Review | Uzumaki, de Junji Ito

Review | Uzumaki, de Junji Ito

Em uma pequena cidade costeira do Japão, tudo parecia normal até que alguns de seus habitantes passam por momentos assombrosos que se colidem e eclodem em uma obsessiva espiral de terror.

Como todos os fãs de Naruto conhecem, espiral em japonês, é Uzumaki, título deste mangá, uma dos mais assustadores ambientações já desenvolvidas em quadrinhos. Anteriormente, em 2006, a Conrad publicava em três edições, Uzumaki (Cicatriz, Farol Negro e Caos), que ganhou recentemente, uma edição em volume único, pela Devir, pelo selo Tsuru.

Seu autor, Junji Ito, é o mangaká do terror, do macabro e do bizarro. E como tal traz em Uzumaki além de tudo isso, numa incrível sensibilidade artística e crítica, um microcosmo intrincado, que abusa da metáfora do conflito e do pânico contida nas aparentes inofensivas espirais ao mesmo tempo que dialoga com problemas de nossa realidade.
Uzumaki é, não apenas o grande trabalho de Junji Ito, mas um dos melhores do gênero que já foi concebido.

Uzumaki nos leva a Kurouzu, um lugar calmo e tranquilo a meio caminho das montanhas e do mar, onde residem a protagonista, Kirie Goshima e sua família. Kurouzu é uma cidade cinzenta, até entediante, onde nada de anormal acontece. O cotidiano está entre um enclave rural, com o artesanato bem recorrente e o impulso da modernidade e urbanização que, às vezes, novas gerações exigem. No entanto, essa atmosfera monótona é quebrada quando um a um seus habitantes começam a ficar obcecado com a forma espiral, começando uma série de eventos inexplicáveis e sobrenaturais que, gradualmente, vão mergulhar Kurouzu em um mundo de pesadelo. Não iremos passar mais detalhes sobre a narrativa para o desfrute de uma viagem à loucura e à degradação que Ito nos apresenta com sua arte e sua capacidade de articular a história.

Tudo está relacionado às espirais e o autor e Ito Ele tem capacidade suficiente para que o trabalho tenha o mesmo efeito que os dos personagens: ele nos aterroriza e nos angustia, ao mesmo tempo em que nos atrai cada vez mais até nos amarrarmos às suas páginas. A história, na verdade, também está estruturado de tal uma espiral, começando com histórias de aparência normal, que falam de obsessão e loucura para rastejar lentamente, desconcertar e pertubarnos tão assustador. E não apenas assustado com o que nós próprios, mas pela suspensão da descrença que gera no leitor, como é apanhado na espiral interminável de Uzumaki é capaz de perder qualquer senso crítico e abraçar a loucura que assola Kurouzu e seus pobres habitantes. Desta forma, Ito nos torna espectadores em um personagem, que começa confuso e incrédulo com a obsessão dos personagens espirais para, passo a passo, vai sofrer a mesma transformação que estes e que no final se rende à realidade de força superior à “Não podemos fazer nada”.

Que o mérito que possui Junji Ito em criar obras de um gênero tão complicado como é o terror é incontestável. Assustar e gerar sensações de medo e angústia em leitores é complicado. Imagina de um assunto que surpreenda, mesmo no leitor mais aficionado, acostumado com sustos, Ito consegue plasmar o espectador, que propõe uma viagem ao delírio e à loucura que sofrerá e gozará em partes iguais. As obras de Ito trazem o arquétipo lovecraftiano, o medo do desconhecido, que se mistura de forma brilhante com o folclore japonês, apresentando uma história inicialmente branda na aparência,que vai se degenerando, culminando numa distorção absoluta que aterroriza a psique humano. E aqui encontramos o seu melhor.

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