Review | A Garota que Bebeu a Lua de Kelly Barnhill

Algumas leituras tem a premissa de repassar aos seus leitores, em especial os mais jovens, lições sobre a vida. Algumas dessas lições transcorrem o tempo que envelhecemos. Há diversos exemplos, como O Hobbit e a Saga do Anel de J.R.R.Tolkien, As crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, ou as aventuras da Turma do Sítio do Picapau Amarelo do Monteiro Lobato. Há coisas maçantes que não iremos nem lembrar. Mas felizmente, Kelly Barnhill, em seu A garota que bebeu a lua (The girl who drank the moon, tradução de Natalie Gerhardt) temos uma narrativa que trata e educa sobre opressão, lealdade cega e desafia o status quo, enquanto leva o leitor a uma jornada fantástica e emocionante com tudo que um bom livro de fantasia possui, em especial criaturas mágicas.

A autora pega da mitologia grega e medieval para construir sua história. Todo ano, as pessoas do Protetorado, uma cidade sombria e coberta de nevoeiro, deixam um bebê recém-nascido como oferenda a uma Bruxa que vice na floresta, na esperança que aquele sacrifício a impeça de destruir a todos. Mas Xan, a bruxa da floresta, ao contrário do que acreditam, é bondosa. Os ostentosos e afetados anciões da cidade perpetuam essa mentira. Não acreditam no que falam, mas sabem que a mentira significa um povo submisso, amendondrado e complacente.

Morando com um Monstro do Pântano que faz poesia e um dragonete, Xan recolhe os bebês e leva para as Cidades Livres para serem adotados por famílias que as esperam. Chamam essas crianças de Criança Estelar, porque na jornada Xan os alimenta com a luz das estrelas. Ao contrário das crianças tristonhas do Protetorado, os bebês prosperam e seus olhos brilham. É uma metáfora para o amor e a compaixão que eles recebem.

Xan acaba gostando de um desses bebês, um do sexo feminino, que a alimenta não com a luz das estrelas, mas com a luz da lua, dotando-a de uma magia extraordinária. Decide criar a “embruxada”, a quem chama de Luna e por 13 anos contém suas habilidades mágicas. Segredos são guardados por Xan e seus companheiros, lembranças de um passado infeliz e violento que deve ser mantido esquecido. Por que esquecer? E por que é tão importante que a cidade seja mantida daquele jeito ? Quando entendemos as respostas, tudo se encaixa e é por isso, que a história de A garota que bebeu a lua merece uma atenção para os leitores de todas as idades, não especificicamente para  o público juvenil para quem é direcionada. Creio que é por isso que ganhou o Newbery Award de melhor ficção infantil, um dos prêmios mais importantes da literatura infantojuvenil nos Estados Unidos.

A autora se destaca em desenvolver personagens bem construídos, como o ancião em treinamento Antain, que começa a suspeitar que nem tudo é o que parece. Com o rosto coberto de cicatrizes, está determinado a libertar seu povo e proteger sua família, mesmo que precise matar a Bruxa. Outro aspecto que a autora traz é que quase toda personagem feminina possui alguma habilidade sobrenatural quando necessário, mas talvez essa seja outra verdade oculta: todos temos o poder de fazer as coisas acontecerem. Uma boa abordagem ao Empoderamento consciente. Seus personagens são sutis e realistas: crescem e mudam, cometem erros, amam e riem, são egoístas e generosos em turnos. Temas de amor e família percorrem todo o livro; embora Luna e Antain encontrem lares felizes e famílias amorosas, ambas são ofuscadas pelo que aconteceu no Dia do Sacrifício em que Luna foi tirada de sua mãe.

A narrativa é tão bem traçada que não dá para notar as 306 páginas, entretenimento do começo ao fim. Uma linguagem que lembra os contos de fadas tradicionais, sem trazer nada de muito infantil ou estereotipada. Usando de vários pontos de vista, não apenas os de Luna e Xan, apresenta uma história envolvente e sensorial, em especial pela forma que a Magia se apresenta. Abundante e bela, mas também perigosa. Origamis representando pássarps voam, mas suas asas cortam como navalha. Inquieta quando é utilizada de forma sinistra, pois dependem da troca de uma moeda que é perturbadora de se ler sempre que é empregada.

A garota que bebeu a lua é um fabuloso trabalho de fantasia, que se baseia fortemente na arte de contar histórias e ricamente imbuído de personagens interessantes com um cenário extraordinariamente imaginativo. Surpreenda com essa história, amigos.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here