Review | O amuleto – O Guardião da Pedra (vol. 1), de Kazu Kibuishi

Review | O amuleto – O Guardião da Pedra (vol. 1), de Kazu Kibuishi

SINOPSE: Dois anos depois de uma tragédia na família, Emily, Navin e a mãe deles tentam recomeçar a vida numa casa muito antiga, que pertenceu ao bisavô das crianças. O lugar está abandonado desde o misterioso desaparecimento do proprietário. Durante a mudança, Emily encontra um estranho colar em meio aos pertences do bisavô. Ela nem desconfia, mas se trata de um amuleto que pode decidir o destino de um mundo fantástico. Quando uma assustadora criatura sequestra a mãe das crianças, Emily e Navin não têm outra opção a não ser seguir o monstro e entrar naquele universo desconhecido. Lá, eles vão conhecer seres incríveis e enfrentar perigos inimagináveis. Em pouco tempo, os dois irmãos irão descobrir que não estão naquele lugar por acaso e que libertar a mãe será apenas o primeiro passo rumo à maior de todas as aventuras.

Em 2013 com a proximidade do 15º aniversário da edição norte-americana de Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro livro da saga de JK Rowling, foram lançados por lá, os sete volumes dedicados às aventuras do bruxo com uma nova capa, desenhada por Kazu Kibuishi. Nascido no Japão, mas criado nos Estados Unidos, o artista foi o responsável pela formatação das famosas capas que acompanharam Potter, originalmente da ilustradora Mary GrandPré. O relançamento deixa claro a importância que Kibuishi ocupa hoje no universo das histórias infantis e juvenis em seu país. Aquele lugar, além de seu trabalho anterior, antologias como Flight ou nos desenhos animados da Nickelodeon, ele ganhou graças a saga Amuleto, uma série de nove livros, que iniciou em 2007, que ganha edição brasileira pela editora Fundamento recentemente.

Em um universo onde livros para jovens, o subgênero Young Adult brotam como gremlins e a procura de um novo Harry Potter sempre molde para propagandas diversas, as narrativas gráficas que compõem a saga Amuleto estão bem próximas de ocupar esse lugar, não é ao acaso que a Fox já comprou os direitos para adaptá-la ao cinema. Da mesma forma que o menino bruxo, há em Amuleto algo distinto: uma sensação concreta de perigo a cada página, uma sensação palpável em seus protagonistas, Emily, a garota que está entrando na adolescência e seu pequeno irmão, Navin, tanto no primeiro volume, O Guardião da Pedra (The Stonekeeper), como também no segundo volume, A maldição do Guardião da Pedra (The Stonekeeper’s curse), que irei tratar em outra resenha. Uma narrativa que ostenta uma aventura diferente, que lança de emoções sobre o impossível, ligando a fantasia como se fosse conjurada pela imaginação e talento do autor.

Kazu Kibuishi deixa bem claro que essa mistura de perigo real no ar, fantasia e épico visual e de gênero não são uma casualidade. É como um amalgama que eleva a possibilidade da perda e do perigo concreto é uma das razões do teor dramático desenvolvido pelo japonês, como o autor veio de um estilo totalmente contrário, de fazer comédia em animação e nos quadrinhos, a sinceridade, a tragédia e o tom sombrio definem bem o teor da saga.

O primeiro volume tem um início compulsivo para a série, que prepara rapidamente o palco para o segundo volume. A narrativa é a típica aventura de heróis de fantasia com alguns traços de steampunk e é fantástica, pois ao trazer duas crianças em uma jornada desconhecida com um coelho mecânico, alguns robôs e uma casa de passeio, tomando decisões difíceis cria algum tipo de metáfora para a perda de seu pai e reconhecer em papéis mais adultos.

As ilustrações são uma mistura agradável do mangá com o comic, com um leque de cores que merece atenção.  As cenas são definidas com perfeição com as cores utilizadas, por exemplo, no começo do volume 1, quando a tragédia familiar ocorre, o azul escuro e o cinza dominam, oferecendo um clima austero e frio. E quando a família está se mudando, as cores ficam entre o laranja e o vermelho, entre o verão e o outono, oferecendo  uma estranha sensação de esperança misturada à nostalgia. Quem folheia suas páginas, encontra deste os spreads ao traço dos personagens, algo excêntrico e único, com muitos desenhos de personagens atípicos, que tendem ao sombrio, como ao infantil (fofo, para algumas crianças, rsrsrs), um probleminha que passa batido, pois acredito que Kibuishi tenha desenvolvido seus personagens como Miyazaki fez com os seus.

E como em qualquer história que sabe processar suas influências, Amuleto reconhece a ação do japonês Hayao Miyazaki, um dos maiores nomes da animação mundial e de autores de quadrinhos de aventuras, como o Jeff Smith (Bone), como também no trabalho cinematográfico que Francis Ford CoppolaKrzysztof Kieslowski e Steven Spielberg ao tratarem do humano em si.

O cenário por ser apresentado rápido demais levanta um aspecto negativo, mas sendo uma reminiscência do Senhor dos Anéis, e também o primeiro livro de uma série, seria contraproducente contar tudo de uma só vez. Dá até para entender, há alguns pontos que são convenientes, mas não convincentes, como o caso da magia que não é claramente explicada, talvez sejam mais claramente definida nos próximos volumes, mas neste volume ela aparece simplesmente como “novos poderes como o argumento exige”. Isso meio que mata qualquer tipo de suspense ou tensão dramática quando sabemos que a magia vai salvar o dia no momento conveniente …

Kibuishi traça uma história fascinante sobre magia, destino, tecnologias fabulosas e mundos alternativos. Uma narrativa gráfica que recomendo e já estou ansioso pelo segundo volume.

Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

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