Review| A pérola que rompeu a concha, de Nadia Hashimi

Review| A pérola que rompeu a concha, de Nadia Hashimi

Com uma escrita emocionante, a autora Nadia Hashima, nos leva à uma viagem ao Afeganistão e seus costumes.
Rahima e Shekiba, mulheres de épocas diferentes, se revezam na narrativa e nos dão a ampla perspectiva de cada uma nesse contexto. Shekiba é trisavó de Rahima, e é na trisavó e nas histórias contadas por sua tia Khala Shaima que ela buscará forças e tentará mudar o seu nasib (destino).
Rahima vem de uma família numerosa. Tem um pai guerrilheiro e usuário de ópio , o que o faz passar parte do tempo dominado pela droga e descontando na família tudo de ruim que lhe acontece. Sua esposa lhe deu Cinco filhas e nenhum menino. Frustrada e buscando a ajuda que o esposo não é capaz de oferecer em casa, a mãe de Rahima (sua madar-jan)  acaba por aceitar o conselho de sua irmã e transformá-la em uma Basha Posh. Rahima é a escolhida, se vestirá e frequentará lugares como menino, adotará o nome Rahim, e poderá ir à rua, ir à escola e experimentar toda a liberdade que só os garotos tem direito.
Sua vida está agradável e ela adora ser uma bascha posh, até o dia em que ela discute com a mãe, e o pai já transtornado acaba por fazer o arranjo do casamento (Nikahh) dela e das outras duas irmãs. E aí , nos solidarizamos com o desespero materno de abrir mãos de suas filhas ainda crianças, tendo que se casar tão jovens e  acompanhamos a angústia e o medo dessas meninas, de serem tomadas por esposas sendo tão novas, praticamente crianças. Sendo separadas uma das outras dolorosamente. Cada uma sendo trocada por ópio e dinheiro pelo próprio pai. Cada uma sendo enviada para um complexo, onde viverão com homens que jamais viram. Rahima então, terá seu casamento arranjado com Abdul Khalik, um senhor da guerra. Que não tolerará nenhum comportamento inadequado de Rahima, por menor que seja.

” e um a um, os pássaros vão voando para longe”

E elas terão de se acostumar à nova vida de esposa, a conviver com outras esposas e suas sogras implacáveis. Suportando toda a pressão e tentando se ajustar e fazer o que uma sociedade totalmente patriarcal espera das mulheres: Casar, ser submissa ao esposo e obediente  à sogra e dar-lhes filhos homens. Já que, meninas não são tão valorizadas. Meninos sim são motivo de orgulho para seus pais.

Em contrapartida está Shekiba, trisavó de Rahima, que após perder toda a família, terá suas terras tomadas por parentes e será passada de lar em lar. Com uma deformidade no rosto causada por um acidente na infância, ela passará por todo tipo de maltrato e humilhações em cada canto que passar.

“Shekiba, seu nome  significa presente ,minha filha. Você é verdadeiramente um presente de Alá
 – Esse é o problema com os presentes , Madar-jan: São sempre passados adiante.”

A pérola que rompeu a concha, mostra os costumes afegãos tão distantes dos nossos, traz essas duas mulheres símbolos de resistência em uma cultura que não valoriza as mulheres e nos emociona com cada parágrafo contato por elas aqui. É  impossível não se solidarizar e se emocionar com cada uma delas. A gente observa que em muitos momentos falta apoio e sororidade entre as próprias mulheres, o machismo está enraizado até mesmo na maneira como tratam umas às outras. Há sogras que humilham suas noras, porque também passaram por esse processo de humilhações de suas sogras e em seus casamentos, há mulheres enciumadas pela preferência de seu esposo por uma das esposas ou por um de seus filhos. Umas tem mais privilégios que outras. Há uma hierarquia a cumprir. Um grau de importância.  Há um modelo a seguir. As tradições vão passando de geração a geração e ninguém ousa quebrar esse ciclo. Toda essa cobrança e costumes são passados adiante e vão perpetuando geração após geração.

Esta é uma edição da editora Arqueiro. Gostei da capa, a fonte em bom tamanho, capítulos curtos que nos permite uma leitura que flui bem, combinada à uma história que embarga a nossa voz, nos emociona e nos deixa até (Por que não dizer?) estarrecidos e chocados em parte. Só senti falta de uma coisa: Notas de rodapé. Muitas palavras (em árabe eu acho) . Seria de grande valia notas de rodapé com os significados. Mas é bom ir pesquisando e aprendendo mais.

Amei essa leitura. Fica aqui como um dos melhores lidos neste ano tão difícil de 2020.
Se vocês já leram ” o caçador de pipas” ou ” A cidade do sol” podem apostar neste e colocá-lo na estante lado a lado deles também. É uma narrativa tão forte e inesquecível quanto. Sem ser repetitiva ou parecida. Recomendo fortemente.

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