Review | Lobisomem – Os Destituídos

Review | Lobisomem – Os Destituídos

Após a original idéia do Mundo das Trevas (World of Darkness) da White Wolf, onde se interpretava criaturas, consideradas monstros, como vampiros e lobisomens, que não viviam só do sangue humano, mas sofriam, sentiam e lutavam pelo sonho de se manter vivos perante os tempos modernos. Eram “uma raça em extinção“; contudo, com o passar dos anos veio um mundo multifacetado com criaturas bizarras, desde homens-javalis a homens-patos guerreiros. Não sabemos qual foi o momento que houve a perda daquele conceito que conquistou centenas de milhares de fãs em todo o mundo, mas felizmente a editora norte-americana resolveu fazer o já aguardado desde o lançamento Apocalipse e deu fim a tudo aquilo.

E nasceu o novo Mundo das Trevas, numa nova linha conhecida como Storytelling, tendo pouco ou nada a ver com o anterior, mas conservando algumas coisas: segue com os vampiros, com os lobisomens e com os magos. O novo sistema simplifica bastante o anterior, principalmente por ser um novo conceito, uma reformulação de tudo que antes fora feito. ,

Análise do livro Lobisomem: Os Destituídos.

A alcatéia enlouquece. A vadia ‘tá gozando com a nossa cara, é o que todos pensamos. Todo mundo uiva, todo mundo assume a forma Gauru. Pulamos a mureta também, gritando e latindo, prontos para detonar bonito aquela aranha. E caímos direitinho nas teias deles. Uns dez Azlu, esperando pela gente, estalando as quelíceras. Estão famintos. (Lobisomem: os Destituídos, pág. 21)

Antes de falar sobre desse recente lançamento da Devir, devemos lembrar um pouco do conceito popular que temos dos lobisomens, uma besta selvagem que nas noites de lua cheia caminha com sua sede de sangue. Esse conceito não ajuda nem um pouco, em um jogo onde a narrativa se baseia totalmente nas atividades sociais dos personagens. Em Lobisomem: os destituídos (Werewolf: the forsaken, Devir, 320 páginas, R$ 96,00) dilacera vários dos mitos cinematográficos conhecidos, construídos ao longo de dezenas de filmes sobre e com lobisomens. Se alimentando com algumas idéias provenientes das tradições folclóricas, os autores criaram uma nova história, sem as bizarrices de anos anteriores. Usando também a mitologia animista, a crença de que as coisas no mundo físico possuem espíritos. Segundo quem acredita na mitologia, um espírito habita nas coisas vivas e não-vivas e pode influir ao mundo em seu redor. Aqui no Mundo das Trevas, o animismo adquire um fator mais sinistro, os espíritos não se preocupam com a humanidade, salvo no sentido de considerá-la fonte de entretenimento e alimento. Um lobisomem é um iniciado nesse mundo, e não são vítimas que se converteram em monstro: eles nasceram monstros.

Os lobisomens do Mundo das Trevas crescem crendo que são humanos, porém o instinto assassino que possuem os confunde. Para a maioria, seu primeiro contato com o que são ocorre após um ataque de um outro lobisomem. A mordida, na maioria das vezes, não o transforma, só permite ao atacante saborear o sangue do Uratha, assim os demais parentes podem encontrá-lo. Uratha é o nome dos lobisomens nesse novo mundo, uma raça condenada, expulsa do mundo espiritual, por um pecado mortal, o assassinato do próprio criador da raça. Assim os Uratha foram forçados a viver apenas no nosso mundo, e é nesse ponto que o novo conceito é muito mais maduro, selvagem e brutal. A função desses seres é cuidar da tênue divisória entre o mundo real e o mundo espiritual. No lugar de servir os espíritos, sua relação é de caçador e presa, e é essa uma das novidades nas aventuras de Os Destituídos.

