Review | Dias de Abandono, de Elena Ferrante

Uma estória incômoda

Dias de Abandono foi meu primeiro contato com a famosa(o) e misteriosa(o) escritora(r) italiana(o) Elena Ferrante, e preciso dizer que não foi uma leitura muito fácil.

Dias de Abandono foi o segundo livro escrito por Elena Ferrante, bem antes de sua famosa Série Napolitana.

Foi lançado na Itália em 2002 e aqui no Brasil em 2016 pela Biblioteca Azul, na sequência do sucesso da serie Napolitana, que deixou a autora famosa mundialmente.

Pouco se sabe sobre Elena Ferrante. Aparentemente ela vive reclusa na Itália. No inicio não se sabia nem se era um homem ou uma mulher, mas hoje se acredita que ela seja uma mulher que tem 75 anos, é casada com um escritor e prefere manter-se no anonimato, pois “optou pelo anonimato para poder escrever com liberdade, e também para que a recepção de seus livros não seja influenciada por uma imagem pública”.

Ao ver as capas dos livros da Serie Napolitana eu sempre imaginei livros ensolarados e femininos, algo que não me chamava muito a atenção, mas o que encontrei aqui foi algo completamente diferente.

Dias de Abandono é uma grande porrada extremamente real e indigesta.

E para mim é difícil não imaginar que exista algo de biográfico na obra, pois é difícil que alguém consiga imprimir tantos sentimentos a um texto, às vezes belo, mas na maioria das vezes repulsivo, sem ter passado por aquilo.

Dias de Abandono conta a estória de Olga.

Após 15 anos, Mario, seu marido, após ajuda-la a tirar a mesa do jantar, lhe avisa que está indo embora de casa.

A principio ele vem com o papo de que precisa se encontrar, e ela imagina que aquilo será uma fase, mas logo percebe que não é isso.

Aquilo é um processo sem volta.

Marco a trocou por uma garota mais nova.

Ela, seus dois filhos, o cachorro e o apartamento.

Clichê?

Totalmente!

Mas…

Muitas estórias como esta já foram contadas. Da literatura russa a novelas mexicanas, mas acredito que nenhuma vez tenha sido de uma maneira tão visceral quanto esta narrativa de Ferrante.

Aqui a autora decide mostrar o que este clichê pode acarretar a uma mulher.

E esqueça Girl Power ou mulher empoderada colocando um salto alto e  postando mensagens engrandecedoras no Facebook e selfies felizes no Instagram mostrando que pode ser melhor sozinha e todo o blá blá blá feminista século XXI.

O que acompanhamos aqui é a degradação psicológica desta personagem que não sabe como lidar com o “luto” desta separação. E a autora nos traga para a cabeça desta mulher, que a principio nega o que está ocorrendo.  Depois começa a procurar explicações e que no fim passa a agir com um extremo ódio atacando tudo ao seu redor.

Obsessão, dor, frustração, depressão. A autora nos leva junto com Olga para que possamos sentir tudo aquilo junto com a personagem que parece ir se destruindo aos poucos aos nossos olhos.

Marco é um canalha. Mas as reações de Olga são extremamente assustadoras, portanto ela pode até ser uma vítima, mas está longe de ser uma “mocinha”. O processo a torna uma pessoa vil. E sua falta de amor próprio torna a leitura muitas vezes constrangedora.

Ao ler este livro tive uma sensação parecida com a que tive vendo Coringa este ano no cinema: Eu não queria ver aquela mulher passar aquela vergonha!

Elena Ferrante não poupa o leitor e usa uma linguagem que nos atinge, pois aquilo ali é vida real.

Olga fala palavrões, dá piti, faz chantagem emocional com seus filhos, joga as crianças contra o pai, tenta espancar o marido, xinga a nova namorada, e numa das cenas mais constrangedoras que já li na minha vida ela tenta seduzir um vizinho, afim de se sentir ainda uma mulher desejada, mas numa cena que só aumenta a sua degradação.

Com certeza Elena Ferrante não está aqui para fazer amigos, mas sim nos mostrar o quão cruel esta dor pode ser

Confesso que muitas vezes eu pensava como que uma pessoa pode se rebaixar tanto assim e tentei julga-la, para então perceber que cada um tem a sua historia e só podemos torcer para que a história de nossas vidas  seja  boa.

O livro traz diversas discussões muito pertinentes.

Imagina quando ela percebe que odeia o marido, mas olha para seus filhos e percebe que sempre verá seu marido ali, pois as crianças são fisicamente parecidas com o pai. Ou quando as crianças passam a ter contato com a nova família e passam adquirir vocabulários ou atitudes da “nova mãe” e compara-las as suas atitudes. É como se fosse uma cruz genética a ser carregada a vida inteira.

No caso dela um louco “amar e odiar” seus próprios filhos, por todas as lembranças que eles carregam.

Confesso que nunca tinha imaginado isso e parei para pensar qual seria meu comportamento.

Há tempos não lia um livro tão adulto.  E não digo maior de 18 anos.

Olga tem 38 anos, e eu acho que este livro é recomendado pelo menos para pessoas maiores de 35, pois é necessária certa vivência para sobreviver a esta história e tentar não julgar as atitudes da personagem e desistir da leitura.

Como eu disse, foi Dias de Abandono foi uma leitura incômoda.

Se você curte isso, mergulhe de cabeça.

Se tiver ressalvas, coloque uma boia e veja se é a sua praia antes.

A dor da experiência pode ser maior do que o retorno.

E você, já leu Elena Ferrante? Qual seu livro favorito da autora?

Já leu Dias de Abandono? O que achou?

Vamos conversar nos comentários.

E não se esqueça que temos muitas outras indicações, clique aqui e conheça um pouco mais.

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