Review | Desenhados um para o outro de Aline Crumb e Robert Crumb

Alguns artistas de quadrinhos são bem conhecidos pelo público em geral, outros são mais conhecidos pelos entusiastas dos quadrinhos, ou tem aqueles que só leitores de um âmbito de pesquisa conhecem. E tem ainda os quadrinhos que se encontram nos subterrâneos, conhecidos por underground. Um gênero que surgiu na década de 1960, principalmente em São Francisco (EUA), que lançou as carreiras de luminares como Gilbert Shelton, S. Clay Wilson, “Spain” Rodriguez e – liderando o grupo, Robert Crumb, trazendo uma sensação despreocupada e um loop neurótico para o mundo das HQs.

Com um estilo de desenho mais livre, esses quadrinhos “subterrâneos” tratavam de um olhar mais marginal, clandestino, paralelo ao cotidiano norte-americano. Os títulos que surgiram são simples e livres, abordando temas insólitos e desesperados e realizando uma profunda análise reflexiva sobre a natureza do homem e seus valores. Numa linguagem moderna, brincava com posições políticas, temas violentos e eróticos, para não dizer pornográficos, quadrinhos para causar mesmo.

Robert Crumb é um dos mais performáticos artistas dessse estilo de quadrinhos e possui várias obras já publicadas no Brasil. A mais recente responde a seguinte questão: O que acontece quando artistas underground decidem mostrar como é seu dia a dia, sem se preocupar com o que os outros pensam? E se eles são Robert e Aline Kominsky Crumb, não muito, muito – pelo menos não na sua abordagem à sua arte. Como amplamente demonstrado na antologia publicada pela Quadrinhos na Cia em Desenhados um para o outro (Drawn Together, tradução de Érico Assis), que reúne quadrinhos que os dois cartunistas criaram juntos nos anos 70. Parte autobiográfica, parte do cotidiano deles, parte quadrinhos, as narrativas expunham a vida do casal, que abordam as coisas de maneira bem idiossincrática e franco.

A partir do início dos anos 70, Robert e Aline formaram uma equipe, trabalhando em parceria para produzir quadrinhos. O senso de humor do casal e seu cotidiano familiar estão em evidência ao longo de quatro décadas de histórias em quadrinhos. O escopo cronológico de Desenhados um para o outro também serve ao panorama contracultural e de exilados dos Estados Unidos por quase meio século. As histórias começam nos morros do norte californiano, com singelos passeios pela Haight-Ashbury, e vão até uma louca e malfadada aventura pelo deserto do Arizona. Os hippies dos anos 1970, os yuppies dos anos 1980, o nascimento da filha Sophie, o êxodo do casal para a França, está tudo aqui. 

O volume revela quão estáticas as obsessões literárias dos autores permaneceram ao longo das décadas, dos anos 70 (Timothy Leary e o LSD, o corpo de Aline, sexo sádico) até os anos 80 (o nascimento de sua filha, o corpo de Aline, sexo sádico), passando pelos anos 90 (sua mudança para uma pequena vila francesa, a insatisfação com o documentário de Terry Zwigoff sobre a carreira de Robert, o corpo de Aline, sexo sádico) e os anos 2000 (New York Fashion Week, Festival de Cannes, o corpo de Aline, sexo sádico).

É interessante também ver seus estilos coexistirem sem se fundirem. Robert escreve seus diálogos e desenha a si mesmo e aos planos de fundo com seu estilo familiar de exagero, apoiado por uma habilidade de desenho rigorosa, empregando hachuras cruzadas e a técnica renascentista chiaroscuro para dar peso e dimensionalidade. Já Aline também cria seus diálogos e desenha-se nos painéis com menos polimento, mas usa linhas mais finas e sinuosas, uma arte ingênua, que pode ser abordada como meio que grotesca.

Uma frase que mostra o que a antologia reflete, é dita por Aline: “Quanto mais pessoal e revelador mais interessante”. Os leitores se sentirão como tivessem bisbilhotando, espreitando através da fechadura na vida particular de alguém. Drawn Together uma experiência de leitura bem diferente, pelos temas abordados, não há falta de detalhes, tudo é honestamente colocado pelo casal, desde as opiniões do casal de seus amigos até a mecânica de sua vida sexual, até diversas investigações sobre seus hábitos intestinais.

Naturalmente, qualquer trabalho autobiográfico é, por natureza, uma experiência mediada – o autor direciona nossa atenção para momentos específicos e eventos discretos, na tentativa de transformar a experiência não estruturada em narrativa significativa. E temos em mãos um retrato hilariante dos Crumb, um casal singular na sua excentricidade e adoravelmente infame, mas duas almas cativantes, neuróticas e atormentadas que encontraram a redenção ao se autodesenharem. Quadrinhos que causam mesmo, como toda intimidade de um casal, imagina dos Crumbs.

 

 

 

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