Review – Planetes Parte 4

Review Planetes
Uma
grande pequena conclusão
“É
uma notícia antiga, mas lembro de ter visto na TV a história de duas meninas de
dez anos que deixaram um bilhete dizendo: ‘Não temos um motivo para morrer, mas
também não temos um para viver’, e pularam de um prédio. Nenhuma das duas
sobreviveu. Às vezes penso nisso. Se eu fosse agraciado com a oportunidade de
falar com elas no momento que pulariam, o que eu teria dito ou feito? E seu eu
tivesse mostrado apenas três quadrinhos de uma tirinha e prometido revelar o
quarto quadro apenas se elas decidissem viver para ver? Será que a estratégia
daria certo? Mas teria que ser uma história muito engraçada ou intrigante. Como
seria bom se no último quadro houvesse uma piada daquelas impossíveis de não
rir, que as fizesse mudar de ideia e lhes desse forças para que, no dia
seguinte, pudessem retornar ao dia a dia normalmente. Se eu tivesse a
habilidade de elaborar histórias assim, faria um enorme sucesso. Quem me dera
ter um talento como esse.” Makoto Yukimura, texto retirado no terceiro volume
de Planetes.
        Planetes é um mangá que fugiu daquilo
que sempre vemos em outras histórias, que é criar uma trama e fazer os
personagens reagir a elas, para aí sim começar a desenvolve-los, criar laços, e
causar empatia. A história em Planetes não secundário, nem terciária, ela é
apenas uma desculpa para mostrar personagens nas mais diferentes situações
relacionadas ao espaço. Em nenhum momento realmente nos importamos com a
ambição de Hachimaki de conseguir comprar uma nave e viajar livre pelo espaço,
o que importa é como esta ambição, este amor que ele tinha pelo espaço, se
digladiava contra o seu amor próprio e pelos seus amigos. A conclusão da
história não podia ser diferente.
        Usando o recurso do flashback, que foi
muito utilizado no Capítulo anterior, Yukimura consegue dar um senso de causa e
efeito, fechando ciclos de personagens que, se por um lado já tinham suas
tramas fechadas na história, careciam de uma maior atenção. A criação de uma
trama secundária, o início de uma guerra entre os Estados Unidos e o Japão,
serve para isso. Planetes poderia facilmente se passar no passado ou no
presente nestes momentos, por que os dramas levantados e abordados são dramas
universais.
        Outra faceta que colabora com esta
universalização da história vem do traço. Simples e limpo, que fogem da regra
de tantas obras japonesas que enchem o quadro com riscos para dar a sensação de
movimento, mas também não chega a ser uma emulação da arte ocidental, com suas
poses heroicas e imagens grandiosas. A busca pelo equilíbrio é a chave do
sucesso.
        Por fim, no seu terço final deste
volume, a história volta para Hachimaki e, adivinhem, tem-se um fim
extremamente íntimo em sua natureza, mas grandioso na concepção. Hachimaki está
chegando com o resto da tripulação em Júpiter, que como já dito anteriormente
na crítica do volume 3 é uma espécie de barreira que mede o desenvolvimento
humano em várias ficções científicas, e a nave funciona bem, não temos um
assassino a bordo, nenhum robô tentando tomar o controle…. Absolutamente nada
que pudesse criar um final cheio de ação e suspense. O maior drama ali reside
nas tentativas do capitão de criar um discurso para quando eles chegarem lá,
ecoando as frases “ A Terra é azul” de Yuri Gagarin e “Este é um pequeno passo
para o homem, mas um salto gigante para a humanidade” de Neil Armstrong. A
tarefa acaba recaindo para Hachimaki uma vez que todos percebem que ele é o
mais humano de todos ali presentes.
        No fim, fica a sensação de que foi uma
viagem daquelas em que o carro funcionou bem, o avião não teve turbulência, o
ar-condicionado do ônibus funcionou bem e você chegou com segurança ao seu
destino, mas por dentro seus problemas te corroíam, tentavam de levar para
baixo, te deixar deprimido, coisa que não ocorre por causa da promessa do
prêmio ao terminar a viagem. Planetes é isso, afinal. Não importa como foi a
viagem, mas sim como você estava se sentindo nela.

Nota: 9 de 10 universos