Review | Marcha para a morte!, de Shigeru Mizuki

Final da Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados da infantaria japonesa padecem no Pacifico sob as ordens que morressem em nome de seu país em um ataque suicida ou seriam executados ao regressar da batalha. Publicado pela Devir, Marcha para a morte! (), de Shigeru Mizuki, traz uma narrativa autobiográfica, desde mangaká responsável por boa parte da conceituação visual do que é a representação de um youkai na cultura pop, é o quarto mangá clássico que a editora lança com o selo Tsuru.

Mizuki, com um amargor desconhecido, toma seu caminho numa narrativa que nos leva à Segunda Guerra Mundial e, traz de forma particular, o horror, neste mangá seinen, à prática do gyokusai ou “morrer com dignidade”, um eufemismo para a ofensiva japonesa em que todos os atacantes tinham que morrer. Habilmente, Mizuki descreve o repugnante desprezo pela vida humana.

Mizuki, nos oferece uma das grandes criações das misérias da guerra, tanto que ganhou o prêmio de Legado do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême (2009), e o Prêmio Eisner de Melhor Edição Americana de Material Internacional do Japão e de Melhor Trabalho Baseado em Fatos Reais (2012).  “Os mortos nunca foram capazes de contar sua experiência da guerra. Eu fiz isso. Quando desenho uma história sobre esse assunto, percebo como a raiva me invade. Impossível lutar contra isso. Certamente esta terrível sensação é produzido pelas almas de todos aqueles mortos ” escreveu.

O autor em sua oficina.

Shigeru Mura, mais conhecido como Shigeru Mizuki, nasceu em 1922. Quando criança, gostava de imaginar e desenhar yokais, algo que notamos em um de seus mangás mais famosos, NonNonBa, que leva o nome da contadora de histórias de sua terra natal, que contou diversas estórias sobre os espíritos japoneses.  Aos 20 anos (1942), alistou-se no exército japonês e destacado a um arquipélago no Pacífico Sul, algo que o levaria a um pesadelo, contraiu malária, perdeu vários amigos nas trincheiras e perdeu seu braço esquerdo em uma explosão, algo que o forçou a lidar com a mão direita, já que Mizuki era canhoto. É esta experiência difícil que o inspira para Marcha para a morte! em 1973. O trabalho com o qual tentou para dar voz a todos os seus companheiros que morreram naquela guerra, e enviar uma mensagem clara para o mundo sobre as atrocidades cometidas pelo exército japonês.

Diversas atrocidades sangrentas foram cometidas em períodos de guerra. O “tudo pela pátria” justificou as ações mais desenfreadas contra o homem, seja por motivos econômicos, políticos, territoriais ou ideológicos, as campanhas militares reivindicaram incontáveis ​​vidas para alcançar seu fim. Mas o que acontece quando é a honra que justifica a morte de centenas de pessoas? O Japão vivia o espírito de veneração e sacrifício pela pátria e pelo imperador, e fugir de uma batalha ou ser derrotado era uma desonra. Ser lembrado como um herói que deu a vida em batalha era melhor do que por um covarde que se entregava. E mesmo uma retirada seja um revés para ganhar perspectiva e reorganização não era considerado um bom motivo para todos os altos comandantes militares. Era como se eles estivessem cegos pela idéia “maravilhosa” da operação gyokusai, ou seja era melhor matar aqueles que estavam sofrendo. E Shigeru Mizuki conta, com raiva e repulsa, o que viveu, dando voz a muitos que nunca poderiam nos contar sua história.

A narrativa nos leva ao final de 1943, na Ilha da Nova Bretanha, em Papua Nova Guiné. Um grupo de soldados novatos acaba de desembarcar na parte oriental da ilha e esperar seu destino. Sua missão: aguardar o inimigo e defender o enclave a todo custo. Empolgados pelo combate, logo percebem que não são os americanos seu problema mais imediato, mas o clima, a natureza de um paraíso, que mostra seu lado bonito, mas depois os devora em suas mandíbulas.  Além do medo de doenças, da sede, da fome e dos animais na área, o abuso físico e psicológico de seus superiores é adicionado. E assim, pouco a pouco, sofrem perdas sem disparar contra o inimigo. A moral dos soldados vai caindo, corroendo não apenas o desejo de lutar por seu país, mas também o desejo de sobreviver, até o dia que “O inimigo nos ataca!”

Longe dos filmes de guerra, Shigeru Mizuki varia, ao longo do mangá, um tom que progride de acordo com os acontecimentos. Começando leve, de maneira alegre e cômico, sem exageros, mas que coloca às vezes um tomo surrealista. Uma abordagem, que mostra, apesar do serviço militar e da tensão em tempos de guerra, também havia espaço para risos, música, álcool, comida e sexo. Mizuki alia o cômico com desenhos de traços simples e personagens caricaturados, tanto na aparência mas também em relação aos problemas e ambições dos mesmos. O estilo agradável vai se tornando mais sério e tenaz, os tiros de metralhadoras e as bombas silenciam o riso e as canções dos soldados, e habilmente Shigeru consegue nos mostrar o horror da batalha e a fúria do inimigo, mas sem perder parte do humor mostrado nas primeiras páginas.

Personagens caricaturados, simples em seus desejos e medos, ajuda a não colapsar numa história tão terrível. Impressiona o contraste entre os cenários, detalhados e realistas e os personagens. Mesmo assim, ao manter o humor da caricatura, também gera um forte impacto aos leitores, mostrando o inferno em que os personagens foram submetidos. Explosões, a selva densa, os combates, os aviões… E os inimigos, sua presença é constante, são constantemente sentidos no ambiente e no medo dos soldados japoneses. No entanto, mesmo a despeito da quantidade de detalhes, o autor não coloca a cara em nenhum deles, já que não é contra os norte-americanos a quem projeta sua denúncia.

O mangaká deixa claro quem são os culpados por tanto sofrimento e perda de vidas humanas. O desespero e a violência é sentida, mesmo com a suavidade caricatural, um trabalho que nos leva a uma reflexão sobre a guerra e as consequências da falta de um bom senso. Totalmente recomendável.

 

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