Review | Vox, de Christina Dalcher

O que podemos dizer com apenas 100 palavras por dia? É nessa pergunta absurda e em uma atmosfera que gera certa angustia em nós que a história de Vox começa, explicando como tudo aconteceu nos EUA distópico e como as pessoas passaram a viver sob o novo sistema, onde as mulheres podem falar apenas 100 palavras por dia, não podiam mais trabalhar e eram educadas apenas para as tarefas domésticas e calcular apenas para fazer compras no supermercado.

Vox, de Christina Dalcher, chegou ao Brasil no segundo semestre de 2018 pela Editora Arqueiro, com uma proposta de distopia onde as mulheres tem todos os seus direitos retirados, podendo fazer poucas coisas, uma delas é ter um limite máximo de palavras para se falar no dia.

”O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.

Esse é só o começo…

Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.

…mas não é o fim.

Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.”

A trama começa bem, com uma escrita fluida que nos instiga a ler cada vez mais. Fiquei presa ao livro até o fim para saber o que acontece, qual o poder que uma mulher tem de mudar (ou não) o sistema. Vox propõe debates filosóficos e linguísticos bacanas, que nos colocam para pensar e perceber o que está acontecendo hoje nas nossas vidas, e o que pode acontecer no futuro. Christina Dalcher me manteve grudada no livro até terminar a ultima página.

Conversando um pouco com algumas amigas que estudam sobre desenvolvimento infantil e depois de algumas pesquisas e alguns podcasts sobre a importância da linguagem, é realmente angustiante maginar a possibilidade de um futuro onde meninas não possam exercer livremente a capacidade de fala, e acabei me preocupando seriamente com os problemas que essas crianças poderiam ter ao longo do desenvolvimento. É realmente preocupante e assustador imaginar uma história como a do livro, e, pior, me colocar dentro daquela história. Nessa ponto, a autora conseguiu trabalhar muito bem a atmosfera, mostrando o quão sufocante era para Jean viver em um mundo tão fechado, onde são poucos os seus direitos, muitos são seus deveres e não há escapatória visível para aquele tormento.

Mas… nem tudo são mil maravilhas.

Por mais que o livro promova debates importantes sobre o papel da mulher na sociedade, linguagem e desenvolvimento social, muitas coisas apresentadas atrapalharam a linha de raciocínio do livro. O romance da protagonista poderia ter sido muito menos detalhado, visto que atrapalhou a fluidez da trama e deixou essas partes bem chatas.

Alguns personagens foram extremamente subaproveitados, por exemplo, o Patrick- esposo de Jean,  e outros receberam uma relevância muito grande no inicio e foram simplesmente esquecidos no meio da trama. O final de Vox foi muito corrido, com algumas atitudes e ações completamente sem sentido lógico e real mesmo, sem credibilidade nenhuma de acontecer na realidade – mesmo se tratando de uma distopia, com informações em aberto e passagens de tempo abruptas. Personagens foram teletransportados do nada, fatos realmente interessantes para a história não foram explicados e outros personagens sumiram sem nenhuma explicação a mais sobre os mesmos. Ela poderia ter gastado mais algumas páginas ao menos para explicar de maneira clara o que aconteceu e como alguns personagens que estavam presos e internados chegaram em um local específico.

Uma coisa que realmente me incomodou foi o tratamento dado ao filho mais velho de Jean. O inicio dele na história, a construção do personagem foi muito bacana, mas parece ter sido deixada de lado no meio para fim, sendo pouco retratada. Ele merecia uma atenção maior e melhores explicações para as suas atitudes no inicio e no fim do livro.

Eu poderia ter dado uma nota maior, mas a pressa em finalizar a história, as diversas lacunas deixadas, além da tentativa de dar um final muito feliz fizeram com que o livro não me agradasse tanto. Além de que o protagonismo feminino, que fora proposto no inicio, foi quase perdido no fim.

Ainda assim, acho que é importante ler livros como Vox, que saem do lugar comum e nos colocam em algo absurdo, mas possível de acontecer. A discussão é válida sempre, onde vivemos em um mundo que nos obriga a lutar todos os dias para conquistar direitos e manter os já conquistados.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here