Review | Coragem, de Rose McGowan

Quando você pesquisa por “Rose McGowan” no Google, o que acontece imediatamente é: ser exposto aos momentos polêmicos da vida da atriz que hoje podemos ver que foi e é muito mais do que um rosto bonito e de beleza exótica dos anos 90/2000.

Para situar você que, muito provavelmente, deve estar se questionando o motivo de uma biografia de uma atriz “desconhecida” está aqui no site, Rose McGowan deve ter sido vista por você em Planeta Terror de Robert Rodriguez ou Death Proof de Quentin Tarantino, mas se você for mais atento, o rosto dela protagonizou uma das mortes mais icônicas da franquia Pânico, no primeiro filme. E talvez se você for de uma geração que já via séries de TV no fim dos anos noventa, até metade dos anos 2000, ela esteve em algumas temporadas de CHARMED, uma série que junto de Buffy, por exemplo, era um ícone para as garotas daquele tempo. Quero, antes de mais nada, exalta-la por sua carreira e não por sua vida amorosa que, invariavelmente, será citada aqui, mas por que ela mesma cita esses momentos em seu livro que carrega esse nome forte: CORAGEM.

A Infância

Coragem é uma palavra que pode definir muito facilmente a vida de Rose McGowan. Desde seu nascimento, dentro de uma seita religiosa que mais tarde permitiria pedofilia, com uma estrutura familiar bagunçadissima e valores estranhos, ela sobreviveu aos terrores de um pai volátil, uma mãe submissa e cegueira religiosa. Chega a ser irresponsável resumir a infância de Rose McGowan à isso, mas é muito mais. Essa parte de sua infância ela viveu na Itália, passando por momentos humilhantes e sobrevivendo dia após dia com a garra surpreendente de uma menina de 4 anos de idade. Quando embarcou para os Estados Unidos sua vida mudou em vários aspectos, mas o aspecto recorrente era a violência, o preconceito e o bullying. Sua mãe viveu relacionamentos abusivos e nocivos para a família toda. Um dos maridos de sua mãe, abusava sexualmente da filha do primeiro casamento e tentou matar sua mãe, além de espancar o irmão de 3 anos, na época. Aos 13 anos, Rose McGowan foi internada como viciada em drogas, tendo experimentado droga apenas uma vez. Seu novo padrasto odiava os filhos do primeiro casamento da mãe de Rose e então ela foi enviada para a clinica, de onde ela fugiu duas vezes. Na primeira vez, ela viveu nas ruas por um tempo e decidiu voltar, na segunda ela nunca mais voltou e viveu nas ruas por mais tempo, aproveitando loucamente sua liberdade, mas mesmo com a liberdade que vivia, ela sabia que aquilo não poderia ser o seu futuro e procurou sua tia em Seattle.

O caminho e a vida em Hollywood

Rose McGowan como Paige Matthews em Charmed
Rose McGowan como Paige Matthews em Charmed

A vida de Rose não é uma montanha russa. Nesse brinquedo temos altos e baixos, a vida de Rose não encontrava os picos. Rose McGowan acabou entrando em Hollywood graças ao pensamento mesquinho de seu pai na época. Ele queria que ela pagasse a parte dela no aluguel, aos 14 anos. 300 dólares e nessa época, ela deu a “sorte” de esbarrar num convite para um teste de figuração, ganhando 35 dólares por dia e em suas contas, essa grana seria suficiente. Quando conheceu um cara que, aparentemente, era bacana, sua mãe arrumou outro marido e deixou Rose na mão desse cara que mais tarde, infelizmente, ela descobriu que não era a melhor pessoa e sua vida seria marcada por quase 4 anos de cárcere privado, num relacionamento abusivo onde desenvolveu depressão e anorexia. Quando conseguiu fugir das garras de mais um algoz, encontrou um cara bacana de verdade para amar, mas esse cara foi assassinado e Rose Mcgowan encontrou mais uma descida na vida.

