Review | O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock

Review | O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock

Desta vez a Darkside não decepcionou: O Mal Nosso de Cada Dia de Donald Ray Pollock é um livrão e vale cada linha lida e todo o hype que vem rolando sobre o título.

Confesso que a primeira vez que vi a sinopse deste livro já fiquei muito curioso, e tive que comprá-lo e lê-lo antes de ver o filme da Netflix, e venho aqui dizer que foi uma ótima experiência.

Mas já informo que este livro não é para qualquer um.

Donald Ray Pollock, autor de O Mal Nosso de Cada Dia
Donald Ray Pollock, autor de O Mal Nosso de Cada Dia

Donald Ray Pollock é um cara no mínimo diferente, e sua biografia é muito curiosa.

Ele foi operário e caminhoneiro a vida inteira, porém com 50 anos decidiu entrar na faculdade de inglês e somente ai começou a publicar contos que chegaram até a ganhar prêmios, até que escreveu O Mal Nosso de Cada Dia, seu primeiro romance quando tinha 57 anos.

E parece que a vida lhe deu muita experiência e lhe permitiu conhecer muita gente ruim, pois neste livro ele traz um grupo de personagens que não deixam o leitor passar ileso pela leitura.

Em uma narrativa que me lembrou um bom roteiro cinematográfico de Tarantino ele nos apresenta diversos núcleos de personagens e suas terríveis histórias que vão se amarrando aos poucos de maneira surpreendente e muito bem feita, tudo em capítulos curtos e cheios de cenas extremamente impactantes.

As descrições são tão boas que conseguimos imaginá-las e as vezes até sentir os cheiros.

Acredito que mais pessoas sentiram isso, já que o livro acaba de ganhar uma versão cinematográfica com um elenco estelar na Netflix.

O Mal Nosso de Cada Dia, violência e fé
O Mal Nosso de Cada Dia, violência e fé

O Mal Nosso de Cada Dia começa nos apresentando Willard Russell, um rapaz que acaba de voltar da guerra na década de 40 e se apaixona por uma mulher que trabalha num café. Sua mãe, extremamente religiosa, o havia “prometido” para uma garota chamada Helen, mas ele decide se casar com a outra moça.

Willard possui diversos traumas de guerra que guarda para si, mas mesmo assim ele vivem felizes por muito tempo, morando em uma casinha afastada onde tem um filho chamado Arvin.

Willard é um bom homem, mas não aceita que as pessoas se aproveitem disso, e mostra sempre ao filho que “existem muitos idiotas no mundo” e que ele precisa estar preparado para aproveitar as chances de os colocar em seu lugar.

A vida segue tranquila até que o destino traz notícias ruins, e a partir daí vemos um outro lado de Willard, afetado pelo extremo fanatismo religioso em cenas extremante incômodas.

Até onde uma crença cega pode levar uma pessoa?

Já Helen, casa-se com um pastor chamado Roy e então temos o segundo núcleo de personagens. Roy vive junto com seu primo Theodore, pregando golpes em nome de Deus.

O Mal Nosso de Cada Dia, Lançamento da Darkside
O Mal Nosso de Cada Dia, Lançamento da Darkside

Roy acha-se um enviado de Deus à Terra, porém novamente o autor nos traz atitudes extremas e assim mais uma vez nos mostra o peso do fanatismo.

Mas não pense que a maldade do mundo está relacionada somente com a religião.

Pollock insiste em nos mostrar que ela TAMBÉM está lá, mas não está SOMENTE lá.

E assim temos o terceiro núcleo, que foi aquele que mais me trouxe sensações incomodas e onde conhecemos o xerife Lee, sua irmã Sandy e seu marido Carl.

Lee é um xerife corrupto, mas tenta encaminhar sua irmã mais nova na vida arrumando um emprego para ela em um restaurante, porem lá ela conhece e se casa com Carl, um rapaz que se vende como um grande fotógrafo de Hollywood, e está criado ai um dos casais mais detestáveis da literatura mundial.

