Review | A Cor Púrpura, de Alice Walker

Uma vida quase sem cor

A Cor Púrpura, livro escrito por Alice Walker, famosa ativista americana em 1982, ganhou o premio Pulitzer no ano seguinte de sua edição e foi adaptado para o cinema por Steven Spielberg em 1985, concorrendo a 11 Oscars sem ganhar nenhum, o que na época gerou polêmica, pois o filme foi considerado por muitos críticos como o melhor do ano.

O livro narra a estória de mulheres negras no inicio do século XX nos EUA. A escravidão já terminara há alguns anos. A abolição da escravatura nos EUA data de 1863, mas o esquema patriarcal das famílias era a regra mandatória. E para o machismo não existe cor. O livro é permeado por casos de discriminação racial e de gênero, mas o pior vem de dentro das próprias famílias. Violência domestica era incentivada e ensinada para os homens da casa.

“Querido Deus, ele me bateu hoje porque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu pudia tá com uma coisa no olho, mas eu num pisquei. Eu nem olho pros homem. Essa é que é a verdade. Eu olho pras mulher, sim, porque num tenho medo delas”

Celie , a narradora de A Cor Purpura, sofre as consequências por ser pobre, negra e mulher. Logo cedo perdeu a mãe, e aos 14 anos passa a ser abusada pelo pai, e chega a dar a luz a duas crianças. Como já existem outras crianças na casa, filhos de seu pai com outra mulher, as dela são dadas para adoção. Ela morre de medo que o mesmo aconteça com sua irmã mais nova. Com o tempo Celie torna-se infértil, e acaba sendo vendida no lugar da irmã mais nova para o Senhor, um homem mais velho, negro também, que ficou viúvo e precisa de alguém para cuidar da sua casa e de seus filhos. Ele e seus filhos tratam Celie quase como uma escrava, às vezes até espancando-a pelos motivos mais banais, e na sua simplicidade, ela acha tudo aquilo normal, pois se coloca num papel de submissão, aceitando calada qualquer coisa. Seu objetivo é simplesmente servir. 

“-Sou pobre, sou preta, posso se feia e num sei fazê cumida – diz uma voz para tudo o que tem ouvidos. – Mas estou aqui”

A vida de Celie é muito triste. Ao se casar ela se separa da única pessoa que lhe apoiava: sua irmã, que após o casamento, acabou saindo da casa do pai também. Celie, em sua solidão, passa a escrever cartas para Deus, mas um dia ela descobre que sua irmã está viva, e achando-se enganada, passa a por em cheque a existência de Deus e decide passar a escrever para sua irmã.

Nettie, a irmã mais nova, deu mais sorte na vida. Conheceu um casal de negros missionários, e junto com eles foi difundir o cristianismo e ajudar pessoas na África. Através de suas cartas vamos percebendo a luta de um povo para manter suas tradições. A tribo vive isolada até a chegada da estrada pelo homem branco. A estrada é uma das representações do progresso. O tempo todo Nettie busca ali suas raízes e tenta entender porque o povo africano aceitou vender seus iguais para serem escravos em outros países.

“O que eu falei na primeira vez que vi a costa africana? Bateu-me qualquer coisa no coração, Celie, como um grande sino e fiquei a vibrar. A Corrine e o Samuel sentiram o mesmo. E ajoelhamos ali mesmo, no convés, e agradecemos a Deus por nos deixar ver a terra pro que choraram as nossas mães e os nossos pais e viveram e morreram para a verem de novo.”

Além disso, a vida ali é movida por tradições, e neste ponto o livro faz uma conexão entre as antigas tradições tribais, principalmente em relação à submissão das mulheres, e a vida das mulheres na América do começo do século XX. E percebemos o quanto as regras são parecidas. Em ambos os mundos, os homens se sentem como donos das mulheres, e muitas assumem este papel de submissão.

“As nossa mulheres são respeitadas aqui, disse o pai. Nunca as iamos deixar andar por esse mundo como fazem as americanas. Há sempre alguém para olhar pela mulheres olinkas. Um pai. Um tio. Um irmão ou um sobrinho”

Mas para toda regra existem exceções.

Na casa do Senhor, Celie conhece Sofia, a esposa de Harpo, seu enteado, que não aceita ser submissa ao marido e nem ao homem branco, o que acaba lhe causando um enorme problema em uma das subtramas do livro que nos causa mais repulsa.

A outra exceção é Shug Avery. Uma cantora da noite e ex-amante de seu marido. Ela e o Senhor sempre foram apaixonados, mas ele não foi capaz de ir contra seu pai que na época não aceitava a vida que Shug levava. Acabou casando-se com outra mulher que nunca amou, mas nunca deixou de se encontrar com Shug. No momento que ela fica doente, ele, despudoradamente a traz para morar junto com ele e Celie , que mais uma vez aceita a situação sem discussão. No começo, no fundo, ela sente raiva daquilo. Shug é o extremo oposto de Celie. Independente, não obedece a homens e não se dobra a qualquer regra. Porém aos poucos Celie vai se afeiçoando a Shug que lhe mostra que uma mulher pode ter voz, pode ser amada e pode sentir prazer. E começa ali uma relação que aos poucos nos parece muito estranha, mas que logo passa a fazer total sentido, e é impossível não ficar feliz ao ver Celie se encontrando. Como ser humano e como mulher.

Imagino o impacto que este livro tenha causado na década de 80 ao mostrar o amor entre duas mulheres, mas é tudo tratado com tanto carinho que é difícil não se envolver com a estória. Vontade de abraçar e mimar Celie. E tudo o que ela precisava em sua vida era de amor.

Mas o amor não é fácil, e as personagens criadas por Alice Walker são sensacionais. As idas e vindas. As mudanças nas relações. Um texto perfeito.

A estória de vida destas mulheres nos traz um livro emocionante, que discute racismo, religião, feminismo, sexo, relações familiares e muito outros pontos que devem sempre ser discutidos.

100 anos se passaram entre o tempo narrado em A Cor Púrpura e nosso tempo atual, porém muitos problemas citados ali ainda rodeiam as mulheres de hoje.

Para ler, refletir e não repetir os erros.

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