Review | Seres Mágicos e Histórias Sombrias, de Neil Gaiman e Al Sarrantonio

Seres Mágicos & Historias Sombrias chegou ao mercado no fim de 2019 causando um rebuliço entre os fãs de literatura fantástica e livros com capas bonitas. 

Rebuliço esse que formou até um grupo de leitura coletiva do qual participei junto com o blog Coisas de Mineira e fez o nosso colaborador Helder Gatti também lê-lo agora neste começo de ano.

Sendo assim, dessa vez o Mundo Hype traz para vocês uma resenha feita a quatro mãos.

Lançado pela Darkside Books, numa edição caprichada, com uma capa muito colorida, e muito misteriosa, já que não tem título nem na capa, nem na lombada, o livro é uma coletânea  de contos de 440 páginas organizada por ninguém menos que Neil Gaiman, autor de Deuses Americanos e Belas Maldições, que contou com a ajuda de um escritor de contos de terror chamado Al Sarrantonio, até então desconhecido por aqui.

Imagem por Helder Gatti

Mas se só isso já não fosse um curriculum capaz de aguçar a cobiça do público leitor, ainda temos grandes nomes tendo seus contos incluídos na  coletânea, como Chuck Palahniuk (autor de Clube da Luta) , Richard Adams (Autor de Em Busca de Watership Down) , Jeffery Deaver (O Colecionador de Ossos) , Peter Straub  (Parceiro de Stephen King em O Talismã), Joe Hill (Autor de Nosferatu e filho de Stephen King), Diana Wynne Jones (Autora de O Castelo Animado e O Vitral Encantado)  e até Jodi Picoult (Autora de A Guardiã de Minha Irmã), e que aqui parece um pássaro completamente fora do ninho, mas que traz um dos melhores contos da coletânea.

Mas assim como aconteceu com a coletânea Mundos Apocalípticos lançada pela Editora Planeta em 2019, acreditamos que o ponto mais importante de Seres Mágicos & Historias Sombrias é permitir ao público deste gênero de fantasia e histórias de suspense, conhecer novos autores que nunca foram publicados no Brasil.

Na opinião de Helder Gatti, em muitos casos os melhores contos do livro acabaram sendo os de autores desconhecidos. 

Já no meu caso, o melhor conto do livro foi de uma autora que já foi publicada no Brasil, mas poucos falam sobre ela, Diana Wynne Jones.

A intenção de Gaiman e Sarrantonio ao criar esta coletânea foi reunir contos de autores atuais que flertam com o gênero fantasia e / ou suspense. E, além disso, despertar a curiosidade do leitor para algo mais, tema que Gaiman abre o livro em ‘Só quatro palavras.’

Foto por Helder Gatti

Em grande parte dos contos, nada é aquilo que parece. Normalmente a estória começa de um jeito e acaba te levando para um caminho totalmente imprevisível. O fantástico pode ser algo simples como escrever um livro e acabar se tornando parte dele, ou sombrio como a natureza humana é capaz de ser muito pior do que estamos acostumados. 

Infelizmente, como em todas as coletâneas que temos lido, em Seres Mágicos & Histórias Sombrias nem todos os contos satisfazem o leitor, pois muitos criam um cenário extremamente curioso e instigante, criando diversas perguntas e fazendo o leitor formular diversas teorias, mas infelizmente terminam de forma abrupta deixando o leitor sem resposta.

Mas nos casos em que os textos criam as perguntas e trazem as respostas, o nível do livro sobe às alturas, pois normalmente as respostas são completamente diferente das teorias que tínhamos formulado. 

Nesses contos, assim que terminamos, temos o gostinho do O que aconteceu depois?

Como já informado no inicio do texto, desta vez, este livro foi lido simultaneamente por dois colaboradores do site, Daisy Oliveira  e Helder Gatti.

Como vivemos em uma democracia, cada um teve seus contos preferidos dentre os 27 contos do livro. Segue abaixo os contos preferidos de cada um com um breve comentário.

Foto por Helder Gatti

TOP 10 – Daisy Oliveira

 

Sangue de Roddy Doyle – Depois de uma bela introdução de Seres Mágicos, o primeiro conto já nos gratifica com uma boa história com um final que nos coloca para imaginar. Um homem começa a ter vontade de ingerir sangue, e, a cada página, sua vontade vai ficando maior e ele passa a ter dificuldade de esconder da própria família. Ao discutir sobre o conto em um grupo de leitura coletiva, as reações ao final do conto foram das mais diversas: alguns acharam absurdas, outras nojentas. Já eu tentei imaginar como ele seguiria a vida a partir disso. Nota 8.