Fé pode trazer violência?
Fé pode trazer violência?

É difícil entender o que os une, pois Carl é quase um parasita, mas ele consegue convencer Sandy a participar de suas ideias, que envolvem fotos “sensuais” pelas estradas americanas.

E assim um ato tão inocente quanto tirar fotografias atinge um outro status.

É tanta demência que fica difícil resumir.

Se você se desestabiliza com histórias violentas, este livro não é para você, pois aqui os atos de maldades são cometidos como se fossem uma rotina. Os personagens fazem as coisas sem remorso, muitas vezes em nome de Deus.

A linguagem do livro é enxuta e pesada, os capítulos são curtos e mesmo tendo uma narrativa não linear, o autor consegue nos prender, pois logo percebemos que todos aqueles núcleos irão colidir, porém não sabemos se alguém sairá ileso deste choque.

E nisso devoramos o livro.

O autor quer nos mostrar que por mais que tenhamos noção que o mal existe, ele sempre pode nos surpreender.

Vi algumas resenhas achando o livro lento, mas discordo completamente. Eu li 120 páginas no primeiro dia que peguei o livro e só parei porque precisava dormir.

As cenas de Willard e do pequeno Arvin em busca de uma cura espiritual devem ter deixado King com inveja. Se este livro tivesse sido lançado pela Suma aqui no Brasil, com certeza teria um blurb de Stephen King na capa, pois é um livro perfeito para quem gosta deste estilo literário.

Também ouso dizer que era um roteiro perfeito para um filme de Tarantino.

Assim como Tarantino ou King, Pollock não facilita a vida do leitor, e haja rasteiras durante a leitura.

Nada na narrativa é obvia.

O autor consegue trazer atitudes extremamente mesquinhas para seus personagens, que cometem atrocidades sem nenhum remorso.

Mas porque vou ler um livro se todos os personagens são mesquinhos?

Porque existe alguém ali que é bom, mesmo que o mal tenha passado pela sua vida e ele tenha tudo para ter se perdido também. E assim, torcemos por ele, pois sabemos tudo o que ele passou e precisamos que ele tenha uma redenção.

Mas no fundo não sabemos se ele será capaz de reagir, o que traz uma grande tensão para os capítulos finais da história.

No fim, vemos tanta maldade acontecendo que precisamos que ele reaja, pois ele somos nós, leitores, que precisamos que justiça seja feita.

E assim o autor aflora a mal que existe dentro de nós leitores, pois passamos a querer vingança e a achar que aquele é o único caminho correto.

O final, me lembrou um pouco de Pulp Fiction, pois o autor foi tecendo suas histórias de maneira muito discreta e no fim intercalou tudo.

NO fim, enquanto escrevia esta resenha, parei para pensar e me toquei que no livro não existe nenhuma piada. Não lembro nem de sorrisos.

Como eu disse, Pollock não veio aqui para fazer amigos.

Mas eu recomendo muito a leitura para quem curte histórias densas e confesso que fiquei curioso para ler outros títulos do autor

Espero que este livro siga fazendo sucesso para que a Darkside continue investindo em outros títulos do autor. Vou torcer!

Agora, bora lá ver o filme da Netflix e checar o que tiveram coragem de colocar na tela.

E você, já leu este livro?  Qual a sua opinião?

Já leu algum outro livro do autor? Valeu a pena? Qual o seu favorito?

Converse com a gente nos comentários.

Se você ainda não leu, e ficou interessado, segue aqui um link para compra do livro:

No Submarino: O Mal Nosso de Cada Dia.

Na Amazon. O Mal Nosso de Cada Dia.

Lembrando que ao comprar com estes links, você ajuda na manutenção do nosso site.

E se você curtiu esta resenha, temos muitas outras clicando aqui.

Fique com a gente e nos indique para seus amigos que curtem cultura hype!

 

 

 

 

 

 

 

 

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