Review | Vergonha, de Brittainy C. Cherry

Review | Vergonha, de Brittainy C. Cherry

Fazer a resenha de Vergonha da autora Brittainy C. Cherry não é uma tarefa fácil. Publicado pela Editora Record, Vergonha é um drama contemporâneo, bom longe do que estou acostumada a ler, mas que me marcou de uma forma positiva (e alguns personagens de forma negativa).

Vergonha conta a história de Grace e Jackson, duas pessoas que são marcadas por estigmas dos quais não tem culpa de carregar. Grace é a filha mais velha do pastor local, que precisa agir e viver de forma perfeita para não envergonhar a família e mostrar que o que pregam é real. Já Jackson é isolado da pequena comunidade onde vive, sendo tratado como um lixo de pessoa, servindo apenas para os interesses sexuais das mulheres da comunidade que fingem serem perfeitas. Seu pai é alcoólatra e que não superou a perda da mulher, e que é tratado mil vezes pior que seu filho.

Eles nos chamavam de monstros e, depois de um tempo, nós assumimos esse papel.

E, como qualquer clichê romântico, a vida dos dois acabam se trombando. Ao primeiro momento deles é quando Jackson ajuda Grace em uma crise de pânico, mostrando uma faceta de si que ninguém na cidade conhecia. Grace passava por momentos complexos, o fim do casamento, descoberta de uma traição de seu marido e ainda carregava nas costas o peso do julgamento de toda a cidade. Com o tempo, Grace e Jackson, que relutam a se aproximarem no inicio, passam a perceber aos poucos que não precisam ser o que a comunidade espera que eles sejam, que eles podem ir muito além do que as pessoas imaginam para eles.

A questão do clichê para aí. Porque, depois da premissa, fui surpreendida de tantas formas diferentes que é até difícil me expressar nessa resenha.

Algumas vezes, a melhor coisa para um coração triste é um livro que faça você rir.

Jackson e Grace, aos poucos, vão deixando as mascaras que usam caírem, e uma amizade surge entre eles. Eles começam a se corresponder através de indicações de livros com post its, que um deixava para o outro na livraria da cidade. O bom é que vemos um pouco da personalidade deles em suas indicações, e com certeza também colocamos mais livros na nossa lista de próximas leituras.

Grace, protagonista desse livro, vai aos poucos superando o luto do fim do casamento e da descoberta de toda a traição que envolvia seu marido com a ajuda de Jackson e da amiga Josie. (Percebam que não estou dando muitos detalhes da trama para que descubram por si mesmos). Grace vai se descobrindo e voltando a colocar a si mesmo como principal em sua vida, ainda que seu ex-marido Finn – bicho nojento – ainda tente voltar para acabar com a paz que ela tanto luta para ter.

Porque eu não sou como todas as pessoas da cidade. – Grace

O relacionamento vai sendo construído, vamos nos apegando e odiando personagens secundários e, em certo momento da trama, chegamos a seguinte pergunta: por que Jackson e o pai são tratados dessa forma? Por que a família de Grace, líder da comunidade, não faz nada para mudar isso? Aí nos deparamos com um casal um tanto controverso – os pais de Grace.

A mãe da Grace é uma mulher horrível, deplorável, mas que sabemos que uma pessoa desse tipo não ficaria presa apenas na ficção. Ela tenta fazer de tudo para que a filha volte com o ex-marido, mesmo sabendo que isso vai ser pior para Grace. Mas, para a rainha, as aparências de perfeição estão sempre em primeiro lugar. Perfeição em partes, porque ela permite que Jackson e sua família sejam maltratados por toda a cidade, e ainda acha que eles tem culpa nisso. Ela não pensa na felicidade da própria filha, e, sempre quando pode, é capaz de alfinetar Grace, seja em suas roupas, seja em seu relacionamento.

O pai de Grace é um mosca morta. Vê as atrocidades que a mulher faz mas não se movimenta para para-la. Pior, sente-se confortável nesse tipo de relacionamento. No final do livro entendemos que ele contribuiu para esse comportamento tóxico da esposa, mas, ainda assim, ele é extremamente irritante.

Ela não é você. Ela nunca vai ser você, e eles não podem roubar o seu final feliz. Isso é só seu. Só poque ele não chegou do jeito que você pensou não significa que seu final feliz não esteja a caminho.

Dos outros personagens secundários, Finn é outro que consegue ser tudo aquilo que dá nojo a uma pessoa. Ele trai a esposa com a melhor amiga dela, termina o casamento quando bem entende e ainda exige voltar com Grace quando vê que ela começou a melhorar sem ele. Mesmo depois de ter feito tudo o que fez, ainda se acha no direito de interferir na vida dela (sim, tiveram vários momentos que Jackson martelava um carro que eu queria que Finn estivesse lá dentro).

Josie, melhor amiga de Grace, e Judy, irmã de Grace, são personagens incríveis que dão muita força para a protagonista para que ela consiga superar o momento dificil que estão passando. Achei Josie uma personagem incrível, crível, e que foi bem construída, apesar de não aparecer tanto quanto merecia. Judy, irmã de Grace, eu já não achei tão real. Ela é perfeita demais em tudo o que faz, o que a coloca quase num patamar de perfeição que a mensagem do livro tenta destruir.

Os outros personagens são dicotômicos demais. Quem é ruim, é ruim, que é fofo, é fofo. Esperava um maior aprofundamento nessa parte.

Na escuridão dele, eu encontrava minha luz.

Em Vergonha, Jackson e Grace crescem juntos, principalmente Grace, que passa a descobrir mais sobre si do que as pessoas permitiram a ela imaginar, e sobre como enfrentar o mundo com um novo olhar. Eles crescem, se afastam, e nem por isso o sentimento entre eles diminui. Mesmo distantes, são bem mais próximos do que imaginam.

Vergonha foi um livro que me tirou da zona de conforto, mexeu com minhas melhores e piores emoções e, com certeza, foi uma das melhores leituras de 2020. Recomendo a obra a todos os amantes de boas histórias, pois, ainda que a capa não seja condizente em nada com a história, Brittainy consegui entregar em Vergonha uma história para todos os gostos, tocante e imprevisível

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