Review | Creepshow, de Stephen King e Bernie Wrightson

Em 1982, Stephen King e George Romero fizeram um filme que ainda é considerado a melhor antologia de horror de todos os tempos. Anos antes, durante um Festival de Filmes, os dois gênios do terror compartilhando do amor pelo cinema e por histórias macabras iniciaram sua amizade que levou ao feito. Romero queria filmar A Dança da Morte, no entanto, King teve a ideia para uma antologia que traçasse uma narrativa com imagens de terror, com pequenas estórias em épocas diferentes e assim surgiu Creepshow em um roteiro escrito em sessenta dias.

O longa-metragem marcou a estreia de King como roteirista — e, curiosamente, sua segunda aparição como ator. Creepshow (que no Brasil ganhou o subtítulo Show de Horrores) se tornaria um cult movie instantâneo. E, no mesmo ano, Stephen King quis deixar ainda mais explícita sua homenagem à fonte original.

Lançado alguns meses antes do lançamento do filme, a graphic novel de 64 páginas tinha todos os cinco contos de King (três dos quais escritos especificamente para o filme), e apresentava arte do lendário Bernie Wrightson, um dos criadores e primeiro ilustrador de O Monstro do Pântano, e capa de Jack Kamen, autor veterano. Tanto o filme quanto o livro propositalmente têm um visual retrô que imitasse, ou talvez mais precisamente homenageasse os quadrinhos de terror dos anos 50, mais notavelmente Os Contos da Cripta, publicados pela EC Comics. A graphic novel ainda apresenta um anfitrião macabro, como os quadrinhos, que aparece brevemente a cada história. Mas será que ainda assusta como nos anos 1980?

Embora Stephen King tenha se concentrado em escrever mistérios, continua sendo o grande ícone do gênero de terror. Já se tratando de Bernie Wrightson, temos o equivalente artístico de King, que permaneceu na vanguarda do gênero com suas linhas e temas sombrios. E não é surpresa o quão se adaptaram a esse tributo das revistas de terror dos anos 50, já que ambos expressaram seu amor pelos quadrinhos e como aqueles quadrinhos foram uma grande influência em suas obras.

Creepshow não é apenas uma viagem nostálgica de volta para os anos 1950 ou 1980, os traços e as cores brilhantes do artista e com os contos do autor ainda marcam. O que se destaca nesta segunda leitura é que King pode não estar apenas escrevendo uma homenagem aos antigos quadrinhos de terror, mas destaca um tema específico que ainda soa na mídia popular, seja na escrita, na arte ou em filmes.

Em “Dia dos Pais“, temos a vingança onipresente. “A Caixa“, cobre o marido sofredor que encontra a cura para seu dilema em um terror mantido em uma caixa. “Indo com a Maré” repete um tema popular da ficção em conto de King: homens ricos, adultério, vingança e castigo. E “Vingança Barata“, um conto que lembra a Twilight Zone em que um homem ruim cai pelo que mais teme. Através destas quatro narrativas, em conjunto no diálogo e na arte, há a consistência temática da Vingança & Justiça que prevaleceu na antiga EC Comics. Creepshow retoma esse tema com um pouco mais da mordida de King e muito mais cor de Wrightson.

Stephen King no filme de 1982.

Entretanto há uma narrativa que não se encaixa nesse tema e, em nossa concepção, é a melhor. “A solitária morte de Jordy Verrill” que foi contada pela primeira vez por King em 1976, numa revista, é praticamente um conto lovecraftiano que consegue abordar a mudança de foco em um personagem, com humor e terror, o simples Jordy, como sofre com sua descoberta meteórica. Uma curiosidade, no filme, Jordy é interpretado por Stephen King, mas Wrightson sabiamente mantém suas feições.

Creepshow ainda parece fresco e vintage ao mesmo tempo. As histórias ainda soam verdadeiras para o gênero e o amor que muitos têm pelos antigos quadrinhos é respeitado. Agora, poderiam fazer um remake ou uma série de terror. Quem sabe?

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