Review | Providence Vol. 1, de Alan Moore e Jacen Burrows

Review | Providence Vol. 1, de Alan Moore e Jacen Burrows

SINOPSE: Nova York, 1919. Robert Black é um repórter que há pouco tempo encontrou seu próprio lugar no mundo. O súbito suicídio de uma pessoa querida o conduz por uma estrada misteriosa, na descoberta do lado sombrio dos Estados Unidos. É uma estrada sinuosa, labiríntica. É a estrada para Providence.

Alan Moore, O Bruxo de Northampton, entre seus vários trabalhos, como Watchmen e V for Vendetta, também trabalhou para outras editoras fora do eixo mainstream Marvel/DC, como no caso da Avatar Press. The Courtyard (2003), Neonomicon (2010) e este Providence, são exemplos de obras que o roteirista trouxe a tona pela editora independente, onde abusa do o jogo metatextual e literário marcante de sua bibliografia. Providence foi lançado pela Panini, em 2017, em um volume que compila as edições Providence 1 a 4.

Uma mistura explosiva

Providence é uma reinterpretação dos textos de HP. Lovecraft por ninguém menos que o célebre roteirista. Esta mistura apresenta uma história em várias camadas, com uma mistura de formatos narrativos e referências que tornam este trabalho um deleite para os fãs do próprio terror cósmico lovecraftiano.

A narrativa serve como um prequel quanto uma sequência dos quadrinhos já citados, lançados pela Avatar, Neonomicon e The Courtyard. No entanto, neste primeiro volume somos apresentados a um personagem que desde o início nos ambienta na trama, permitindo que os leitores sigam Providence sem ter que ler as outras obras de Moore anteriormente.

Narração e densidade da mão de Moore

Esse primeiro volume reúne os 4 números iniciais da edição norte-americana. A história  apresenta Robert Black, um judeu homossexual nos anos 1920, algo que já vai ao encontro de Lovecraft, que sempre viveu à margem da sociedade. Como jornalista empreende uma viagem pela Nova Inglaterra para obter documentação e inspiração para escrever um romance sobre os segredos dessa marginalidade da sociedade americana. Assim, ao longo deste volume acompanharemos Black em sua pesquisa, cujo foco principal é ” O Livro da Sabedoria das Estrelas “, escrito por Khâlid Ibn Yazîd, um estudioso árabe.

E é aqui que encontramos um exemplo das inúmeras referências que Moore escondeu em  Providence a Lovecraft e sua mitologia. E este livro lembra muito o Necronomicon, escrito por outro árabe: Abdul Alhazred. Ou seja a HQ é uma obra cheia de referências e inspirada na obra de Lovecraft, como veremos cheio de informações extras na história principal e também no apêndice.

Mas vamos deixar de lado a relação narrativa que Moore criou com o universo lovecraftiano, e tratemos de uma das características narrativas de Providence: o jornal como forma de divulgar certas informações ao leitor. Como também, no final de cada capítulo, encontramos várias trechos retirados do diário de Robert Black. Ambos nos ambienta no precedeu no capítulo, e traz mais informações sobre o personagem, ajudando a conhecer Black mais profundamente e conhecer os pensamentos e sentimentos do protagonista sobre os acontecimentos vividos ao longo da história.

Além disso, Black se encarrega de incluir brochuras e desenhos que encontra ao longo de sua pesquisa em seu diário, o que permite ao leitor saber mais sobre o contexto em que Black se move. A mistura dos dois meios (a narrativa gráfica e a jornalística), torna este trabalho um trabalho complexo, mas muito agradável.

O enredo traumático


Robert Black viaja por diferentes partes da Nova Inglaterra para aprender mais sobre o livro antigo; e seguir sua trilha para conseguir ler algumas de suas passagens, que servirá de base para seu futuro romance. Mas por trás desse enredo principal existem vários subenredos, principalmente prestando homenagem e inspirando-se em algumas das histórias de Lovecraft mais conhecidas. Desta forma, Moore consegue apresentar um enredo interessante para qualquer leitor, acompanhado de múltiplas referências e subenredos que irão agradar a todos os leitores do criador de Chtulhu.

Os lápis

Jacen Burrows é o desenhista que acompanha Moore ao longo deste trabalho (como em outros da editora independente), e a verdade é que não podemos pensar em um melhor. O pormenor do desenho, os rostos das personagens, meio humano meio algo indescritível, os lugares … Burrows conseguiu capturar a essência Lovecraftiana em cada painel, e isso diz muito.

Juan Rodriguez, responsável pelas cores, consegue encontrar a combinação certa de tons para cada situação, conseguindo transmitir emoções apenas com a cor.

Considerações Finais

Tal como acontece com o fenômeno dos super-heróis, Moore consegue pegar um tema como o terror, e nos fazer observá-lo num prisma diferente do convencional. Apresenta uma história sem conexão e nos conecta por meio de extras entre os capítulos, assim como fez com Watchmen.

Mais um alerta, Providence é uma obra que não pode ser recomendada a todos. E não digo isso só por causa do anúncio “só para adultos” na capa, mas porque estamos lidando com um trabalho complexo. Complexo e denso. Moore interage com esses dois aspectos, e não é um autor para todos os públicos (muito menos para os recém-chegados ao universo dos quadrinhos ). E Lovecraft é sempre denso. Nenhum desses dois termos deve ser considerado crítico. Mas é um aviso do que se enfrenta ao abrir as páginas deste primerio volume, onde o medo espreita em cada página. Mas se o leitor não se deixa dominar, experimente. Recomendamos e que venha a leitura do segundo volume.

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