Review| Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara.

Review| Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara.

 

Uma capa simples, pouco chamativa,  de um cara exprimindo dor em seu semblante. Sendo sincera, se passasse em uma livraria, acho que não escolheria esse livro. Costumamos dizer que não julgamos um livro pela capa, mas às vezes julgamos sim.  Esse foi o tapa na cara que eu levei. E agora vejo que essa capa tem tudo a ver com seu conteúdo.Li através de uma indicação. E fiquei abismada com o peso desse livro. Não apenas por seu tamanho e as suas quase 800 páginas. Mas também pela magnitude e a enxurrada de sentimentos que ele provoca. E não, não foi uma leitura fácil.

Em “Uma vida pequena”, da autora Hanya Yanagihara, e lançado pela Ed. record, temos quatro amigos tentando a vida em Nova Iorque: JB um  pintor, Malcom um arquiteto, Willen um aspirante a ator e Jude, um advogado. Eles formam aquele quarteto de amigos que todo mundo gostaria de ter. São muito presentes e leais na vida uns dos outros e estaõ sempre juntos não importam as circunstâncias.  E é justamente essa linda amizade que será o alicerce desse livro… e de Jude.

Ali todo mundo se conhece profundamente, quem são, de onde vieram, o que querem ser. Trocam anseios,confidências, segredos profundos, verdades secretas que só pessoas muito amigas compartilham. Menos Jude St. Francis, o rapaz de olhos tristes, que de vez em quando tem episódios de dor ,é um tanto introspectivo e jamais fala de si mesmo. Os amigos sabem pouco ou melhor, quase nada sobre ele, que tem um passado sombrio, doloroso, que ele guarda à sete chaves dentro do seu próprio ser. Um passado cruel que ele deseja esquecer. Que aliás, ele só contou para seu médico, Andy, que também terá sua importância nessa história e também é alguém próximo e a quem jude confia sua intimidade e precisa contar a verdade porque Andy é quem sempre cuida dele quando ele faz coisas terríveis a si mesmo tentando se “limpar” e esquecer de acontecimentos anteriores de sua infância,adolescência e juventude.

Os amigos desconfiam do que pode ter havido com ele. Todos tem sua suposição. Mas o fato é que Jude sofreu muito quando era criança. Orfão, vivendo sozinho, de ambiente em ambiente, encontrou várias pessoas em seu caminho que o submeteram à diversos abusos: físicos, morais, psicológicos. Sempre sendo humilhado, destratado, ferido. Acostumou-se a pedir desculpas por coisas que nunca foi culpa dele.  E tem uma visão muito deturpada de si mesmo. Como se não fosse merecedor de nada de bom que a vida ou as pessoas boas que ele encontrou venha a lhe oferecer.

Depois de tudo o que ele passou ele recorre à práticas terríveis e nada convencionais  para tentar diminuir toda essa dor e se sentir alguém digno, decente (o que na cabeça dele ele não é). E acaba  desenvolvendo uma válvula de escape que deixa abismado e chocado tanto alguns personagens mais próximos à ele, quanto nós, leitores, que estamos lendo impotentes como se também estivéssemos assistindo às coisas terríveis pelas quais ele mesmo se submete.

Apesar de todo esse sofrimento, Jude felizmente terá uma rede de apoio. Harold, seu antigo professor e Julia, que o amam como se fossem seus pais, e os amigos os quais já mencionei. Pessoas que o farão se sentir amado, acolhido, embora em sua mente ele sinta que não é merecedor de nada disso, e que recuse toda a ajuda que lhe é ofertada. Se esquivando de receber inclusive apoio psicológico que ele tanto precisava. O que acaba afetando seus relacionamentos com as pessoas. Afinal, como ajudamos alguém que não aceita ser ajudado? Como podemos permanecer ao lado de alguém que se degrada? Apesar de ficarmos revoltados com o fato dele recusar ajuda e se auto degradar tanto, quando vamos revisitando seu passado com ele  vamos entendendo (apesar de não concordar) as suas decisões.

Adorei Willen, Andy e Harold em especial. Quem dera todos na vida tivessem amigos assim. Esse livro mexeu demais comigo. Cheguei a ter um pesadelo com pessoas mutiladas, me emocionei em diversas partes. Confesso que não tirei grandes lições de vida dele. Mas em contrapartida ele te provoca, te deixa incapaz de parar de ler. Desperta repulsa, tensão, revolta. Ao mesmo tempo traz empatia, admiração pelo sentido da verdadeira amizade e o que ela significa. Foram quase 800 páginas que passaram voando. É um livro que você fecha e te deixa pensando em tudo que leu, nos personagens que conheceu, nos sentimentos embora diversos e tão contrastantes que te trouxe. Não sei se é uma leitura que indico, eu mesma li por minha conta e risco, já sabia do cofre de gatilhos que esse livro guardava, mesmo assim quis conhecer essa história, que também devo dizer, muito bem escrita. De alguma forma, me marcou como leitura. Ficará entre os melhores e mais conflitantes que eu já li. Aqui a briga  entre os sentidos foi gigante: cérebro, estômago e coração tentando decidir quem processa tudo que leu primeiro.
É inacreditável como tudo de ruim possa acontecer à só um personagem

Nunca mais vou ouvir a música “Hey Jude” dos beatles sem me lembrar do personagem central desse livro. Dá vontade de abraçar.

” Hey Jude, don´t make it bad. Take a sad song and make it better.
Remember to let her into your heart. Then you can start to make it better”

Então é isso!

Se quiserem conhecer o Jude já destranque sua mente e abra seu coração. Se prepare emocionalmente. Se tiver em um momento sensível da sua vida por favor não leia.
Caso esteja bem, vá fundo e faça essa imersão.

Gatilhos: auto mutilação, luto, depressão, distúrbio alimentar, abuso e exploração infantil, pedofilia, prostituição, violência doméstica, drogas entre outros.

Classificação: Maiores de 18.

Sobre a autora:

Hanya Yanagihara é uma jornalista e escritora  americana. Seu romance mais notável é justamente A little Life, “Uma vida pequena’.

 

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