Review | As Últimas Testemunhas, de Svetlana Aleksiévitch

Relatos fortes, verdadeiros e infelizmente verídicos!

A Tag Livros, responsável por oferecer um serviço de assinatura literária (Tag Curadoria e Tag Inéditos), onde todo mês lhe é entregue um novo livro (clique aqui e  conheça mais), o assinante coloca sua escolha em risco e por muitas vezes recebe em sua casa uma edição exclusiva e alguns mimos para quem é fã de leitura. A proposta da empresa é apresentar bons livros indicados por curadores e inéditos no Brasil e que variam a cada mês, permitindo ao leitor conhecer obras que dificilmente iria promover. O livro que ganha seu espaço aqui no Mundo Hype dessa vez, é o grande As Últimas Testemunhas – Crianças na Segunda Guerra Mundial escrito pela ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, Svetlana Aleksiévitch. 

AS ÚLTIMAS TESTEMUNHAS - SVETLANA ALEKSIÉVITCH - TAG LIVROS - MUNDO HYPEA bielorrussa Svetlana merecedora de tal prêmio, foi contemplada decorrente apenas por essa maravilhosa obra, mas também por outros impactantes livros como: O fim do homem soviético; A guerra não tem rosto de mulher; Vozes de Tchernóbil; entre outros. Na edição apresentada hoje, a escritora nos apresenta uma variedade enorme de relatos dos mais dolorosos e intensos, direto dos sobreviventes da segunda guerra mundial. O livro apresenta os fatos pela visão infantilizada das testemunhas que na época, em sua grande maioria variava entre 4 e 10 anos de idade.

Os testemunhos da guerra se passam na Bielorrússia, na chamada Guerra Patriótica que aconteceu de 1941 à 1945. Regada a muita crueldade, carnificina, fome, morte e descrença de um povo que acreditava piamente em seu próprio exercito. Os bairros tomados pelos alemães eram nada menos que um cenário de massacre sem precedentes, casa incendiadas, corpos incinerados, enforcados, mutilados e muitas vezes congelados em plena vista.  Na segunda guerra mundial morreram mais de 13 milhões de crianças, e só na pátria em questão, existiam mais de 27 mil delas morando em orfanatos.

Os soldados do Exército Vermelho estavam parados, chorando, sem vergonha das lágrimas… – Quebraram a cabeça dele, e eu juntei o cérebro com a mão. É branco, branco…  

Jênia Selénia – 5 anos

O ato da guerra em si, já é cruel o suficiente para gravar a memória de qualquer testemunha para sempre. Atos violentos por toda parte, execuções, fuzilamentos e torturas (tanto físicas, quanto psicológicas) em todos os lugares, crianças, mulheres, idosos, animais, ninguém estava livre da perversidade da guerra. Crianças foram fuziladas a troco de diversão, Sequestradas para servir como um banco de sangue para soldados alemães no front, crianças que morreram de frio e fome por não ter por quem zelassem por eles. Claro que o livro por ser um compilado de relatos, muitas testemunhas podem ter esquecido ou acrescentado algo, em decorrência do tempo passado, mas mesmo assim, ainda é chocante de todas as formas possíveis.

Svetlana perdurou por mais de 26 anos juntando relatos, testemunhas, moldando essa edição pra que ficasse o mais coerente possível. Muitos tiveram coragem de voltar as dores do passado para imortalizar suas experiências, e de que outra forma poderiam o fazer? A segunda guerra mundial, o holocausto e todas as atrocidades que aconteceram na década de 40, jamais serão esquecidas. Há uma infinidade de obras das mais variadas possíveis retratando um pouco mais sobre. Com esse livro com certeza Svetlana conseguiu trazer algumas coisas que ainda não haviam sido faladas. O que mais choca o leitor ao acompanhar os relatos, além das atrocidades é claro, foi a forma como a infância foi usurpada de todas essas testemunhas, muitas não sabiam nem contar até 10, e aprenderam contando corpos, tiros e bombas. A responsabilidade da vida, foi um fardo pesado demais pra muitos deles, as coisas que tiveram que se submeter para manter essa sobrevida, exemplos inimagináveis como comer um pedaço do fogão, comer papel de parede, lascas de arvore, capim, ratos, gatos, cachorros, passarinhos. Não existe Ética na guerra, não existe etiqueta, apenas a vontade de viver de qualquer forma, regada sempre de muitas lágrimas e saudades.

De uma forma menos direta, as testemunhas falam muito sobre a ausência do pai por conta da convocação a guerra, e sua volta que nunca houve. Porém nada é comparado a falta que faz até os dias de hoje a presença da mãe. Muitas delas assassinadas de forma brutal em frente aos próprios filhos, quando não tinham que se submeter a assistir muitos deles serem massacrados em sua frente. Por pura crueldade.

Qualquer dificuldade parecia ser muito mais suportável, se estivem juntos as suas. O maior simbolo universal de proteção. A Mãe!

Alguns dias depois. Reuniram todas as crianças, éramos treze, nos faziam andar diante de suas colunas: tinham medo das minas terrestres. Íamos na frente, e eles iam em veículos atrás de nós. / Os alemães iam pelas khatas. Juntaram os que tinham filhos entre os partisans… E cortavam a cabeça deles com um machado no meio da aldeia.

Liuba Aleksandróvitch – 11 anos


Tag Livros: Agora direcionando um pouco mais para essa edição. Foi um belíssimo trabalho que fez a Tag em parceria com a editora Companhia das Letras. Livro capa dura, folhas com a margem preta, ótima edição e diagramação. Afim de dar um suporte maior a obra, junto ao livro vem uma revista com uma leitura de apoio, apresentando um pouco mais sobre esse delicado momento, a autora, a curadoria da Tag Livros e trechos que te auxiliam a entrar nessa atmosfera. Sem contar os mimos que deixam o coração de qualquer leitor aquecido. Um livro que exige que o leitor crie um pouco mais de empatia, e adentre aos tempos da guerra. Mais uma edição que com certeza merece sua atenção!

AS ÚLTIMAS TESTEMUNHAS - SVETLANA ALEKSIÉVITCH - TAG LIVROS - MUNDO HYPE

Depois de pombas e andorinhas, começaram a desaparecer gatos e cachorros na cidade. / A amiga da mamãe trouxe o cachorro dela para a gente. E nós também o comemos. / No terceiro dia ela amarrou o cachorro ao aquecedor da cozinha e nos expulsou para a rua… Lembro daquelas almôndegas… Lembro… Queria muito viver… / Cachorro, querido, perdão…

Galina Fírsova – 10 anos

 

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