Review | As Madonas de Leningrado – Debra Dean

As Madonas de Leningrado , lido este mês em parceria com a Editora Harper Collins trata de um tema pouco explorado em romances: O Alzheimer.

Marina e Dimitri estão juntos há 65 anos e por mais que Dimitri tente esconder a realidade de seus filhos, durante a festa de casamento de sua neta, fica claro para todos que Marina está cada vez mais distante e afetada pelo Alzheimer.

Ela o está deixando, não de uma vez só, o que seria doloroso o bastante, mas numa agonizante sucessão de separações. Um momento ela está aqui, e então ela se vai novamente. Cada jornada a leva um pouco mais longe de seu alcance. Ele não pode segui-la e se pergunta para  onde ela vai quando parte.

Durante o evento, enquanto convive com pessoas que já não se lembra quem sejam, Marina viaja em suas memórias, voltando a sua juventude, na Rússia, especificamente no Museu Hermitage de São Petersburgo, onde viveu  durante a Segunda Guerra Mundial.

As Madonas de Leningrado – Museu Hermitage em São Petersburgo

Antes da 2ª Guerra, Marina era guia no Hermitage e se orgulhava por conhecer todos aqueles corredores, salas e suas obras de arte.  Da Vinci, Rubens, Rembrandts, Rafael e suas Madonas.

As Madonas de Leningrado – Madona Litta de Da Vinci

As Madonas de Leningrado – Madona Conestabile de Da Vinci

Durante a guerra, ela passou a ter uma nova função: empacotar os quadros do Museu para serem enviados para Moscou.  O Partido sabia o valor das obras de artes existentes ali, e com os nazistas cada vez mais perto de invadir São Petersburgo, decidiram transportar o máximo que pudessem do museu para Moscou.

De repente, as lindas salas com obras de arte que eram percorridas diariamente, passam a ser somente diversas paredes com molduras vazias.

As Madonas de Leningrado – Hermitage – Salas com Molduras durante o Cerco de Leningrado

No inicio isso incomoda pouco aquelas pessoas que sempre viveram ao redor do imponente museu, mas a guerra se estende, e aos poucos as lembranças do que havia naquelas molduras vão desaparecendo. Juntando-se com Anya,  uma Babuska, velha senhora que há anos trabalha no museu ajudando os visitantes, elas começam a criar o Palácio de Memorias, andando diariamente entre as molduras vazias e relembrando o que tinha existido em cada sala.

Anya está ajudando Marina a construir um palácio da memória no museu. “Alguém deve lembrar”, diz Anya, “ou tudo desaparecerá sem deixar vestígios e, depois, eles vão poder dizer que nunca existiu.” Então, toda manhã, elas se levantavam cedo e, juntas, perfazem lentamente o caminho através das salas. Elas acrescentam mais algumas salas todo dia, repovoando mentalmente o Hermitage, quadro por quadro, estátua por estátua..

O mais curioso ainda, é que Anya conta que antes de Marina trabalhar ali, Stalin pegou diversas obras famosas e as vendeu para arrecadar dinheiro para o Partido. Sendo assim, o Palácio de Memórias foi uma peça de resistência, para que Marina e o Museu não perdessem suas memórias.

Mas o tempo é cruel. No fim estas memórias acabaram sendo afetadas por todo o sofrimento trazido pela guerra, e ao invés da lembrança das artes, o que Marina levou na sua vida foram as tristes lembranças daquela época difícil, aguardando bombardeios sobre o telhado de vidro do museu, passando frio e passando fome ao dividir 250 gramas de pão em 3 “refeições” diárias enquanto morava no museu com seus tios.  Este período ficou conhecido como o Cerco de Leningrado e durou 900 dias.

Ninguém chora mais. Se chora, é por coisas pequenas, momentos inconsequentes que as pegam desprevenidas. O que resta de devastador? Não a morte: a morte  é comum. O que é devastador é a visão de uma única gaivota sobrevoando sem esforço um poste de rua. Suas asas se desenrolam como  echarpes de seda contra o céu malva, e Marina escuta o farfalhar de suas penas. O que é devastador é que ainda existe beleza no mundo.

Mas ela nunca dividiu estas lembranças com seus filhos. Então hoje quando ela se afasta, eles não sabem para onde ela está indo.

A autora mistura as memorias do passado e do presente e para Marina, aquilo que era uma salvação no passado, hoje pode ser um abismo que a leva para um caminho sem volta. O que sobra de você quando você já não se lembra mais nem seu nome?

O livro é uma singela reflexão sobre a impossibilidade de se vencer a força do tempo.

Seguimos a vida alimentando nosso Palácio de Memorias, mas seremos capazes de mantê-lo em pé até o fim, frente à força do tempo?

Este livro mexeu bastante comigo. Primeiro pelo lado histórico, contando um evento incrível que é a retirada das obras do Hermitage por medo dos nazista. Nunca ouvira falar sobre isso e tive que ir procurar no Google para confirmar que foi verdade. Depois, pelo lado do Alzheimer e a fragilidade do fim da vida. Acredito que o que levamos da vida são os bons momentos cultuados. Ali estão nossas reais vitórias. Lembranças sobre nossas vitorias e realizações. Ai me machuca ver meu pai hoje numa cama sem nenhumas destas memorias. Ele já não é mais alguém. Aquele que me criou e me mostrou a vida hoje é uma casca oca, sem a sua história, parado num vácuo do tempo.

Impossível não refletirmos sobre nossos pais, e até mesmo sobre o que nos espera.

Uma leitura necessária. Colecionemos nossas lembranças e que elas sigam conosco até o fim de nossa jornada.

Às vezes, quando ela olha, tudo que vê é uma parede vazia. É assustador esse esquecimento, como se mais um pedacinho de sua vida estivesse escapulindo. Se ela deixar todas as pinturas desaparecerem, terá ido com elas.

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