Review | Beowulf de Santiago García e David Rubín

Review | Beowulf de Santiago García e David Rubín

Em certo sentido, uma obra prima se estabelece como tal, pela marca que deixa em sua época, como fonte cultural. E cultura se caracteriza por sua mutabilidade, sua diversidade avassaladora e fértil, temporal e espacial. Obviamente, o problema é o mesmo de sempre, as más adaptações, os jogos metatextuais que traem o texto principal quando não estão diretamente limitados à anedota. E a narrativa gráfica de Santiago García e David Rubin excede algumas características, uma obra bem planejada, que consegue ser um substituto para a leitura da obra original.

Beowulf é para a tradição nórdica, em especial a angla-saxã, o que para os greco-latinos pode ser a Odisséia de Homero. O poema épico, escrito em inglês antigo por um autor desconhecido em algum momento entre os séculos 8 e 12, conta as aventuras do herói sueco Beowulf (século V), principalmente sua luta contra o monstro Grendel. Talvez seja a obra mais adaptada do cânone anglo-saxão, um clássico contado mil vezes. Algo lógico, uma vez que a sobrevivência de Beowulf é compreensível para qualquer leitor, o trabalho é, por um lado, um feito hiperviolento da época medieval, mas é também um trabalho atemporal sobre sacrifício, valor e importância do legado.

Sabemos que não é a primeira adaptação em quadrinhos do poema inglês antigo Beowulf, nem provavelmente será a última. Só para lembrar tivemos mais recentemente adaptações como as de Gareth Hinds; Stefan Petrucha e Kody Chamberlain; ou Stephen Stern e Christopher Steininger, que foram mais padronizadas em relação à exploração criativa. Já o trabalho de Garcia e Rubin se mostram mais aventureiros.

O roteiro de Santiago García segue o poema original, mas adaptando para passar uma nova experiência de leitura, que lhe devora mais do que lê, fazendo da fluência sua maior virtude. É simples, com poucos diálogos. Mas é a arte inovadora de Rubin que capitaliza mais ainda a sensação, em ritmo perfeitamente calculado, para que o leitor possa experimentar os quadrinhos  como um produto total, longe da experiência cada vez mais comum, especialmente no cinema, onde as adaptações são resumos com os melhores momentos do trabalho original.

Por exemplo, a ilustração, acima, de duas páginas do monstro à espreita no salão de hidromel à noite, olhando avidamente os soldados antes de sua batalha com Beowulf. Dentro desse pórtico, Rubin situa painéis menores ao longo do caminho de Grendel para visualizar o que os leitores poderiam ver se estivessem na posição de Grendel. Juntamente com esses painéis, Rubin apresenta outros menores, avermelhados, para ilustrar o que o monstro vê enquanto atravessa o corredor. Em um desenho, portanto, os leitores encontram um layout com o tempo decorrido, a perspectiva humana do ponto de vista de Grendel e o próprio ponto de vista de Grendel. Rubin emprega essa técnica de múltiplas perspectivas ao longo de toda a história em quadrinhos. E com órgãos e sangue suficientes para fazer os 300 de Frank Miller parecerem conservadores, rsrsrs.

O monstro Grendel.

A arte e o uso de painéis, inseridos por Rubin, focaliza detalhes e representa diversas perspectivas, ajudando a mergulhar o leitor ainda mais na história. Uma liberdade artística que imprime em nossa consciência, fatos que não encontramos no épico poema, como no caso de um erotismo inexplicável na batalha de Grendel-Beowulf.

A narrativa de Beowulf é essencialmente a conquista de três monstros por um homem quase divino, e uma história como essa foi divulgada por séculos, sempre alimentada pelo temor e pelo heroísmo apresentado. Em contraste, Garcia e Rubin produziram uma adaptação visualmente impressionante e inovadora. Vale a pena ler, não apenas como a adaptação de um épico do inglês antigo, mas também como uma história em quadrinhos lindamente executada. É, na nossa opinião, a melhor adaptação em quadrinhos de Beowulf até hoje.

SOBRE A EDIÇÂO BRASILEIRA

A Pipoca & Nanquim apresenta uma edição caprichada, marca constante da editora, numa capa dura luxuosa, tamanho (30 x 21,6) que proporciona uma experiência sensorial para a arte da obra, cujas cores são realçadas pelo excelente papel, com brilho e gramatura adequadas. Traduzido pelo Alexandre Callari, que segue fielmente o argumento e a estrutura em três atos da história original, já seguida pela dupla de espanhóis. Um espetáculo visual numa bela edição para ter em sua estante.

AUTORES

Santiago García é roteirista de quadrinhos e escreve sobre eles há mais de vinte anos. Formado em Jornalismo e em História da Arte, colaborou com a seção de quadrinhos do ABCD las artes y las letras, o suplemento cultural do jornal ABC. Também fez parte da equipe fundadora das revistas especializadas U e Volumen e é autor do livro A Novela Gráfica (lançado no Brasil em 2012, pela Martins Fontes). Como roteirista, colaborou com desenhistas como Pepo Pérez (El Vecino, 2004-2009), Manel Fontdevila (Tengo Hambre, 2005), Javier Peinado (La Tempestad, 2008), David Rubín (Beowulf, 2013) e Javier Olivares (El Extraño Caso del Doctor Jekyll y Mister Hyde, 2009; Las Meninas, 2014). Coordenou a antologia de quadrinhos Panorama: La Novela Gráfica Española Hoy (2013) e o compilado de ensaios Supercómic: Mutaciones de la Novela Gráfica Contemporânea (2013).

David Rubín estudou desenho gráfico e se lançou ao mundo dos quadrinhos, animações e ilustração. Com sua primeira grande obra, El Circo del Desaliento (2005), foi nomeado Autor Revelação no Salão Internacional de Quadrinhos de Barcelona, em 2006. A graphic novel seguinte, La Tetería del Oso Malayo (2006), também recebeu quatro indicações, em 2007. Na sequência, lançou Cuaderno de Tormenta (2008), codirigiu a animação Espíritu del Bosque (2008) e adaptou para os quadrinhos Romeo e Julieta (2008), de William Shakespeare. Rubín ilustrou os contos de Solomon Kane, de Robert Howard, e atualizou o mito de Hércules em El Héroe (2011-2012). Incansável, adaptou o poema Beowulf (2013), com Santiago García, e desenhou dois spin-off de Bom de Briga, de Paul Pope: The Rise of Aurora West (2014) e The Fall of the House of West (2015). Ao lado de Miguelanxo Prado produziu Miguel EN Cervantes: El Retablo de las Maravillas (2015) e em 2016 começou a publicar Ether, com Matt Kindt, pela Image Comics. Em 2018 foi nomeado a quatro Prêmios Eisner: Melhor Colorista, Melhor Desenhista, Melhor Série (Black Hammer) e Melhor Adaptação (Beowulf).

Sobre o autor

Cadorno Teles
Professor de Ciências Biológicas e Física, Historiador, idealizador do Canto do Piririguá, astrônomo amador e curte Mestrar RPG e jogar um bom boardgame/videogame.

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