 A verdade é uma caverna nas montanhas negras de Neil Gaiman – Esse conto já foi publicado em um livro único pela Editora Intrínseca. Esse conto é cheio de reviralvoltas dentro da própria história. Começamos com um homem pequeno cheio de segredos que decide contratar um mercenário para guiá-lo até as montanhas negras, onde os homens que se arriscam a entrar saem de lá cobertos de ouro. Mas, como já imaginamos, a história não é tão simples assim. Tanto o homem pequeno quanto o próprio mercenário têm muitos segredos guardados, que podem mudar todo o rumo da história. Conto excelente de Neil Gaiman que não ficaria de fora do meu Top 10. Nota 8.

Juvenal Nyx de Walter Mosley – Foi um dos contos que mais gostei. Por ser um conto, não imaginava que o mesmo traria a riqueza de detalhes que li nessa história. Desde o significado de Juvenal Nyx até até uma alergia à lua cheia (já que nosso protagonista é um tipo de vampiro), o autor foi cuidadoso com cada detalhe. O conto deixou várias teorias em aberto na minha mente, e, se fosse um livro, eu seria a primeira a compra-lo. Nota 10.

Pesos e Medidas, de Jodi Picoult- Um conto excelente que rendeu diversas interpretações no grupo em que estava. Na minha visão, é a história de como um casal enfrenta o luto. Enquanto a mulher cresce e se fortalece para superar a perda, o marido acaba se deixando levar pelo sentimento de luto e vai definhando, perdendo peso e medida de maneira literal, pois é assim que se sente com a perda da filha. Nota 10.

Lago Goblin de Michael Swanwick – O que aconteceria se um personagem de um livro tomasse consciência de que é apenas um personagem? Essa é uma das premissas da história, onde Jack acaba caindo em um lago mágico e toma consciência de quem ele é em uma história e de como isso o afeta. Além disso, esse conto nos deixa uma grande questão: será que a vida na ficção é sempre melhor do que a vida real? Nota 10.

O diário de Samantha de Diana Wynne Jones – Uma das minhas autoras favoritas, diga-se de passagem, contribuiu com o livro com um dos melhores contos da coletânea. Imagina que uma pessoa que controla toda a tecnologia que te rodeia decidisse te cortejar, mas usando um poema natalino? No primeiro dia ele manda uma pereira e aves exóticas, e, com o tempo, até vacas leiteiras estarão invadindo a sua casa. Assustador, não é? A premissa do conto é exatamente isso, e faz com que eu pensasse sobre estarmos sempre conectados e quão ruim isso poderia ser para nós. Nota 10.

Leif no vento de Gene Wolf – Esse conto me surpreendeu de diversas maneiras que nem sei explicar. O conto começa com um astronauta praticamente delirando durante uma missão, o que evolui para invasão alienígena muito mais sutil que o Alien, porém, que pode ser perigosa no mesmo tanto. O final me deixou boquiaberta. Nota 9.

Indisposta de Carolyn Parkhurst – Não conhecia nenhuma obra dessa autora, e fui surpreendida positivamente com esse conto. É doentia a relação entre essas irmãs que são as protagonistas do conto, e ficamos assustados com quão cruel é a narradora por inveja de sua irmã mais nova, ao ponto de seduzir o namorado da outra para que a irmã fique sempre ‘abaixo’ dela. Nota 8

O culto do nariz de Al Sarrantonio – Outro conto excelente. Começamos com o nosso narrador ficando obcecado com o que ele chama de culto ao nariz, e passa a enxergar pessoas com narizes falsos em todos os lugares. Ele decide seguir em busca desse grupo secreto, mas isso acaba trazendo consequências desastrosas para a sua vida. Ao final, ficamos na dúvida se o narrador é mesmo uma figura confiável ou se é apenas uma paranoia do mesmo. Nota 7.

O diabo na escada de Joe Hill – Esse é o último conto e o que acaba fechando bem o livro (os dois contos anteriores foram terrivelmente chatos). Joe brinca com a disposição das palavras ao longo da história, dando a ideia de movimento e estática quando necessárias. Além disso, a mitologia com as escadas foi muito interessante, e me deixou bem curiosa para saber o que teria acontecido se o protagonista tivesse ficado um pouco mais de tempo parado ao invés de sair dali com seu pássaro que canta ao ouvir uma mentira. Nota 7.

