Review | O Jardim das Borboletas, de Dot Hutchison

Sabe aquele livro que a gente começa a ler e não consegue parar enquanto não chega na última página? O Jardim das Borboletas é claramente um desses. Lançado  em 2017 pela Editora Planeta, o livro da autora Dot Hutchison foi uma grata surpresa ao meu retorno aos livros de  Romance policial/Thriller, ao ponto de que consegui terminar de ler em dois dias.

Sinopse: Perto de uma mansão isolada, existia um maravilhoso jardim. Nele, cresciam flores exuberantes, árvores frondosas… e uma coleção de preciosas “borboletas”: jovens mulheres, sequestradas e mantidas em cativeiro por um homem brutal e obsessivo, conhecido apenas como Jardineiro. Cada uma delas passa a ser identificada pelo nome de uma espécie de borboleta, tendo, então, a pele marcada com um complexo desenho correspondente. Quando o jardim é finalmente descoberto, uma das sobreviventes é levada às autoridades, a fim de prestar seu depoimento. A tarefa de juntar as peças desse complexo quebra-cabeça cabe aos agentes do FBI Victor Hanoverian e Brandon Eddinson, nesse que se tornará o mais chocante e perturbador caso de suas vidas. Mas Maya, a enigmática garota responsável por contar essa história, não parece disposta a esclarecer todos os sórdidos detalhes de sua experiência. Em meio a velhos ressentimentos, novos traumas e o terrível relato sobre um homem obcecado pela beleza, os agentes ficam com a sensação de que ela esconde algum grande segredo.

Essa sinopse não revela quase nada sobre a história, por mais que possamos inferir diversas torturas que essas borboletas passaram, mas, garanto, não chega perto do que Dot nos reservou. E é até melhor não saber muito, pois guarda para a leitura a revelação das coisas que as borboletas tiveram que passar para sobreviverem. As coisas relatadas vão do nauseante ao revoltante de uma única vez, e chega a ser difícil não se sentir abalado com algumas situações.

Coisas bonitas têm vida curta, ele havia me falado na primeira vez que nos encontramos.

No centro do livro temos Maya, uma das borboletas que conduz a narrativa. Ela é uma jovem que passou por muitas coisas antes de ser capturada pelo Jardineiro, e que, a cada página, nos deixa em dúvida se devemos desconfiar ou nos apiedar dela. Maya começa com Victor e Brandon em uma sala de interrogatório, onde se passa a maior parte do livro, na realidade, contando sobre o período em que esteve presa nas garras do Jardineiro, intercalando com relatos de sua vida anterior ao sequestro. É uma personagem forte, cativante, com atitudes completamente plausíveis dentro da vida que levou. Tinha horas que tinha vontade de esganá-la para contar tudo logo, e horas que achava que ela acabaria por se revelar uma ajudante do Jardineiro, mas a garota é bem mais complexa do que julguei a princípio.

Algumas pessoas desabam e nunca mais levantam. Outras recolhem os próprios cacos e os colocam com as partes afiadas viradas para fora.

E como eu senti raiva do Jardineiro! Mesmo que Maya não falasse dele com tanto ódio quanto sentia, eu detestei esse personagem. Um homem cruel, doente, que acha que pode ter tudo, inclusive mulheres, apenas pelo fato de respirar. Ele escolhia garotas jovens para sequestrar e torna-las suas borboletas, sem sequer pensar na família das garotas ou sequer nelas próprias. Acreditava que as amava, mas, como podemos ver no livro, apenas as destruía. Não fiquei apenas com raiva dele, mas de toda a família, inclusive dos filhos – ambos para mim foram deploráveis (perfeitos vilões ou humanos?). As outras borboletas, mesmo as que tiveram atitudes questionáveis, foram bem exploradas e suas atitudes explicadas. Não que eu concorde com o que algumas fizeram, mas é possível entender por que fizeram.

A interação do Victor e do Brandon com a Maya foi espetacular. Ela enxergava por detrás das posturas deles, e Victor, talvez por ser pai ou policial a muito tempo, conseguia identificar e ajudar Maya a não se perder ou se isolar dentro de si. Por mais que Victor tenha tido um papel muito mais controlado e presente com Maya, eu ainda quero descobrir mais sobre a história do Brandon, que mostrou uma  personalidade bem interessante.

Uma coisa que me incomodou nesse livro e que não me fez dar nota total foi a motivação de Maya em demorar a revelar os fatos importantes para a polícia. Por mais que Victor estivesse claramente disposto a ouvi-la e ajuda-a, ela demora demais e o motivo ficou, para mim, meio sem sentido dentro de toda a história. Além do final do livro ter terminado de uma forma ‘felizes para sempre’ demais, contrastando com toda a narrativa. Não que os personagens não merecessem um final feliz depois de tudo o que passaram, mas o final aqui ficou estranho, como se pegasse o final de outra história menos complexa e apenas anexassem ao livro.

A história é muito boa, cruel, bem escrita, mas O Jardim das Borboletas não é para qualquer um. A leitura desse livro poderia ser recomendada a partir dos 16 anos, no mínimo, por conter alguns momentos de violência física e sexual que podem incomodar ou despertar certos gatilhos. Eu particularmente gostei muito da escrita da Dot Hutchison, e quero ler o segundo livro dessa série, Rosas de Maio, lançado esse ano de 2019 também pela Editora Planeta.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here