Review | Por Onde For o Teu Passo, Que Lá Esteja o Teu Coração, de Pe. Fabio de Melo

Por onde for o teu passo, que lá esteja o teu coração é o mais novo livro do Padre Fabio de Melo lançado pela Editora Planeta.

Um homem está no closet do seu quarto preparando-se para ir a uma importante reunião de negócios. Escolhe uma bela camisa, uma gravata e procura o melhor relógio para a ocasião, entre a sua coleção de relógios.  Mas de repente ele percebe que ali naquele espaço encontra-se uma menina. Ela tem perguntas para lhe fazer, e só lhe pede que espere um pouco para respondê-las. Mas será que o Homem tem tempo para ela dentre todos aqueles relógios?

Este livro foi uma grande surpresa para mim, pois me tirou da minha zona de conforto fazendo-me deixar de lado certos preconceitos.

Ele merece uma linda resenha, mas não consigo escrever palavras tão belas quanto Fabio de Melo nos traz aqui.

Ao iniciar a leitura, eu imaginava que encontraria um livro com textos de autoajuda, pequenos sermões ou contos com algo motivacional, afinal de contas, estava lendo um livro escrito por um padre. Livros com este conteúdo não são meu tipo de leitura, mas resolvi dar uma chance. Leria sem compromisso, um conto a cada manhã, e talvez tirasse algumas lições tipo os antigos powerpoints com mensagens edificantes.

Mas ai veio à surpresa. Fabio de Melo, além de padre, é filosofo e pós graduado em Educação. Comecei a ler com pouco interesse e fui pego pela Menina.

Diferente do que eu pensava este não é um livro de autoajuda e nem de contos. É um romance feito em cima da simplicidade.

A estória passa-se dentro de um closet onde em poucas horas dois personagens dialogam em uma narrativa sem travessões. O Homem e a Menina.

Ela é a consciência do Homem e sabe que naquela noite deve lhe mostrar o que ele vem fazendo errado em sua vida.  E tem que ser agora, antes que a mudança de caminho trilhada pelo Homem seja irreversível.

 Muitos morrem sem que se tornem quem poderiam ser. Sim, a existência humana é um constante processo de “vir-a-ser” mas requer leme para que o processo não seja alterado no caminho. Remar para uma direção contrária pode comprometer radicalmente o destino da semente.

No começo ele não leva aquilo muito a sério, mas aos poucos vai percebendo a verdade que existe nas palavras da Menina.

E junto com o Homem, vamos percebendo que muitas daquelas atitudes encontradas nele, também governam a nossa vida.

O tempo que desperdiçamos com as coisas desnecessárias. Posts em mídias sociais, likes em fotos que não nos dizem nada, trabalhos em horários extras.  Acumulando coisas que não sabemos se teremos tempo de usar. Postando nossas vidas em exibições desnecessárias. E sempre com pressa. Sempre com pressa.

Pois se considerares que tens mais passado do que terás futuro, certamente ficarias mais atento ao que escolhes viver.

É incrível o poder da palavra que Fabio de Melo possui. E não é um sermão de um padre. Aqui o que importa não é a religião, mas sim a espiritualidade, como ele mesmo nos diz. No inicio estranhei a escrita, que me pareceu um pouco rebuscada, mas de repente aquelas frases foram se abrindo para mim de uma forma poética, mas extremamente concisa, que me dava vontade de marcar o livro inteiro para guardar para sempre comigo.

E a Menina nos mostra que nem tudo é culpa do Homem. Ela nos mostra que a modernidade trouxe diversos problemas para o homem atual.  A quantidade de possíveis escolhas é uma delas. Ter possibilidades, algo que deveria ser bom, na verdade tornou-se o grande criador da angustia do homem, que tem sempre o medo de “será que escolhi a melhor opção? E se…?”.

 Sartre compreendeu que a pós-modernidade derramou sobre o ser humano uma infinidade de possibilidades. O mundo alargou-se, abriu portas, ofereceu caminhos. A gênese das angústias está nas possibilidades. Escolher será sempre um processo angustiante. Sem elas não há escolha, não há conflito. O ser humano que antes não tinha muito o que escolher vivia menos conflitado.

A tecnologia trouxe mudanças para a vida social e assim também mudou nossa percepção do tempo.

A percepção do tempo foi drasticamente alterada com a mudança da vida social. Neste mundo de tantas possibilidades, gravitas diariamente num acúmulo de solicitações que mecanicamente atende. E quando percebes o dia já acabou. No outro dia tudo se repete. E assim se passam semanas, meses e dias…O que muda a percepção do tempo é o excesso de atividades.

Hoje temos a impressão que quanto mais coisas conseguirmos fazer, melhor seremos.

Mas melhor em que e para que?

E não bastando fazermos isso conosco, ainda esperamos que nossos filhos também sejam capazes de viver assim, sempre em busca de “Um Melhor” e assim nos esforçamos para dar-lhes tudo aquilo que não pudemos ter, ou que não demos conta de ter.

Mas será que eles querem tudo isso?

Estas são as perguntas feitas pela Menina, e que muitas vezes o Homem não sabe as respostas.

E ai a Menina nos dá mais uma grande lição, sobre aqueles erros que cometemos por amor, como o excesso de zelo e excesso de sonhos que botamos sobre nossos filhos, querendo que eles sejam como nós, ou que não repitam os erros que cometemos ou sendo como os idealizamos.  Esquecendo que eles são indivíduos, com seus próprios desejos, e com seus próprios caminhos a serem trilhados.

Os erros que são cometidos por amor são naturalmente promovidos pela boa intenção. No fundo é uma pretensão. A de que sabes o que é melhor para o outro. Olhas para o que te satisfazes e naturalmente transferes o contexto de tuas satisfações para a criatura amada. E não dás a ela o direito de duvidar de tuas motivações. A senhora boa intenção te protege. E assim não te afliges

Por fim, além de tudo isso, ainda temos uma visão muito interessante sobre Deus, principalmente em um livro escrito por um padre. Deus aqui não é a solução. Ele é um inicio e um fim, mas no meio do caminho, quem governa sua vida é o próprio homem.

Se acreditas em Deus, coloca-o à frente e ao final da vida. Compreende o sopro original como um dom e o final como um acolhimento. Deus no antes e no fim. Mas o que fazes entre um sopro e outro são escolhas que te cabem. 

É um livro para ser lido com uma lapiseira, ou caneta marca texto. Livro para encher de post-its. Livro para nos mostrar que não devemos ser vitimas de nosso tempo.

Eu  estive naquele closet por algumas horas e te convido a adentra-lo também. Terás uma experiência maravilhosa.

Por onde forem nossos passos, que lá esteja também nosso coração.

Belo livro.

E você, já leu algum outro livro do Pe. Fabio de Melo?? Qual seu favorito?

Aqui no site temos uma outra resenha de um livro dele muito especial, lançado com Leandro Karnal (clique aqui para acessar).

Vamos conversar nos comentários.

E não se esqueça que temos muitas outras indicações, clique aqui e conheça um pouco mais.

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7 COMENTÁRIOS

    • Tatiane, curioso seu comentário. No inicio do livro eu demorei a me apegar a estoria, exatamente por este vocabulário, mas depois acho que me acostumei e a estória passou a fluir. Mas concordo, que por ser um cara tão popular, a linguagem fosse ser mais simples.

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