 

TOP 10 – Helder Gatti

 

Tentei fazer um top 10, mas apareceu mais um. Então tratarei o conto de Jodi Picoult com uma menção honrosa, pois foi o conto que mais mexeu comigo. Seguem os contos abaixo em ordem de leitura.

Foto por Helder Gatti

Sangue de Toddy Doyle. Começo sensacional pra um livro de contos. Já começa te dando uma porrada. O cara simplesmente passar a ter vontade de beber sangue. E de repente fica nojento pra caramba, mas não deixa de ser doido. Além de um texto mega cínico. Pura diversão. Nota: 9

A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras de Neil Gaiman. Muito bom. Gaiman sabe criar personagens, ambiente e um clima soturno que vai levando a narrativa pra frente e faz a gente ficar tenso. Não imaginava o objetivo do pequeno homem e nem sei o que ele é, mas achei sensacional a promessa feita: eu volto, mas ano que vem! Nota: 10.

As estrelas estão caindo de Joe R. Lansdale. Mais um conto muito bom. Dele sobrevive a 2a guerra e volta pra casa , mas encontra tudo diferente. Gostaria que ele tivesse percebido isso, deixado tudo como estava e começado de novo. Mas o homem não pode ver a beleza que ele a mata. Um final triste. Nota: 9.

Pesos e Medidas de Jodi Picoult. Desde que vi esta autora no índice eu me perguntei: O que Jodi Picoult tem a ver com Neil Gaiman. Ainda acho que nada, mas a presença dela aqui foi sensacional. Você tem filhos? Ela criou a descrição perfeita da dor. ” O som mais alto do mundo é a ausência de uma criança ” . Não há nada mais a dizer. Precisei ir ali abraçar meus filhos. Nota 10.

Lago Goblin de Michael Swanwick. Conto maluco, muitos contos, um dentro de outro. Um homem cai num lago onde encontra um povo que vive ali e ai descobre que ele e tudo ali não são reais, porque vivem em um “outro mundo “. Bem interessante. ” Alguns chamam de Realidade, embora a pertinência desse título seja discutível “. Nota 8 pela ideia viajandona. Combina com o título do livro

Pegar e soltar de Lawrence Block. Um pescador psicopata? Nunca imaginei isso. Mas o autor conseguiu criar o personagem mais asqueroso do livro. Acho que durante a leitura eu quase rezei pra ele ser um “pescador que pesca e solta”. Nota 8. 

Indisposta de Carolyn Parkhurst. Sensacional desde o primeiro parágrafo onde já percebemos a diabólica indisposição de Arlete. Eu leria um calhamaço com estas personagens. A autora pega tão pesado que conseguimos odiar a personagem na primeira página e o ódio só vai aumentando. Nota 10.

Uma vida em ficção de Kat Howard. Primeiro conto publicado pela autora na vida e bem interessante. A mulher existe ou é só um personagem, ou melhor, a junção de todas as mulheres já escritas por ele? Nota 8.

O Terapeuta de Jeffery Deaver. Um texto um pouco pesado que demora a nos deixar entrar na estória, mas no fim é muito bom, pois em 30 páginas o autor consegue criar 3 plot twist, mudando sempre o rumo da estória que já nos parecia certo. Um terapeuta acredita que existem forças malignas chamadas ‘Nemes’ que fazem as pessoas cometerem atos ruins. Realidade ou insanidade? Nota 9.

Inteligência Humana de Kurt Andersen . Um dos melhores contos do livro. Ótima narrativa que começa cheia de suspense e vai se explicando ao pouco e trazendo a gente pra dentro da estória. Que vontade de ser Nancy Zuckerman e conhecer Nicholas Walker. E ainda tem o senso de humor do papai Noel. Nota 10.

O Diabo na Escada de Joe Hill. Diagramação bem legal. Enquanto personagem anda pelas escadas, o texto é escrito desta forma. Quando ele para de subir ou descer, fica reto. E também curti a estória do pássaro metálico que canta lindas canções quando ouve uma mentira. Nota 9.

E você, já leu este livro?

Conta para nós quais foi seu Top 10 e por que.

E você, curte estas coletâneas de contos que vêm sendo lançadas no mercado?

Qual seu livro favorito neste formato e por quê?

Vamos conversar nos comentários.

E não se esqueça que temos muitas outras indicações, clique aqui e conheça um pouco mais.

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