Review | Bojeffries A Saga, de Alan Moore e Steve Parkhouse

Review | Bojeffries A Saga, de Alan Moore e Steve Parkhouse

Para quem conhece o humor inglês, características como a seriedade, o sarcasmo e a ironia são comuns. Monty Python, Rowan Atkinson, Benny Hill, Little Britain, Ricky Gervais, Edgar Wright são alguns exemplos desse estilo que se apresenta tranquilo e indiferente enquanto coisas absurdas ocorrem ao seu redor. E não é que alguém como Alan Moore era capaz de escrever histórias tão delirantes quanto dignas desse gênero. Em Bojeffries A Saga, Moore acompanhado por Steve Parkhouse, traz contos nos quais, pouco a pouco, conheceremos uma família de monstros vivendo num subúrbio.

Lançamento da Devir, Bojeffries A Saga foi publicada na mesma revista que V de Vingança e Miracleman, na Warrior (1983). Não conhecia esse lado galhofeiro do Moore, já sabia do trabalho que fez com o Garfield ou nas tiras do Maxwell, the Magic Cat (lançado por aqui pela Pipoca & Nanquim), mas não com o humor ácido e de gags que encontramos nessas páginas.

A História

SINOPSE: Jobremus Bojeffrie vive como qualquer outro pai, tentando manter a paz em uma casa cheia de dois filhos indisciplinados, dois tios, um bebê e o vovô Podlasp . Não importa que seus membros sejam lobisomens, vampiros ou fantasmas .

Arte de fã da série

Os Bojeffries são uma família bastante peculiar: o avô Podslap é uma versão bolorenta de um monstro Lovecraftiano; Jobremus é um velho caçador de morcegos que atua como o chefe da família; seus filhos: Ginda é uma jovem  com problemas de autocontrole tanto no terreno da ira como de sua própria sexualidade; Reth é um adolescente normal que tenta sobreviver em meio aos seus familiares; e por último está o bebê Bojeffries, uma criatura nuclear trancada no porão da casa. E os tios Raoul Zludotny é un licantropo que trabalha numa fábrica dirigida por um simpatizante nazista e é propenso a comer cães, principalmente poodles; e Festus Zludotny é um vampiro que não sabe o idioma direito e nem controlar seus poderes, um cosplayer de Bela Lugosi. Todos estes personagens com personajes con imagens ligadas a outras famílias famosas como os  Munster ou os Addams, convivem em uma casa alugada em qualquer cidade inglesa, tentando passar despercebida e sobreviver pacificamente.

A antologia reúne as histórias curtas que foram publicadas ao longo de três décadas na revista Warrior, e agora que estão reunidade neste tomo, ganham unidade e coerência que nos fazem esquecer que foram publicados tão amplamente. As histórias são tingidas com aquele humor em que ninguém é perturbado, com personagens destemidos, apesar de sempre nos contarem situações ilusórias que contrastam absolutamente com o tom da cena. As tirinhas trazem o estilo e muitas das referências aos elementos narrativos que notabilizaram Moore como um grande storyteller dos quadrinhos nas décadas seguintes, e mais um Moore escrevendo por prazer e sem aqueles compromissos das grandes editoras.

Parkhouse evoca algumas imagens fascinantes da família, mesmo estranhamente e a atmosfera deprimida e economicamente carente em que vivem é transformada em  um ambiente acolhedor e amoroso que garante sua sobrevivência.

A edição brasileira

É curioso como esse trabalho permaneceu “perdido” por anos, apesar de reimpressões em 1994. Mas a Top Shelf/Knockabout recuperaram essa pequena joia à qual acrescentaram material, uma história de 24 páginas exclusiva para a edição. E publicaram neste volume que agora nos chega traduzido para o português por Leandro Luigi Del Manto para a Devir, numa edição caprichada, em capa dura, 96 páginas em preto e branco (com uma história com toques de cor monocromática), formato álbum e papel fosco de boa gramatura. Com prefácio do Alexandre Callari, do canal Pipoca e Nanquim, poderia ter mais materias extras para fazer do título uma obra mais singular pela representatividade do trabalho de Moore.

Veredicto

Se gostas do humor inglês; daquelas gags da família Adams; de um Alan Moore engraçadinho, e ainda escrevendo poesia; de tirinhas cômicas, com experimento e mudanças de estilo únicas; e de uma prosa ligeira, cheia de momentos engraçados e ácidos Bojeffries A Saga é um achado. Curtam esse épico desconstrucionista satírico da família britânica contemporânea, sombrio e surreal, divertido e estranho, recomendamos a leitura

 

 

Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

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