Review | A Terra Longa, Terry Pratchett e Stephen Baxter

O que aconteceria se houvesse uma infinidade de Terras que diferissem uma do outra apenas contiguamente, mas que a diferença entre as mais distantes fosse abismal? Por um lado, temos o ser humano, como tal, apenas evoluiu na nossa Terra, mas outros seres evoluíram de formas convergentes e desenvolveram civilizações. E assim, há locais onde a megafauna não desapareceu, ou onde as aves estão no topo da cadeia alimentar, Terras cobertas de água onde existem apenas os peixes e aquelas com um único deserto continente. Explicações sobre o que poderia acontecer em cada planeta e como a vida evoluiu são complexas e pertencem à ficção.

Os autores

Temos em mão um projeto épico, uma nova saga, intitulada A Terra Longa, cujo primeiro volume (de cinco) foi publicado recentemente pela Bertrand Brasil. Com o saudoso Terry Pratchett e o inédito Stephen Baxter em uma parceria incrível, como uma alquimia literária, dois autores de estilos tão dispares, aliaram a humanidade de Pratchett e a imaginação científica de Baxter para trazer, de maneira fluida sua Terra Longa.

Procurava algo para ler do Pratchett, mas que fosse com a temática futurística. Entre os diversos que escreveu, os de fantasia, envolvia ficção científica, mas em sua maioria, tinha só alguns indícios com a temática. O autor da consagrada série Discworld usou sua fantasia para trazer diferentes formas de vida e sociedades para compará-las com a nossa sociedade era uma máxima de seus livros. Já Stephen Baxter é um autor quase desconhecido no Brasil, poucos de seus romances foram traduzidos e já merecia, pois suas obras receberam o John W. Campbell Memorial Award em 1996, nomeado inúmeras vezes o Nebula e o Hugo. E a colaboração dos dois autores na criação da saga, fazem neste primeiro volume, uma apresentação fluida do cenário, personagens e situações que encontraremos ao longo dos cinco livros da série.

A máquina do Salto

Tudo começa quando uma oficial policial vasculha o que restou da casa de um cientista recluso que teria desaparecido. Enquanto está nos destroços, ela encontra um artefato curioso: uma caixa contendo uma fiação rudimentar, uma chave de três posições e… uma batata. É o protótipo de um Saltador, aparelho que permite viagens por entre infinitas Terras paralelas, um salto de cada vez. Mas, ao que parece, somente a Terra original conta com vida humana — as demais são incríveis variações de fauna e flora virgens, mundos sem fim com vastos recursos naturais. Anos depois surge um saltador natural, que não precisa do aparelho para transitar entre universos. Após viver boa parte da vida como um andarilho solitário por entre as múltiplas Terras às quais tem acesso, ele é recrutado pela influente Black Corporation para uma viagem de exploração. O objetivo: seguir até os confins desses múltiplos mundos, afastando-se cada vez mais da Terra Padrão, e descobrir os segredos e surpresas que a Terra Longa reserva.

Quase por acaso descobrimos que existem milhares, milhões de Terras “paralelas, com esse ponto de partida mais fantástico que dá lugar a uma história com certas derivações que até lembram o Discworld, após a apresentação do fenômeno e do personagem  com certas características especiais, Baxter e Prattchet dedicam seu texto às conseqüências socioeconômicas e nas primeiras expedições, quase sempre individuais para a Terra mais próxima. Logo, a corporação surge para fazer uma expedição de dois «homens», o saltador natural Joshua Valienté e o mecânico tibetano reencarnado em I.A., Lobsang, faz a narrativa remontar de alguma forma à ficção científica dos anos 50 e 60 do século passado e se torna uma história atraente de viagens de exploração e observação.

Os dois personagens são pratchianos, de fato, Lobsang tem o mesmo nome de um personagem da saga Mundodisco, um monge aprendiz, que apareceu em O Ladrão do Tempo. Com a maior parte da história centrada nesses personagens, os autores intercalam  ainda diferentes personagens e situações com narrativas breves como da policial, dos colonos, dos deixados na Terra, amargurados por serem incapazes de fazer o salto para as outras terras. Algo que permite aprofundar temas como o espírito pioneiro, desencadeado pela nova situação, como a política, com as tentativas de manter os governos centralizados ou de deter um poder que perdeu o seu significado como a conhecemos, das implicações sociais e religiosas ao longo dos muitos mundos, do ódio daqueles que se sentem injustamente discriminados, da influência à sombra das grandes corporações.

Os problemas sociais e econômicos são interessantes, pois a humanidade passa de um período de escassez para um de abundância absoluta. Já não é necessário cultivar a subsistência, pois os caçadores-coletores são novamente possíveis. As cidades não são mais necessárias, a humanidade viaja para um número infinito de terras. Uma grande parte da população está deslocada e as cidades estão vazias, os governos não sabem como agir porque não podem proibir a travessia ou são incapazes de perseguir aqueles que outrora pagavam impostos e agora estão distantes de sua Terra originária. Outro ponto que os autores abordam, são com aqueles que não cruzam o espaço-tempo. Sentimentos como ódio, angústia e abandonado são comuns naqueles que não podem fazem a travessia. Algo bem parecido como ocorreu na conquista do Velho Oeste nos EUA, onde famílias que conseguiam fazer a travessia, tinham suas economias e estoques abastecidos para tal. Já há mais pobres faziam suas tentativas, mas muitos ficaram desamparadas. E as classes altas não têm necessidade de buscar um futuro melhor porque já vivem bem e suas viagens são mais para o seu lazer.

A Terra Longa possui diversas referências literárias, JRR Tolkien, Kim Stanley Robinson, autores de ficção científica, como Asimov e Clarke , Star Trek, Lewis Carrol, e uma longa lista de filmes antigos de ficção científica. Os autores constroem mundos alternativos, porém não os detalham, não engrenam bem, figurando só na ação e na aventura da missão dos protagonistas. Tirando isso, temos uma narrativa  onde a ficção científica encontra a fantasia, de uma maneira ampla. Recomendo a leitura!

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