Review | Sem Gentileza de Futhi Ntshingila

Review | Sem Gentileza de Futhi Ntshingila

Sem Gentileza de Futhi Ntshingila foi lançado no Brasil pela Editora Dublinense em 2016, mas parece que só agora ele vem ganhando notoriedade.

Mas antes tarde do que nunca, pois este livro merece ser lido. Sem Gentileza não é para fracos, e exatamente por isso é uma literatura necessária.

Futhi Ntshingila , autora de Sem Gentileza
Futhi Ntshingila , autora de Sem Gentilez

Futhi Ntshingila , autora Sul Africana, traz neste livro a história de algumas mulheres vivendo muitas dificuldades na África do Sul de alguns anos atrás e não poupa o leitor de suas mazelas e desafios.

A vida é dura e está exposta aqui sem gentilezas.

Pobreza, preconceitos, crenças e uma sociedade doente.

A personagem principal é Mvelo, uma menina de 14 anos que se descobre gravida, vivendo em uma favela com sua mãe, Zola, que está morrendo de Aids.

O fundo do poço, certo?

Capa da edição em inglês
Capa da edição em inglês

Mas a vida não foi sempre assim, e a narrativa volta no tempo para contar quem era Zola, uma menina cheia de expectativas e que tinha tudo para ter um futuro perfeito, não fosse os preconceitos arraigados em uma sociedade muito machista.

Além de Zola e Mvelo, temos ainda uma outra personagem muito importante chamada Nonceba, que nos mostra que algumas mulheres conseguem submergir a este mundo tão ruim e ter um lugar de destaque sem submissão nesta sociedade.

Mas isso não é fácil.

Através destas incríveis personagens, em poucas páginas, a autora discute muitos temas extremamente relevantes nos tempos atuais.

Sempre voltando ao passado para contextualizar como aquelas mulheres chegaram àquele  momento.

Pobreza, vida nas favelas, abuso sexual de menores, sexo seguro, masculinidade, feminismo e um tópico muito bonito e que nunca tinha lido em nenhum livro e que acho que posso chamar de Ancestralidade.

Quem realmente somos e quem realmente queremos ser?

Seu objetivo era achar o homem mais negro que pudesse encontrar, que faria com que suas crianças fossem negras, para que não tivessem a crise de identidade que ela teve

Para mim que sou branco, a resposta para esta pergunta pode ser mais simples, pois se tentar retornar as minhas origens, vou conseguindo saber de onde vim,  mas o livro nos mostra que para os negros que foram roubados de seus países de origem e distribuídos pelo mundo como escravos, isso é muito mais difícil, e assim a montagem de uma arvore genealógica familiar torna-se algo essencial para a pessoa se enxergar no mundo atual, e as personagens de Nonceba e sua avó descrevem bem estes sentimentos.

Nonceba e sua avó são negras e batem no peito para falar isso.

Você descende de uma longa linhagem de pessoas orgulhosas, mas, em vez disso, você escolheu seguir o caminho dos sotaques fingidos e de uma existência sem raízes. Você chama as mulheres de vagabunda e acha legal andar por aí com seus amigos chamando os outros de negão . Será que você consegue ao menos entender a dor que está pulsando nessa língua híbrida que você tomou para si, como se fosse sua

Mas durante grande parte da leitura eu me senti como se a autora quisesse que eu me enfiasse num poço escuro e sem esperanças.

Existem certos processos e crenças na Africa do Sul que beiram a idade média, e torna-se difícil ler cenas como as do exame de virgindade feito em praças públicas, mas que não refletem em nenhuma ação efetiva sobre os problemas que encontra.

Mvelo foi às sessões de teste de virgindade com clareza no pensamento. Estava fazendo aquilo principalmente por Zola e, mesmo assim, sentia que era dona de si. E como muitas garotas da sua idade, estava curiosa para ver o que e como era o teste. Descobriu que havia boas testadoras, que estavam preocupadas com o abuso infantil disseminado e que enxergavam os testes como a forma tradicional de resolver o problema. Outras, no entanto, estavam embriagadas com o poder e a atenção que recebiam da mídia. Correspondentes estrangeiros e tarados endinheirados amontoavam-se com câmeras para um circo carnal repleto de garotas imaculadas abrindo as pernas

Porém no fim acho que posso dizer que Futhi Nshingila é uma pessoa otimista, e acredita em redenção, seja através de estudo, esforço pessoal, ou simplesmente destino, através de sorte e compreensão.

Sem Gentileza é um livro que nos traz a realidade de um país que conhecemos muito pouco, e só por isso já vale muito a pena ser lido.

Mas a mensagem final de que sim, a vida pode ser melhor, nos faz acreditar que o mundo ainda tem jeito.

Que Mvelo, a Princesa Sabekile e as próximas gerações possam ser feliz.

E você, já leu este livro?  Qual a sua opinião?

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