Review | Cornücópia, de Bräo

A máscara diz a verdade...

Olá navegantes do Mundo Hype! Depois de um tempo ausente, retomo agora no início de 2018 com uma review de um material que li no ano passado e me chamou bastante a atenção: Cornücópia, do artista brasileiro Bräo. É importante deixar claro que é uma HQ erótica, recomendada para leitores adultos e que propõe coisas que os mais conservadores podem ficar bem desconfortáveis – o que para mim está ótimo! A arte em sua essência foi feita para provocar, para tocar no âmago de nossa subjetividade e nos fazer questionar nossos próprios valores e convicções.

A princípio, tratarei dos detalhes técnicos do material e em seguida, farei uma breve análise com leves spoilers e com aquela pitada psicanalítica que não pode faltar em meus textos. Cornücópia teve uma edição independente e não deixa nada a desejar. Foi impressa a partir de um projeto com vários apoiadores e isso é algo que precisa ser valorizado. É um material em capa dura, com detalhes em verniz localizado, papel couché de excelente gramatura e medidas (24x32cm) que favorecem muito a arte de Bräo.

É uma HQ praticamente sem diálogos, feita para sensações. Nela, somos espectadores das mais diversas experiências sexuais possíveis. Para os simpatizantes do voyeurismo é um material indispensável. Acompanhamos cenas de masoquismo, fetichismo, ménage à trois e todo o tipo de diversidade sexual. Um detalhe interessante é que nas páginas da esquerda, vemos a personagem principal se produzindo e se preparando para o que acompanhamos durante toda a revista. O traço de Bräo é todo em preto e branco e é lindo, pois ao mesmo tempo que se apresenta de forma suja e rabiscada, consegue ser limpo e preciso. É algo tão bem feito que as cenas conseguem alternar entre a sensualidade e o charme sem perder toda a sacanagem e a libertinagem proposta. Enquanto lemos, é impossível não nos lembrarmos de outros artistas semelhantes. Na minha opinião, Bräo entra no time de verdadeiras lendas do quadrinhos eróticos, como Giovanna Casotto, Paolo Serpieri, Massimo Rotundo e Milo Manara. Confiram uma imagem abaixo:

Gostaria por fim de chamar a atenção para um detalhe fundamental na HQ, que é o uso das máscaras. É nesse ponto que convoco também o filme “De olhos bem fechados“, do mestre Stanley Kubrick. Tanto em toda a HQ quanto em uma cena específica do filme de Kubrick, os personagens utilizam máscaras e fantasias para as práticas sexuais. Para a Psicanálise de uma maneira bem geral e grosseira, a fantasia surge como algo que está presente em todos nós, mas que são, de certa forma, impossíveis de se realizar devido também à consistência da censura social. Eis que surge a máscara para simbolizar justamente a possibilidade de se acessar a fantasia. É se escondendo atrás de algo que podemos realizar aquilo que desejamos mas não admitimos; é preciso se fantasiar e se mascarar, para nos permitirmos ter prazer onde não suportamos ir de encontro com a cara limpa, pois isso exige desconstrução e responsabilidade. Em minha edição autografada (vide foto logo abaixo), Bräo resume com a seguinte frase: A máscara diz a verdade.

Sim, é nos escondendo que nos autorizamos. Genial!
O material se encontra a venda na loja UGRAPRESS.

REVER GERAL
Nota
9
Sou psicólogo e um fã assíduo de filmes, HQs, livros, séries, videogame, cerveja, rock n' roll e futebol. Me ingressei no mundo dos quadrinhos lendo Tex em formatinho e nunca mais parei de ler. Dentro dos quadrinhos, sou apaixonado pelo selo Vertigo e meus autores prediletos são Garth Ennis e Alan Moore. Meus personagens favoritos são: John Constantine, Conan, Batman, Demolidor e Justiceiro.

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