Todo o código social e a estrutura dos lobisomens se baseiam no conceito da caçada. O território, as invasões e seu papel como aqueles que mantêm a balança entre os dois mundos, são pontos essências para o enredo e a jogabilidade. Sem falar o quanto é incrível a caracterização dos lobisomens, selvagens, porém humanos, que buscam harmonia para sua ira interior e para o convívio com os dois mundos. O livro se inicia com um conto, Carne Fresca, onde um Uratha se transforma pela primeira vez, e seu encontro com uma matilha. Após a narrativa, bem no estilo de Ambrose Bierce, segue uma introdução, onde são apresentados os temas do jogo, um glossário de termos e outro sobre a Primeira Língua, a língua falada pelos espíritos, bem curioso essa parte.

A seguir vêm os capítulos, o primeiro, Um mundo dos abandonados, onde narra o surgimentos dos Uratha, filhos do Grande Pai Lobo e de Luna, e como foi o parricídio, e a maldição dos demais espíritos e até mesmo de sua própria mãe. Contudo, ela se apieda dos destituídos e os acolhe novamente e juram manter o equilíbrio. Após o histórico, vem a explicação dos cinco augúrios: Rahu, Cahalith, Elodoth, Ithaeur e Irraka, relacionadas a fases da lua; das Tribos – Os Garras Sangrentas (Suthar Anzuth), Os Sombras dos Ossos (Hirfathra Hissu), Os Caçadores na Escuridão (Meninna), Os Mestres do Ferro (Farsil Luhal) e Os Senhores da Tempestade (Iminir), que servem como afiliações mais políticas do que famílias, além desses cinco há os que não participaram da caçada ao Pai Lobo, são os Tocados Pelo Fogo (Izidakh), os Garras de Marfim (Tzuumfin) e os Reis Predadores (Ninna Farakh). – onde cada uma é mostrada sob uma visão geral, cheia de informações.

Após o histórico, o capítulo dois aborda a construção do personagem Lobisomem em si, com novidades como a característica relacionada com a energia espiritual e sua afinidade com o mesmo. As Regras Especiais e O Sistema são o capítulo seguinte, e deve ser lido com muito interesse pelos jogadores, é aqui que se encontra a funcionalidade do Novo Mundo das Trevas. Após o esquema do sistema, temos o capítulo quatro, Narração e Antagonistas, onde segmenta a narrativa e os antagonistas para a campanha de Lobisomem: Os Destituídos. Além dos capítulos, há dois apêndices, um sobre o Mundo dos Espíritos, Hissil, o plano espiritual irmão do mundo da carne, o reflexo da existência de medos, esperanças e de todas as coisas materiais e espirituais. E o outro, um cenário pronto: as montanhas rochosas, no Colorado, nos EUA. A edição como sempre, nos livros publicados pela Devir, está muito mais caprichada. A capa possui um efeito perolado, diagramação precisa, com um toque diferenciado nos parágrafos, as ilustrações são de artistas que seguem o mesmo traço, desenhos impecáveis, como os de Ron Spencer e Steven Prescott.

Conciso, bem escrito, detalhado e empolgante trabalho dos autores Carl Bowen, Conrad Hubbard, Rick Jones, James Kiley, Matthew McFarland, Adam Tinworth, que com certeza vai conquistar os antigos fãs de Lobisomem: O Apocalipse e uma nova geração de jogadores para o novo Mundo das Trevas. Literalmente ele ultrapassa o seu antecessor, pela melhor definição histórica e pelo sistema racionalizado. Há uma grande margem para o desenvolvimento das narrativas, e é nesse mote que supera o anterior. Uma obra que demorará ser suplantada, pelo estilo e pelo argumento, impecável, vale o preço.

Do release da editora:
O paraíso está perdido – foi DESTRUÍDO por nossas próprias mãos, estraçalhado por nossas próprias e presas.E, por isso, fomos DESTITUÍDOS. Hoje ESPREITAMOS os rebanhos humanos, lobos em pele de cordeiro, e nossos sentidos nos levam até a CAÇA. Nossa própria gente está contra nós, e coisas saídas da sombra da terra seguem em nosso encalço. Nosso sangue vibra de FÚRIA com a lua cheia. E a você que pretende nos CAÇAR, um aviso: mais dia, menos dia, reverteremos a situação, e você descobrirá que não é o caçador, e sim a CAÇA.”

Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

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