Review | Em Busca de Watership Down, de Richard Adams

Você já leu um livro onde os personagens são todos coelhos? Provavelmente dirá que sim, lembrando-se dos livros infantis que lia no primário. Mas Em Busca de Watership Down é muito diferente de qualquer livro com coelhos que você já tenha lido.

A Editora Planeta trouxe de volta ao Brasil em uma linda edição em capa dura, esta obra que já havia sido lançada por aqui na década de 70.

Nos países de língua inglesa este é um dos livros mais famosos de fantasia. Até o lançamento de Harry Potter, este era o livro de fantasia mais vendido no Reino Unido, já tendo ganhado adaptações para filmes, radio e televisão, porém aqui no Brasil ele é pouco conhecido, algo que deve mudar agora com a estreia de um seriado feito em parceria entre a BBC e a Netflix, e exibido por este serviço de streaming.

Mas não pense que Em Busca de Watership Down é um livro de coelhos fofinhos somente para crianças.

Para começar ele é um pequeno calhamaço de 464 paginas.

Richard Adams criou esta estória para suas filhas, mas aproveitou para discutir temas muito importantes, como amizade, coragem, sobrevivência, vida em comunidade, respeito ao diferente, colonização, aculturação, luta por poder e até algo próximo do fascismo, temas que talvez as crianças não percebam, mas que com certeza chegarão até o leitor adulto através de suas metáforas e simbolismos.

A Primeira Jornada

O livro conta a estória de um grupo de coelhos que decidem fugir do viveiro em que sempre morou, quando Quinto, um pequeno coelho, tem uma visão premonitória de que o local será destruído.  Quinto e seu irmão Avelã, até tentam falar com o Coelho Chefe do Viveiro, mas como este não acredita na visão de Quinto, decidem fugir sozinhos, mas acabam arregimentando mais alguns coelhos, como o inteligente Amora, o ingenuo Sulquinho e o forte Topete.

Começa ai a aventura destes coelhos.  A principio a estória é bem infantil.  Como eles nunca saíram de casa, tudo é diferente. Eles sabem que existem inimigos como raposas de dia, corujas à noite e até o próprio ser humano, mas para muitas coisas eles não possuem palavra para designar, então o autor segue nos guiando através de descrições, para que possamos entender o que eles estão vendo.

No caminho eles encontram um viveiro próximo a uma fazenda que parece ser o paraíso, mas Quinto, logo percebe que aquela perfeição é falsa.  Aqueles coelhos são selvagens ou domesticados? Que comida é aquela que sempre aparece amontoada? Um lugar livre ou um lugar perigoso? O autor consegue permear sua historia com um grande clima de suspense, onde ficamos sempre esperando algo de ruim acontecer, já que nossos amigos coelhos são extremamente frágeis.

Mas nossos coelhos são espertos, principalmente Avelã, que vai aos poucos se tornando um líder e tem sempre ótimas ideias, como a de ajudar outros seres que vão encontrando pelo caminho e poderão vir a ser uteis para eles algum dia, como um minúsculo camundongo ou até uma enorme gaivota perdida na floresta. Nada neste livro está ali sem função.

Se alguém encontrar um animal ou uma ave, que não seja inimigo, precisando de ajuda, por favor não perca a oportunidade de ajudar. Seria como deixar cenouras apodrecendo no chão

Avelã é a utopia do Governante que o mundo sonha. Sempre justo e sempre pensando no coletivo, é o condutor da estória.

Mas este não é um livro de coelhinhos fofos, e chegar à terra prometida não é o final da saga, pois logo Avelã percebe que eles encontraram o paraíso em Watership Down, um lugar seguro, com comida abundante, onde logo começam a cavar seu novo viveiro, porém Avelã também percebe que aquele paraíso está direcionado a extinção, pois todos os coelhos que decidiram fugir são machos.

A Segunda Jornada

E ai temos a segunda e melhor parte do livro, onde eles precisam partir em uma jornada em busca da única opção para que não entrem em extinção: fêmeas.

No mundo politicamente correto de hoje já consigo ouvir o mimimi de pessoas gritando que o livro é sexista, “patriarcalista”, machista, etc, etc, etc,  pois os coelhos buscam fêmeas com a simples intenção de reproduzir. Mas não é isso o que a natureza pede??

Nesta nova jornada eles encontram coelhos vivendo em gaiolas em uma fazenda e outros vivendo em um viveiro selvagem chamado Efrafa, que deveria ser um lugar de liberdade, a antítese da fazenda, mas que é controlado a “patas de garras de ferro” pelo General Vulneraria, um enorme coelhos com atitudes militares.

Neste ponto o livro fica mais pesado, pois em Efrafa não existem coelhinhos fofos, mas sim um viveiro completamente hierarquizado e controlado,  cheios de regras, sob um sistema violento e ditatorial.  Não consegue imaginar coelhos sanguinários? Tudo depende do desejo de poder de qualquer ser, e é isso que é interessante na obra de Richard Adams, pois ele usa seus coelhinhos para representar tudo aquilo que nós humanos fazemos.

O autor fez uma extensa pesquisa sobre o habito dos coelhos, portanto no livro, tirando o fato de que os coelhos falam entre si, de resto, tudo o que eles fazem é algo que um coelho de verdade pode fazer. E falando ainda sobre a linguagem dos coelhos, isso é outro ponto muito interessante, pois o autor também criou uma língua e palavras para os coelhos:  o Lapino, onde algumas palavras são formadas por onomatopeias (Hrududu, que significa Trator ou Carro) e outras até para representar coisas que são feitas somente por coelhos (como Silflay, que significa comer do lado de fora, algo que os coelhos fazem diariamente quando saem de suas tocas para se alimentar.)

O ultimo quarto do livro se transforma numa divertida estória de aventuras onde diversas vezes achamos que nossos amigos coelhos não vão conseguir se safar, mas…

Conclusão

Ao começar a ler este livro, vi diversas resenhas que diziam que não era um livro para criança. Eu esperava uma estória mais pesada tipo a Revolução dos Bichos, mas aqui é diferente. O começo é até extremamente infantil, o que para mim prejudicou bastante a leitura, pois demorei a me envolver com a galera Lapina, mas aos poucos a estória foi me cativando até chegar ao final onde eu queria estar lá para dar uma mão para meus amigos coelhos.

Para mim, este livro pode sim ser lido por / para crianças e adultos. As crianças não devem entender as metáforas, mas vão adorar a aventura. Já o adulto, com certeza vai repensar muitas atitudes que poderiam deixar o mundo muito melhor.

O mundo seria perfeito se todos os líderes pensassem assim: “Vim sugerir algo totalmente diferente e melhor para ambas as partes. Um coelho tem duas orelhas, tem dois olhos e duas narinas. Nossos dois viveiros devem ser assim. Devem estar juntos, não brigando. Devemos construir outros viveiros entre nós, a começar por um entre o nosso e Efrafa, com coelhos vindos das duas partes. Você não perderia nada com isso, só ganharia. Vários de seus coelhos estão infelizes agora e isso é tudo o que você pode fazer para controlá-los, mas, com esse plano, logo você perceberá uma diferença. Coelhos já têm inimigos suficientes. Não devemos arranjar mais inimigos entre nós. Sugiro um acasalamento entre viveiros livres e independentes, o que você acha?

Agora vamos ver a série da Netflix e logo voltamos para comentar.

E você já leu essa edição, conte-nos o que achou da leitura?

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