Review | NonNonBa, de Shigeru Mizuki

Review | NonNonBa, de Shigeru Mizuki

Existem mangás que deixam uma marca indelével em quem as lê, e NonNonBa (1977; Devir, 2018) é uma delas. O renomado mangaka Shigeru Mizuki (1922 – 2015) traz neste mangá o seu melhor trabalho e, sem dúvida, uma obra-prima do gênero. Não exagerando, mas temos um dos mangás contemporâneos essenciais em qualquer estante.

SINOPSE

Nos anos 1930, numa pequena vila japonesa, um menino encontra uma série de youkais, entre o cotidiano de uma criança numa província afastada. De família bem pobre, o garoto tem uma grande amizade com uma senhora, considerada a NonNonba (designação das mulheres idosas devotas à religiosidade) da região. E é ela que ensina como lidar com as entidades sobrenaturais dos mais variados tipos e atribuições.

Análise

Dentre os vários autores de mangakás Shigeru Mizuki se reúne aos de Osamu Tezuka, Mitsuteru Yokoyama, e de Shotaro Ishinomori, formando um panteão que ganharam publicações aqui no Brasil só recentemente, especificamente nos últimos três anos.

Mizuki se especializou em escrever histórias de horror, pesquisando sobre o folclore do país e sobre seus seres sobrenaturais e espirítos ancentrais. E NonNonBa, originalmente publicado em Nonnonbaa to Ore ( aqui com tradução de Arnaldo Masato Oka) é um retrato de seus mais de sessenta anos escrevendo sobre youkais.

O mangá pode ser lido por várias perspectivas. De uma maneira geral, a primeira é a autobiográfica, onde o autor traz sua infância e mostra a sociedade da época. Através da memória do seu passado, recriando cenas, aproximando-nos de alguns dos acontecimentos que marcaram a sua vida.

A narrativa ocorre numa época que se estende pelas décadas de 1930 e 1940; num cenário rural longe de qualquer sinal de modernidade (Tóquio e Osaka são referidas como distantes metrópoles utópicas e idealizadas).  É ali que mora toda a família Mizuki: o pai, funcionário público e com a obsessão de abrir um cinema como forma de incrementar a cultura do lugar; a mãe, dona de casa, de família tradicionalista; os avós maternos, relutantes a qualquer sinal de mudança; e os irmãos, os mais velhos e os mais novos, ambos com as fantasias e ilusões de sua idade.

A família é um amplo retrato sociológico do Japão; refletem aspectos tão diversos como o passado imperial, que contrasta com o futuro a partir do nível de renda e da capacidade de gerar dinheiro (nobreza versus burguesia); o acesso à cultura e à educação pelo cinema ou pela literatura, contraposta à empobrecida população rural e que fundamenta suas crenças nos mitos e símbolos da cultura popular, ou no contexto de uma sociedade cujo presente narrado está, em na verdade, uma transição invisível entre os tempos antigos e modernos, com todas as grandes mudanças que tal transformação implica ainda em curso e a todo vapor.

Em torno do menino Shigeru gravitam seus amigos, com diferentes personalidades, sonhos e preocupações. A eles, inocentes, jovens em um ambiente moralmente rígido e empiricamente limitado, está ligada a NonNonBa, uma velhinha humilde com personalidade e vida que se torna o motor de suas vidas. Por meio dela, Shigeru e seus amigos têm acesso à memória enciclopédica de uma cultura tradicional japonesa cheia de espíritos, fantasmas e seres mitológicos grotescos.

NonNonBa é a porta do autor para a segunda perspectiva presente neste brilhante mangá: a memória cultural, as raízes ancestrais japonesas, a personalidade coletiva do país do Sol Nascente. Nesse quadro o confronto com a modernidade, cética, avançada e científica é clara e constante. E o mangaka cria diálogos que, querendo representar os anseios de um mundo moderno e a estima pelas origens ancestrais ou pelas bases culturais míticas, acabam por nos mostrar a compatibilidade impossível de ambos os mundos (moderno e tradicional) no mesmo espaço-tempo.

A tensão do autor é consciente, não só pelas consequências sociológicas, mas também pelo tom sentimental de saudade/perda que é comum na obra. O Real e o Mitológico, o Material e o Espiritual, o Futuro e o Passado são abordados no mangá como na margem, coexistindo, mas no final é sempre a primeira que prevalece sobre a segunda; daí aquela sensação de tristeza progressiva à medida que nos aproximamos do final do volume.

A cultura tradicional é representada pela NonNonBa: com suas histórias, o passado distante é projetado no passado recente e, através do mangá, em nosso presente ultramoderno e altamente tecnológico. E o objetivo é alcançado, ao apresentar o reflexo distante de outro Japão, remoto e já parcialmente esquecido, ao qual presta uma homenagem sincera. Para nós, ocidentais, o mangá representa um catálogo extraordinariamente amplo e divertido das figuras mitológicas desse Japão.

A terceira perspectiva está no contexto particular da obra: antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Com cenas rápidas que nos situam desde o início dos anos 1930, temos um país socialmente fragmentado, com grande parte da população sem renda e acesso à educação e cultura. À medida que a nação avança, é especificado em detalhes por meio de desenhos, diálogos ou cenas breves diretamente conectadas com aquele Japão em risco internacional.

NonNonBa é uma obra-prima por muitos motivos, e os aspectos listados aqui são apenas alguns deles, mas existem outros: o humor terno e suave; um tom narrativo leve que permite uma conexão perfeita com os anseios sentimentais do autor pela infância; um desenho P&B com traços suaves consistentes que reforçam a mensagem central do livro, ou um roteiro onde os protagonistas apoiam-se num fio condutor de um mangá perfeito centrado na saudade do tempo passado/perdido através da memória e da imaginação.

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