Rose McGowan em Pânico
Rose McGowan em Pânico

Nos sets, Rose sofreu todo tipo de abuso, físico, moral, verbal, psicológico. Teve o primeiro contato com o seu Monstro aos 14 anos e passou alguns anos esbarrando nele (o monstro você vai saber em breve quem é) e depois de Pânico, em Sundence, foi jogada aos tubarões, ou melhor, ao chefe maior dos tubarões. Quando sofreu esse abuso e entendeu o significado daquilo, Rose McGowan desceu ainda mais naquela ladeira de tragédias. Depressão e crises de pânico. Ninguém a ouvia, as pessoas julgavam que aquele abuso seria bom para a carreira dela e mais uma vez Rose se via só.

Um tempo mais tarde Rose McGowan conheceu Marilyn Manson e, pode acreditar, ele foi um bom namorado para ela até certo momento. Cuidou dela, se preocupava com as crises e era um parceiro apaixonado. A música Coma White foi feita para ela e ela está no clipe, inclusive. Depois do massacre de Columbine, Manson começou a ser associado ao atentado e isso o deixou fora do eixo. Daí em diante as coisas mudaram.

Rose McGowan em Planeta Terror
Rose McGowan em Planeta Terror

Seu namoro, mais tarde, com Robert Rodriguez, foi outro ponto onde a vida de Rose McGowan deslizou mais um pouco pela ladeira Hollywoodiana. Sofreu com as mentiras, ciúmes e abusos de Robert Rodriguez que era possessivo, explosivo e tentou por um tempo manter uma vida dupla de homem casado e casto, enquanto dava em cima dela. Nesse momento do livro, inclusive, ela pede desculpas pelos danos causados, principalmente aos filhos e esposa de Robert Rodriguez na época.

Caso Harvey Weinstein

Rose McGowan é uma das grandes responsáveis pela queda de Harvey Weistein. Em seu livro ela não cita o nome dele, não quer ter seu nome ao lado do nome de um monstro, como ela mesma diz, mas esse fato é merecedor de reconhecimento. Um ano antes das denuncias virem à tona, Rose falava disso em seu Twitter e antes disso, muito antes, falava abertamente sobre o que aconteceu, sendo chamada de mentirosa pelo próprio Harvey. É de se reconhecer a coragem dela em tirar a primeira pedra do castelo do Magnata de Hollywood. Depois da exposição de Harvey Weinstein, dúzias de atrizes conseguiram reunir coragem para falar do caso também, dos abusos sofridos na mão dele. O movimento que vemos hoje em Hollywood, essa união das atrizes e de atores contra o abuso, contra a desigualdade, começou ali.

A Mensagem

Coragem, biografia escrita pela própria Rose McGowan, é muito mais que um relato de sua vida difícil. O livro é uma ode ao sentimento de toda mulher que é oprimida, silenciada, diminuída e abusada. O livro é uma lição de vida. É um incentivo à lutar. Sua tradução se dirige ao leitor no gênero feminino, então, falando pessoalmente, como mulher, ler esse livro foi como conversar com Rose McGowan, ouvir suas histórias tristes e entender cada motivação por trás de cada fato “polêmico” de sua carreira. Não se preocupe, esse livro não é leitura exclusiva para mulheres. Homens devem ler também. Nesse livro você vai poder entender que feminismo é sobre respeito, igualdade e solidariedade ao sofrimento do próximo.

Rose McGowan conta sua história de vida para que mais mulheres (homens também), entendam como a vida de uma mulher pode ser difícil pelo simples fato de ser mulher. O discurso não é de ódio, não é sexista, é informativo e esclarecedor. Rose aponta isso na vida fora e dentro de Hollywood. Ela expõe que além do corpo, existe uma pessoa, uma pessoa que mantém outras pessoas, que tem sonhos, ideais, histórias e lições como ela mesma.

Hoje Rose McGowan superou sua história trágica e deixou Hollywood de lado. Atualmente ela dedica seu tempo em difundir seus ideais e levar esclarecimento sobre a indústria. Não atua como atriz tem um tempo, mas dirige, escreve, compõe, canta e fotografa. Agora ela pode ser ela mesma e não quem a indústria queria que ela fosse.

A única observação negativa é sobre a edição brasileira. Há, em alguns capítulos, alguns erros onde faltam espaço entre artigo e palavra. Esse se repete ao longo do livro, mas nada que interfira na leitura.

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