Review | Hex: uma bruxa clássica – Um terror moderno, de Thomas Olde Heuvelt

Review | Hex: uma bruxa clássica – Um terror moderno, de Thomas Olde Heuvelt

Os moradores sabem que não se deve mexer com ela. Assim como aconteceu com as bruxas de Salem, Katherine Van Wyler foi condenada à fogueira. Mas a feiticeira sobreviveu e continua rondando a cidade, mais de trezentos anos depois.Com costuras em seus olhos e correntes nos braços, Katherine aparece nos lugares mais improváveis quando bem entende, sussurrando a morte para quem chega perto o suficiente para ouvir. Assim como a Morte Vermelha, de Edgar Allan Poe, ela enfeitiçou a alma da cidade de forma que escapar não é uma opção: quem se afasta demais tem a mente invadida por pensamentos suicidas, e muitos não retornam para contar a história. Os habitantes de Black Spring controlam os passos da bruxa 24 horas por dia através do hexapp, um aplicativo de celular desenvolvido especialmente para garantir que a bruxa não seja revelada para os Forasteiros. A vigilância constante aumenta o clima de paranoia na cidade, enquanto um grupo de adolescentes desafia as regras e resolve provocar a bruxa para ver se ela é tão perigosa quanto dizem.

O holandês Thomas Olde Heuvelt, indicado ao World Fantasy Award em 2014 e ganhador do Hugo Fantasy Award no ano seguinte, é a mente por trás, Hex: Uma bruxa clássica – Um terror moderno, que saiu por aqui pela DarkSide, numa edição caprichada

Temos em Hex, uma intensa e arrepiante revisão da natureza do Mal e da figura do monstro, que nem sempre é a mais mais óbvia, numa narrativa que gradualmente carrega tensão e termina com uma explosão de horror de dimensões espetaculares. Um terror habilmente alcançado com habilidade, preparado em banho maria, com cuidado, para acabar deixando a psique do leitor abalada.

A mística por trás das narrativas de bruxas é a base do autor, trazendo referências de bruxas executadas e redentoras da cultura tradicional, mas construindo uma comunhão com o leitor através de sugestões e experiências compartilhadas. O suspense e a angústia povoam suas páginas, em um crescente de horror que satura os sentidos. Uma história com uma atmosfera aterrorizante, mas que traz um terrível retrato da natureza humana que implica.

2012, Black Spring, Nova York. Os moradores estão acostumados com a presença da bruxa Katherine van Wyler, executado no século XVII, vagando pelas ruas, pela floresta numa presença não como um fantasma, mais algo mais sólido. Como já foi mostrado na sinopse, todos sofrem de uma maldição e a cidade está confinada do resto do mundo. Mas um grupo de jovens estão determinados a quebrar a tradição, decidem mudar as coisas ali, nem sabem das consequências catastróficas se ultrapassar o proibido. O HEX, do título, é um grupo de vigilância, composto por vizinhos da própria Black Spring, É responsável por manter tudo sob controle, criando distrações para que pessoas de fora não saibam de sua presença. E é essa visão que Olde Heuvelt nos oferece, trazendo os personagens em meio a ambientação da maldição.

Dividida em duas partes, a história começa retratando a vida cotidiana dos cidadãos de Black Spring, de uma maneira muito tradicional, refletindo seus costumes, estudos, relacionamentos, empregos e desejos que podem muito bem ser os de qualquer cidadão de qualquer outra cidade do estado de Nova York. O autor consegue construir uma atmosfera de normalidade absoluta em torno do fenômeno sobrenatural, de aceitação e convivência diária e, pouco a pouco, é introduzida em um cenário estável há anos, com uma cidade quase acomodada à sua estranha situação e acostumada a viver sob a ameaça da bruxa, aí aparece o elemento discordante: a insatisfação dos jovens, crianças de seu tempo, internet, telefones celulares e tablets, Facebook, YouTube, aplicativos, memes e vídeos virais, para uma situação que herdaram sem poder reclamar. Assim vão tentar desmascarar a bruxa cientificamente, estudar seus movimentos, estabelecer regras e limites para sua ameaça e mostrá-la ao mundo. Agora indago para quem ler nossa resenha: quantas vezes o terror é desencadeado enquanto as melhores intenções são perseguidas?

E de todo modo, algo é desencadeado, e na segunda parte o autor abre sua história  avassaladora e terrível, sem nenhum tipo de cuidado. Não há esperança e o caos está batendo sob o escasso verniz da chamada civilização. Desde a caça puritana e a queima de bruxas até o século XXI tecnológico, poucas coisas realmente mudaram, e a busca por culpados, o sacrifício de inocentes, é uma das saídas fáceis escolhidas em tempos de ansiedade. Sempre haverá quem desfrute do poder que o medo lhes dá sobre o que pode acontecer. Loucura, mas também hipocrisia e falsidade, batem sob a pele dos cidadãos da amaldiçoada cidadezinha. A faísca é dada e um apocalipse de terror é abrasado em Black Spring.

O leitor, através das diversas experiências e personagens poderá refletir sobre pontos frequentemente ignorados. E é nesse ponto que o autor acerta mais ainda, elencando os seguintes aspectos em sua narrativa: 1. A injustiça de sobrecarregar os filhos com os pecados de seus pais, de que as gerações futuras devem assumir as ações do passado; 2. O amor ao poder disfarçado de razão religiosa, a subjugação imposta pela superstição e pelo medo; 3. A caça às bruxas, onde a culpa ou a inocência não importam tanto; 4. O anonimato da multidão, que permite os maiores excessos com base na culpa distribuída; 5. A raiva e a violência que qualquer vizinho carrega dentro, disposto a explodir com a desculpa necessária; 6. Os instintos mais perversos escondidos sob a pele da civilização; 7. O trauma da passagem da tradição quando os jovens pedem passagem e deixam claro que uma tradição sem mudanças produz apenas uma sociedade morta e inerte.

HEX é um romance contemporâneo de fantasia sombria, de puro terror, não é aquele  esperado,mas daqueles que o fazem internalizar o que foi lido e descobre com horror que o monstro nem sempre é o suspeito usual, de leitura fluida, concisa e que nos deixa completamente imersos na trama. Recomendo a leitura

PS. Segundo informação no site da editora (2018), a Warner Bros. está desenvolvendo uma série baseada no livro.

Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

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