Review | Fogo & Sangue – Volume 1, de George RR Martin

Enquanto todos aguardam com expectativa para a oitava e última temporada de Game of Thrones para o abril de 2019, o seu criador George RR Martin lançava seu novo livro, o primeiro volume de Fogo & Sangue, publicado pela Companhia das Letras, no seu selo Suma. Mas em vez do sexto volume de As Crônicas do Fogo e Gelo, Os Ventos do Inverno, que sairá após o final da série, o autor desenvolveu primeiro essa saga em duas partes, história da conquista de Aegon, o Conquistador e continuando com a dinastia que reinaria, convulsivamente, daí em diante. a fogo e sangue.

George R.R. Martin, aos 70 anos.

Fogo & Sangue lida com a ascensão da Casa Targaryen em Westeros, começando com Aegon, o Conquistador e terminando com Aegon III. Narrada por um sábio meistre da Cidadela, como uma crônica medieval, a história da única família de senhores dos dragões a sobreviver à Destruição de Valíria, entre uma série de reis e rainhas, coniventes para garantir seu controle sobre o trono de ferro, numa narrativa de traições intermináveis, mortes horrendas e cenas de sexo (muitas vezes incestuosas, dada a tendência dos Targaryen do irmão se casar com a irmã).

O autor até referiu, em uma entrevista, de maneira irônica, que este livro e a continuação seriam seu “GRRMarillion”, uma alusão ao O Silmarillion, de JRR Tolkien, que foi publicado postumamente para contar a história da Terra Média. Para quem esperava o sexto capítulo da saga, há um desapontamento por grande parte do público, menos para os fãs mais comprometidos de Martin. Para efeito de comparação, podemos ver a situação como se Tolkien publicasse O Silmarillion entre As Duas Torres e O Retorno do Rei, com uma espera de quase uma década. No entanto, Fogo e Sangue deve ser julgado por seus próprios méritos, sob o ponto de vista cuidadosamente concebido e exaustivo de um mundo histórico fantástico.

Contada sob a perspectiva do cronista Arquimeistre Gyldayn, personagem que oferece a Martin a oportunidade de experimentar uma maneira diferente de contar os cerca de trezentos anos antes dos eventos relatados em GoT. E Gyldayn narra esses eventos históricos, muitos anos depois dos acontecimentos, compilando as diferentes crônicas, panfletos e até mesmo romances satíricos ou eróticos, escritos por aqueles que, supostamente, os frequentavam.

A saga da Casa Targaryen é rica e sombria, cheia dos elementos do título, é parcialmente inspirado pela história medieval britânica; muitos dos protagonistas são análogos a reis que existiram realmente, como Aegon, o Conquistador, deve a Guilherme, o Conquistador e o heroico Daenerys, que lembra muito Henrique II. Temos em mãos um livro histórico, discursivo, com lista de reis e tudo mais sem o impulso narrativo e a caracterização ousada encontrada nas Crônicas de Gelo e Fogo. Para um determinado tipo de leitor, o volume responderá a inúmeras perguntas e enigmas debatidos, mas é menos provável que o fã comum se importe. A perspectiva de um segundo livro igualmente extenso, são mais de seiscentas páginas, pode afastar o público em geral, mas no mais é uma leitura para os aficionados de Game of Thrones, de maneira natural e obrigatória; para aqueles que só assistem a série da HBO, o melhor é correr para um livro que dá uma visão mais geral como O mundo de gelo & fogo da Leya.

Alguns dos textos já haviam sido publicados anteriormente em algumas das outras obras, como no já citado Mundo de Gelo e Fogo, mas a maioria é inédita. Mesmo assim, é um trabalho ambicioso, e há muito para ser apreciado em Fogo & Sangue. O senso de humor, bem irreverente de Martin é presente, como no caso de Lorde Orys Baratheon que mutilado, brincava com a questão de A Mão do Rei; ou ainda o estilo gore do autor com algumas cenas de morte bem drásticas. Outro aspecto interessante, é a maneira que o autor usa o fato do seu narrador não ter sido testemunha dos fatos, se baseando em fontes muito diferentes, oferecendo, às vezes, três versões possíveis para o mesmo fato, do mais exaltado ao mais escandaloso, sendo este último vindo do Testemunho de Cogumelo, um anão bufão que acompanhou alguns desses monarcas no tribunal.

Aegon I, Rhaenys e Visenya Targaryen.

É óbvio que grande parte da narrativa é mais expositivo, com um conteúdo político-histórico, mas esse caráter discursivo, interessante em si, não impede, graças ao bom trabalho de Martin, que a história tenha episódios emocionantes. O tom da crônica faz com que, exceto em casos específicos, haja um distanciamento entre o leitor e os personagens. Martin no entanto, torna-os humanos, próximos em sua humanidade, em seus sonhos e aspirações, em suas pequenas mesquinharias, em suas paixões e ambições, na sua arrogância… É um volume para aqueles que querem descobrir a fundo sobre o universo de GoT, mas pode ser saboreado por aquele em busca de uma crônica histórica de fantasia.

Outro ponto positivo da obra, são as belíssimas ilustrações de Doug Wheatley, que traz um olhar aos principais personagens e cenas da narrativa numa arte em preto e branco estupenda. Não é um romance, evidentemente, mas é uma leitura intensa, emocionante, informativa e profunda de como os reinos são criados e caem. Aguardando o segundo volume, recomendamos a leitura com as ressalvas expostas na resenha.

 

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