora de raro talento, capaz de conduzir o leitor pelos mais diferentes cenários e épocas. A expansão de Portugal, o Tribunal do Santo Ofício, as disputas no Brasil, fatos que lastreiam a formação do romance, que não se esgota por tratar somente de uma família – os Oliveira. Mas ressoa na saga da milenar errância judaica, e de muitas vezes da riqueza que formaram, de suas dores, lamentos e fugas.

E tudo, se centra pelo espelho que o patriarca Emanuel fez a sua esposa e as três filhas, um fio condutor, com um significado bem simbólico: uma pessoa dividida entre sua fé e outra imposta e sem lugar para onde ir. Um bem de família que é legado a cada nova geração se torna mais que uma relíquia, mas a construção de uma mensagem de identidade e de liberdade.

Personagens com traumas e dramas, espaços e tempos diferenciados, judeus, cristãos-novos, índios e mamelucos, em meio a casamentos, traições e miscigenações. Uma criatividade que traça e une o fio condutor, o espelho do título, ao desenrolar de uma história dos judeus portugueses e sua descendência brasileira.

Portanto, o livro de Zisman nos permite conhecer um pouco mais sobre as origens judaicas brasileiras e a formação de grande parte do povo brasileiro. E se desejarmos continuar trilhando este tema fascinante, há vários caminhos a serem seguidos e um deles é reconhecer nossa própria identidade, nosso espelho.

“Matéria escrita por Cadorno Teles”

Dependemos do apoio de leitores como você para ajudar a manter nossa redação sem fins lucrativos forte e independente.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Você não está conectado à internet