Review | Tudo Aquilo Que Nos Separa, de Rosie Walsh

Existem livros que nos transportam. Nos transportam para mundos novos. Novas realidades, coisas que não conhecemos.

Existem livros que nos “retornam”. Nos retornam àquelas lembranças que tentamos deixar esquecidas em algum canto da nossa memória. Aquelas que gostaríamos que pudessem ser apagadas como no filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem lembranças. São livros que nos tragam para suas histórias, que nos consomem, nos absorvem, pois os personagens são tão bem descritos , tão próximos, que conseguimos sentir todas as suas dores.

Tudo Aquilo Que Nos Separa, de Rosie Walsh me trouxe exatamente esta sensação. Lançado pela Editora Record, foi um dos livros mais comentados no ultimo semestre de 2018.

Todo ano Sarah passa suas férias na Inglaterra. Um dia, está caminhando quando encontra um homem conversando com um carneiro na estrada. Seu nome é Eddie. Eles começam a conversar, e vão para um bar, onde conversam por 12 horas seguidas até irem para a casa dele, onde passam sete dias juntos. Para ambos, os melhores sete dias de suas vidas. Ele tem uma viagem marcada, mas combinam se encontrar na volta. Trocam telefone, e-mail, Facebook e parece que será uma linda história de amor.

Mas…Ele não liga.

E ele não atende as ligações de Sarah, nem responde seus posts no Facebook, nem mensagens no celular, nem recados no Messenger.

Será que foi tudo imaginação da cabeça dela? Seria ele simplesmente mais um homem só a procura de diversão? Os momentos foram bons e reais demais. Ela já tem quase 40 anos, e perceberia isso. Ou não? Será ela uma narradora confiável?

Aquelas lembranças acabam se tornando uma obsessão para Sarah. De repente ela só pensa e fala sobre isso. Ela passa a stalkear as mídias sociais do rapaz e vive mandando mensagens e esperando respostas que nunca chegam. No começo, ela se preocupa, pois aparentemente Eddie desapareceu das mídias sociais, mas com o tempo ela percebe que em muitos momentos ele está on line, mas não lhe responde mesmo assim. O velho e terrível sinalzinho azul duplo do whatsapp.

Por sorte, você foi poupado das infâmias de caçar alguém on-line, porque não tinha isso na sua época. – comentei. – Mas não é uma experiência muito boa. A gente nunca consegue o que quer. A gente nunca consegue ter o controle da situação.

Esta obsessão levou muitas pessoas a não curtirem este livro, pois achavam que Sarah não tinha amor próprio e devia deixar para lá e seguir em frente. Não se conformam com tanta insistência.
Mas se você já viveu aquela paixão com borboletas no estômago e teve um amor que soube que era mesmo real, vai entender o que Sarah está sentindo. Para mim, ali não havia exagero. Só havia certezas. E foi fácil sentir as dores de Sarah.

– Não acho que o amor deva ser uma explosão. Não acho que deva ser dramático, cheio de sofreguidão, nem nada dessas bobagens que dizem os compositores e escritores. Mas acho que, quando a gente sabe, a gente sabe. E eu sabia, e desisti sem brigar de verdade, e nunca vou me perdoar por isso.

Neste ponto, o livro que parecia um romance, se transforma em um suspense. E a autora é muito hábil em conduzir os leitores. O que aconteceu com Eddie? Precisamos saber.

O livro é contado em diversos tempos.

Existem cartas sendo escritas. Não sabemos quem escreve, nem para quem, e nem quando elas estão sendo escritas. Temos Sarah no presente tentando entender o que aconteceu, junto com seus amigos, que não sabem se lhe apoiam ou se lhe sacodem para ela voltar a realidade. Temos Sarah no passado, descrevendo como foram aqueles sete dias. Temos Sarah escrevendo mensagens para o Eddie, e contando o seu passado e os seus segredos.

E segredos podem sufocar.  Segredos não podem ser esquecidos. Segredos podem separar as pessoas.

Até a metade do livro a autora vai nos guiando por um caminho que me fez acreditar que já tinha entendido o que acontecera, mas de repente a autora me deu uma rasteira e me mostrou que a vida pode pregar peças muito piores do que imaginamos.

E como dói quando percebemos tudo aquilo que os separa.

Este livro me fez refletir sobre muitas coisas. É interessante ver a estória de um casal maduro. É bom perceber que mesmo depois de muito tempo, a vida ainda pode nos surpreender. O que acontece aqui tem o frescor de um amor adolescente, mas as pessoas ali não são folhas em branco. Elas trazem cargas do passado, e isso não pode simplesmente ser deixado de lado. Ou pode, se sua felicidade depender disso?

O livro tem romance, suspense e discute assuntos muito importantes, como família, memórias, amizade, devoção, respeito, maternidade, redenção e principalmente perdão.

Perdoar aos outros e a você mesmo

No terço final do livro ainda temos mais um reviravolta que deixa o leitor sem folego. É meio brega, mas já estamos tão envolvidos com aqueles personagens que confesso que foi difícil não pular paginas para saber o que ia acontecer.

Deem uma chance a este livro.

Talvez mulheres que levantam a bandeira do feminismo fiquem ofendidas com a aparente submissão de Sarah. Eu já prefiro acreditar que certos amores são de uma vida e não possuem explicação. Azar de quem prefere levantar bandeira ao invés de viver na totalidade aquilo que a vida lhe oferece.

Quando você sabe o que viveu, acreditar não é obsessão nem submissão. Esquecer pode ser algo difícil de se alcançar, e as vezes é mesmo melhor que nem seja alcançado, pois aquilo que lhe fez bem não deve ser enterrado.

Como faço para matar esse amor? Mesmo se eu deixasse o tempo ir desgastando isso aos poucos, ainda haveria pedaços espalhados dentro de mim. A naturalidade do riso dela, seu cabelo esparramado no travesseiro. O balido de um carneiro, a lembrança da Ratinha entre seus dedos.

No começo, com a narrativa meio lenta, achei que seria mais um livro hypado sem motivos, mas me enganei profundamente.

Merece todos os aplausos que vem recebendo.

A vida pode ser complexa, mas ainda é bom acreditar que algo de bom está reservado para nós.

E você, já leu este livro? Qual sua opinião sobre ele? Ficou interessado? Deixe seus comentários abaixo, pois é sempre bom conhecer outras opiniões.

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