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Review | Torto Arado de Itamar Vieira Junior

O que torna um livro um verdadeiro clássico ou Best Seller? Quando se refere ao livro Torto Arado eu acredito que a pergunta certa é simplesmente, ”O que faz de um livro algo inesquecível?”.

Eu sempre digo que um bom livro para mim como leitor tem que me desestruturar, tem que abalar alguns alicerces, causar questionamentos e tirar da zona de conforto. A questão de ler só por ler não me vale, a questão de encontrar respostas muito menos.

O que me é fundamental em uma leitura é simplesmente a dúvida, as dores e se me trouxer sensações de indignação me vale mais ainda.

A capa de seu livro e ao lado o autor Itamar.
A capa de seu livro e ao lado o autor Itamar.

Nascido na Bahia o escritor Itamar Vieira Junior nos presenteia com a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, marcadas por um acidente de infância, e que vivem em condições de trabalho escravo contemporâneo em uma fazenda no sertão da Chapada Diamantina.

Arrisco dizer que essa é daquelas histórias que quanto menos se saber melhor, o livro segue sendo um fenômeno em vendas e em críticas. Tendo ganhado já diversos prêmios, entre eles o Leya, Jabuti e Oceano.

O livro lançado pela editora Todavia em 2019 segue sendo citado com fervor ainda em 2021. Alguns já arriscaram a classificar o escritor como o novo Graciliano Ramos, talvez a única semelhança de Torto Arado com a obra principal de Graciliano (Vidas Secas) seja somente no mostrar o Brasil sequelado por suas injustiças sociais e demandas.

A escrita de Graciliano é em sujeito verbo predicado, linguagem praticamente jornalistica. Quase sem adjetivação, linguagem crua e seca e assim fazendo a fusão da geografia e do texto. Quanto ao texto do Itamar tudo se dá ao oposto, Vidas Secas é um monumento da literatura mundial, quanto ao papel de Torto Arado na história da literatura ainda é cedo para dizer.

No entanto, Torto Arado tem uma força tão grande que acredito sim que daqui a 50 anos esse livro se revelara ainda atual. Isso acredito eu que se deve ao fato do livro falar sobre um Brasil do passado e de um Brasil que enquanto não resolver suas questões mal resolvidas e apresentar a verdadeira abolição da escravatura nada vai se fazer de novo sobre o sol.

As referências para criação do livro do Itamar como ele afirma são os escritores regionalistas da grande Geração de 30 do Modernismo no Brasil. Autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Além de citar autores como Clarice Lispector, Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus e o Raduan Nassar. 

Raduan inclusive aparece em epígrafe na obra do autor Itamar. Torto Arado tem suas belas inspirações mas o que torna o trabalho mais louvável ao meu ver é a forma de como o autor consegue descrever com tamanha sensibilidade e coragem o drama de uma história que ao ler a sinopse nos parece simples e banal.

Ao ler tanta cultura, tanta tradição lembrei de minha infância, lembrei de meus avôs, lembrei até mesmo com uma certa tristeza de um tempo onde existia tradições. Eu me vi naquelas rodas de danças, eu vi meu avô lutando a cada sol e em humildade e olhar dolorido transferindo a mim conhecimento e fé.

O lugar de Torto Arado é na história, o lugar dessa obra deve ser dentro das faculdades em mesas de debate. O lugar desse livro é nas mãos de cada brasileiro que insiste em desconhecer sua própria história, que insiste em alegar que não existe dividas históricas.

Em dias tão cruéis e doloridos onde o nosso país segue rachado esse livro nos chega como uma grande iluminação. Torto Arado não propõe nenhuma resposta concreta sobre como resolver problemas sociais, culturais, de escravidão e de um povo que tem como direito viver com dignidade e ter um pedaço de terra para chamar de seu.

Não cabe o papel de respostas a esse livro, o papel do autor ao escrever esse livro é unicamente e exclusivamente de nos mostrar onde estamos insistindo em errar. E em um país como o nosso que segue a risca a letra da canção: ”O Brasil, não conhece o Brasil” ter esse livro como o mais vendido, ter esse livro reconhecido como realmente merece me causa enorme alegria.

Como me foi gostoso ver o Brasil pelos olhos de Itamar, eu seguirei atento a tudo que o autor se propor a fazer. Seguirei crendo que ele sempre vai se propor a escrever o Brasil com a alma, mantenham-se todos atentos a Itamar Vieira Junior afinal amanhã ele pode se firmar não só como o maior escritor brasileiro, ele tem uma estrada enorme de oportunidade para mostrar que o mundo é seu.

E você, já leu este livro?  Qual a sua opinião?

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