Review | Algo Sinistro Vem por Aí, de Ray Bradbury

SINOPSE: Um parque de diversões itinerante chega a uma pacata cidade do meio-oeste dos Estados Unidos. No entanto, sob tendas e luzes coloridas esconde-se algo ameaçador: um paraíso infernal. Envoltos pelas intrigantes atrações, os espectadores passam por transformações assustadoras que poderão mudar suas vidas de maneira diabólica.
Ávidos por aventura, os amigos de infância Jim Nightshade e William Halloway mergulham nesse curioso circo de horrores para descobrir o que há por trás das atrações. Após se depararem com uma caravana do mal, a dupla tem de desvendar o pesado custo dos desejos… e a fábrica dos seus piores pesadelos.

Algo Sinistro Vem por Aí, título que Ray Bradbury pegou emprestado de uma passagem de Macbeth de Shakespeare, é uma das obras mais apavorantes do célebre autor de Fahrenheit 451. Num misto de memória e – muita – imaginação, o autor cria um parque de diversões que chega a Green Town, uma cidadezinha do meio-oeste norte-americano, em Illinois, no qual alguns frequentadores são escolhidos e subjugados por suas atrações. Com atrações como o Labirinto de Espelhos ou o carrossel amaldiçoado, além das aberrações como o Anão, o Esqueleto, o Senhor Elétrico, a Bruxa do Pó e a Cigana do Tarô. Mas nenhuma delas é mais temível Senhor Dark, o Homem Ilustrado.

O livro ganha uma nova versão pela Bertrand Brasil, esgotada desde a sua primeira e única edição em 2006. Está claro que o efeito do título original ( “Something wicked this way comes” ) é deixar, através das dicotomias clássicas ( o bem versus o mal ou o amor contra o ódio), ao leitor aproveitar uma narrativa atípica com uma uma boa dose de eventos paranormais e personagens sombrios.

Apesar de ser um privilegiado em elaborar histórias, distopias ou fantasias, muito dos elementos que aparecem nesta história têm suas raízes na própria vida de Ray Bradbury. O autor vivenciou a chegada de parque de diversões à sua cidade natal, quando garoto, com várias atrações que o maravilharam, inclusive o Senhor Elétrico, como também o assustaram, mas que lhe deixaram marcas para desenvolver suas narrativas. Aqui ele usa de seu estilo experimental e num lugar-comum, simples, ambientando situações complexas e terríveis que não poderíamos cogitar naquele cenário.

Além disso, o nefasto parque é repleto de simbologia em relação ao tempo, começando com a importância das estações e terminando com a reflexão sobre a passagem do tempo. Jim Nightshade e Will Halloway são os protagonistas da história que, como qualquer adolescente, se deixam levar pela emoção depois de conhecer a iminente chegada daquela estranha atração. Logo percebem a relação entre o mistério e o comportamento estranho de alguns dos moradores da cidade. Uma infinidade de personagens misteriosos e sombrios compõem a pluralidade dos residentes ou atrações do parque, sempre cheia de símbolos que oferecem pistas sobre como descobrir o mistério e resolver a ameaça.

Em um tom diferente de outras obras como Fahrenheit 451, mas com uma escrita cuidadosa, cheia de descrições vívidas e impressionantes, Bradbury nos encanta com reflexões que alcançam todos os sentidos, tornando sua história nossa e percebendo os dilemas morais de seus protagonistas. Oferece-nos um conjunto de personagens e situações muito bem executados, apesar de não ser uma narrativa muita extensa. Dos personagens secundários, o pai de Will Halloway, é que chamou mais a atenção, um bibliotecário cuja vida passou diante de seus olhos muito rapidamente, sem deixar-lhe tempo para assimilar o passar dos anos, um personagem que mostra a relação do ser humano com o anseio pela imortalidade. O autor desenvolve sua vivência quanto garoto e seus anseios, deixando como resultado uma narrativa sinistra e assombrada. Recomendo a leitura para quem gosta de uns bons arrepios.

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