Review | Shanghai, de Riichi Yokomitsu

Review | Shanghai, de Riichi Yokomitsu

Xangai é atualmente uma cidade de bilionários, mesmo enfrentando os reveses do confinamento da pandemia de Covid, a antiga vila de pescadores, localizada na Grande Baía chinesa, se tornou uma das capitais mundiais do luxo. Uma metrópole do século 21 que teve um outro período importante como palco global. No caso, o momento entre as guerras mundiais (1920-1930); onde a cidade era um fascínio dos ocidentais, dos próprios chineses, mas também dos japoneses.

O zeitgeist da Xangai dos anos 1920 é refletido na apropriadamente obra Shangai de Riichi Yokomitsu (1898-1947), publicado pela editora Aetia. Serializado entre 1928 e 1931, o romance se passa em 1925, seguindo a vida de expatriados japoneses que vivem no importante porto comercial. Uma cidade de concessão internacional, onde empresários europeus e americanos comandavam o comércio e o fluxo de capitais, além de japoneses. Na noite, eles frequentavam os cafés, as festas, os banhos, entre artistas, mendigos e prostitutas. Nesse ambiente, frente a interesses comerciais e sexuais, o nacionalismo e o comunismo estimulavam a população para uma incidentes que perderiam o controle.

Um desses, foi a sublevação operária de 30 de maio de 1925, contra as condições de trabalho nas fábricas japonesas. Evento que é o pano de fundo do livro em questão, que apresenta um grupo de expatriados japoneses em Xangai: um bancário de colarinho branco, dois irmãos, empresários industriais e um arquiteto de mentalidade política.

Os personagens

Seus personagens expressam crenças diferentes, mas vinculados a sua nacionalidade japonesa. O bancário, Sanki, sofria de angústia existencial, nostálgico, procurando significado no isolamento urbano de Xangai. Uma analogia adequada para a burguesia japonesa da década de 1920, obcecada pela modernidade e cultura ocidentais, mas sem um propósito na vida.

Koya e Takashige representam a visão do imperialismo japonês, ou seja, quanto mais influência os negócios japoneses têm na China, mais beneficiam a nação. Como tal, Koya planeja colocar um concorrente britânico de madeira fora do negócio; e Takashige vê seus trabalhadores chineses como uma mera forma para aumentar o prestígio do Japão.

Yamaguchi é o mais complexo dos personagens, representando a visão pan-asiática que começava a se firmar em muitos intelectuais japoneses e até mesmo entre oficiais militares. Essa visão sustentava que apenas o exército e a marinha japoneses eram poderosos o suficiente para libertar a Ásia do jugo do colonialismo ocidental e conduzi-la a uma nova era de ouro – sob a tutela do Japão, é claro. Entretanto, o personagem representa o estágio final de um requinte que esconde a mais tétrica barbárie.

O próprio Yokomitsu era um pan-asiático; mas a cidade, narrada aqui, é um lugar de solidão melancólica. Com os expatriados em busca de um significado indescritível para suas vidas monótonas. As visões, sons e cheiros estão entrelaçados ao longo de cada parágrafo, o que não surpreende, já que Yokomitsu fazia parte da Shinkankakuha, ou a New Sensation School. Um movimento literário japonês nas décadas de 1920 e 1930, introduzia o modernismo literário no país, trazendo textos ligados no realismo e na objetividade.

Uma característica desse movimento é que nunca nos sentimos realmente conectados ou “no lugar” de qualquer um dos personagens. Estamos apenas observando o que acontece com eles.

As personagens femininas são ainda mais tristes do que suas contrapartes masculinas, um degrau acima das prostitutas. Há a estúpida Osugi e a intrigante Oryu, duas mulheres que trabalham em uma casa de banho japonesa, frequentada por Sanki e os outros. Miyako tem um papel melhor, sendo dançarina nas famosas boates.

um dos mais intrigante é Fang Qui-lan, um comunista chinês sedutor, que representa o crescente ressentimento da China em relação ao colonialismo.

A contradição dos expatriados japoneses serem asiáticos, mas também colonialistas; é evidente para os personagens. O fato do romance ter sido escrito a partir de uma perspectiva japonesa aumenta seu valor como cápsula do tempo, já que a maior parte da literatura não chinesa sobre a Xangai entre guerras é vista pelos olhos ocidentais. O controle internacional de britânicos, americanos, italianos e japoneses, que levou ao ambiente que gerou um levante anti-imperialista, mais tarde plataforma para duas guerras destrutivas (1932 e 1937) e os personagens de Riichi Yokomitsu são apanhados nesse redemoinho.

Conclusão

Shanghai possui uma narrativa de ritmo ágil, que por sua influência modernista se coloca entre uma sátira e um drama, abordando temas como a perda da inocência, os conflitos étnco ou o desespero frente a fome, com uma comicidade macabra, causado pela toxicidade da própria cidade. A imagem perturbadora de uma cidade em crise. Vale a leitura.

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